Aug 29 / Luiz Fernando G. Roque

Call de Mercado – Milho e Trigo - Destaques

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“Resumo com os principais pontos destacados em nossa Call de agosto sobre os mercados de Milho e Trigo”.

Atualização de Cenários para Milho e Trigo

Visão Geral Macro


O pano de fundo macroeconômico global segue dominado pelas expectativas em torno da política monetária dos EUA. O Federal Reserve sinaliza possibilidade de cortes de juros a partir de setembro, movimento que impactaria diretamente o fluxo cambial. A perspectiva de queda da taxa americana tende a fortalecer moedas emergentes, em especial o real, pela ampliação do diferencial de juros. O real vem apresentando trajetória de valorização desde o início do ano, tendência que pode ganhar intensidade nos próximos meses.

No entanto, para o Brasil, há fatores adicionais de risco. O processo eleitoral de 2026 já começa a ser precificado, e historicamente, a aproximação do calendário eleitoral tende a gerar maior volatilidade cambial, especialmente no último trimestre do ano anterior. Além disso, tensões comerciais globais — com destaque para as medidas protecionistas e retaliações em curso entre EUA e China — mantêm incertezas relevantes para os fluxos internacionais de commodities. Nesse contexto, o mercado de grãos opera sob forte influência não apenas de fundamentos agrícolas, mas também do ambiente macroeconômico.


Milho

Cenário Global

O ciclo 2025/26 se inicia com expectativa de oferta robusta. A produção mundial deve crescer mais de 60 M ton em relação ao ciclo anterior, puxada pelos EUA. Entretanto, a demanda também avança de forma significativa, sustentada pelo consumo para ração e pelo crescimento do uso industrial, principalmente para etanol. O quadro global sinaliza abundância de oferta, mas com nuances importantes: qualquer descompasso climático na América do Sul ou aumento inesperado da demanda chinesa pode alterar o balanço.

Milho - Mundo e Principais Países - Oferta e Demanda (em M ton)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         Fonte: USDA, Hedgepoint

Milho - Preços FOB - Principais Origens (em USD por ton)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         Fonte: LSEG, Hedgepoint


China

• Estoques finais projetados em queda, reflexo de produção estável e crescimento do consumo.

• Margens da suinocultura em patamares baixos, o que limita estímulos para aumento imediato do uso de ração. Apesar disso, o rebanho permanece elevado e estável.

• Caso o governo chinês opte por recompor estoques estratégicos (em torno de 190–200 M ton), há espaço para importações adicionais, criando uma janela de oportunidade para Brasil e Argentina, como ocorreu em 2023/24, quando o Brasil exportou mais de 20 M ton para o país.

• No curto prazo, o milho americano tende a continuar sendo mais competitivo, o que pode impactar as exportações do Brasil.


Estados Unidos

• O USDA surpreendeu o mercado em agosto ao projetar safra recorde de 425 M ton, muito acima das expectativas médias (406–407 M ton). Trata-se da maior safra já registrada no país.

• Estoques devem subir de 33 M ton para 53 M ton, ampliando a pressão sobre os contratos em Chicago, que já romperam o piso de US$ 4,30/bu, trabalhando próximos a US$ 4,00/bu.

• Exportações vêm em ritmo forte: mais de 18 M ton já vendidas para 2025/26, praticamente o dobro do ano anterior nesta mesma época.

• O clima foi favorável durante todo o desenvolvimento da safra, com índices vegetativos (NDVI) acima da média histórica e boas condições para início da colheita.

• Risco: eventuais revisões de produtividade pelo USDA em setembro/outubro podem reduzir parcialmente a estimativa, ajustando os estoques para baixo. Ainda assim, o quadro segue confortável.


Brasil

• Hedgepoint revisou a safra total 24/25 para 138,2 M ton, acima da estimativa de junho (+3,7 M ton) e do USDA (132 M ton). O número reflete produtividades recordes em várias regiões do Centro-Oeste.

• Estoques finais projetados em 11,6 M ton, mais folgados em relação ao ciclo anterior.

• Consumo interno em expansão, impulsionado pelo etanol de milho. Na temporada 2024/25, cerca de 24 M ton devem ser destinadas à produção de etanol, e esse volume pode dobrar em poucos anos com a entrada de novas usinas.

• Exportações estimadas em 42 M ton, mas com risco de redução, dada a forte competitividade do milho americano.

• Comercialização da 2ª safra segue lenta (43% vs. 50% da média histórica), com produtores segurando parte do volume na expectativa de melhores preços.

• Preços domésticos (Campinas) em torno de R$ 64–65/sc, pressionados pela ampla oferta.

• No mercado internacional, o Brasil terá de competir também com a Argentina, que deve ampliar exportações no próximo ciclo.


Milho - Brasil - Oferta e Demanda

                                                                                                                                   Fonte: USDA, Hedgepoint


Argentina

• Produção atual estimada em 50 M ton, com possibilidade de aumento para 2025/26, dado que as margens do milho superam as da soja. A expectativa é de crescimento da área.

• Câmbio unificado pelo governo Milei reduziu distorções e aumentou previsibilidade, incentivando a comercialização antecipada: produtores já venderam cerca de 5% da nova safra (vs. 1% no mesmo período do ano passado).

• Exportações devem crescer, competindo diretamente com o milho brasileiro no 2º semestre.

• Risco climático relevante: NOAA projeta 60% de chance de La Niña ainda em 2025, o que pode trazer seca na Argentina e Sul do Brasil, afetando produtividades.



Trigo

Cenário Global

O mercado global de trigo em 2025/26 apresenta quadro de ampla oferta. A produção tende a superar a do ano anterior, puxada principalmente pela União Europeia e Rússia, enquanto a Ucrânia segue limitada pela guerra. Estoques globais, no entanto, não crescem no mesmo ritmo e devem permanecer próximos aos níveis de 2024/25, sugerindo equilíbrio, mas ainda com pressão baixista devido à oferta abundante.


Trigo - Mundo e Principais Países - Oferta e Demanda (em M ton)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         Fonte: USDA, Hedgepoint

Trigo - Preços FOB - Principais Origens (em USD por ton)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                           Fonte: LSEG, Hedgepoint


Estados Unidos

• Produção um pouco abaixo da safra passada, em função da menor área, mas sustentada por boas produtividades.

• Exportações podem crescer levemente (até 24 M ton), enquanto os estoques permanecem elevados.

• Chicago continua pressionado, refletindo o peso da ampla disponibilidade global e a forte concorrência internacional.


União Europeia

• Safra estimada em 138 M ton, contra 122 M ton no ciclo anterior.

• Importações devem cair de 11 para cerca de 6 M ton, enquanto exportações devem aumentar.

• O ganho de competitividade europeia pressiona também as exportações da Ucrânia, que já sofrem com restrições logísticas e impostos restabelecidos pela UE.


Argentina

• Produção projetada próxima de 20 M ton, com exportações em crescimento.

• No Brasil, a área de trigo segue limitada por margens pouco atrativas, especialmente no Sul (RS e PR), mantendo a dependência das importações de trigo argentino.


Ucrânia

• Produção estimada entre 20–23 M ton, bem abaixo do pré-guerra (33 M ton).

• Além das restrições logísticas, o retorno dos impostos de importação na UE reduz o acesso do trigo ucraniano ao mercado europeu.

• Exportações devem voltar a cair.


Rússia

• Produção em expansão, com exportações favorecidas pela retirada (quase total) dos impostos de exportação.

• Apesar de problemas pontuais de clima durante o desenvolvimento da safra, as colheitas indicam produtividades acima da média, consolidando a Rússia como maior exportador mundial.



Touros e Ursos

Fatores Altistas

• Potencial aumento das importações de milho pela China, caso o governo decida recompor estoques estratégicos.

• Crescimento contínuo da demanda de milho para etanol no Brasil, adicionando nova camada de consumo estrutural.

• Risco de retorno do La Niña.

• Possibilidade de revisões para baixo na produtividade do milho americano.

• Eventuais avanços diplomáticos que encerrem ou reduzam conflitos comerciais, especialmente envolvendo China.


Fatores Baixistas

• Safra recorde de milho nos EUA, com estoques elevados e exportações em ritmo acelerado.

• Expansão da oferta de trigo na União Europeia, Rússia e Argentina.

• Pressão sazonal da colheita nos EUA (milho e trigo) e no Brasil (milho).

• Produtores argentinos incentivados a vender mais cedo, ampliando a concorrência.

• Fundos especulativos fortemente vendidos em milho e trigo, reforçando a tendência baixista de curto prazo.



Considerações finais

O mercado de grãos entra no ciclo 2025/26 sob forte influência da abundância de oferta global, especialmente de milho nos EUA e de trigo na União Europeia e Rússia. O viés predominante é baixista, com preços pressionados em Chicago e impacto nos referenciais internacionais.

No entanto, riscos altistas permanecem no radar: maior participação da China nas importações, efeitos de um possível La Niña e ajustes nas estimativas de safra nos EUA poderiam reverter parte da pressão. Para o Brasil, o consumo interno de milho para etanol emerge como novo vetor estrutural de demanda, reduzindo a dependência das exportações no médio prazo.

Em síntese, o cenário-base aponta para preços pressionados no curto prazo, mas a amplitude das incertezas climáticas e políticas exige acompanhamento constante, com o mercado altamente sensível a qualquer sinal de mudança no quadro de oferta e demanda global.


Link – Call de Agosto

Para assistir a íntegra da Call de agosto sobre os mercados de Milho e Trigo, clique neste link.

Inteligência de Mercado – Grãos e Oleaginosas

Escrito por Luiz F. Roque
Luiz.Roque@hedgepointglobal.com


Revisado por Thais Italiani

Thais.Italiani@hedgepointglobal.com

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