Dec 26 / Victor Arduin

Relatório Semanal Energia - 2023 12 26

A saída da Angola da OPEP sinaliza a fragilidade da organização sobre o fornecimento de petróleo

  • A OPEP tornou-se um grupo menor, com 12 membros, após a saída da Angola.
  • Angola quer aumentar sua produção, já que sua economia depende das exportações de petróleo, mas enfrenta desafios.
  • Além disso, a saída da Angola expõe a vulnerabilidade do grupo e enfraquece a liderança da Arábia Saudita.

Introdução

A situação atual do complexo energético é desafiadora para os países que dependem da receita do petróleo, especialmente aqueles que participam da maior aliança de produção e exportação de petróleo do mundo - a OPEP+. Enquanto países como a Arábia Saudita buscam demonstrar a união da organização na redução da oferta global de petróleo para trazer, em suas palavras, estabilidade à volatilidade dos seus preços, outras nações buscam aumentar sua participação no mercado, especialmente países africanos como Angola.

Além disso, a última reunião da organização foi marcada por um atraso, resultado de divergências internas em relação às cotas de produção de cada país. Desde então, o mercado tem refletido um déficit reduzido para a commodity energética. A tendência baixista não é apenas um reflexo da sua oferta, mas também resultado da preocupação crescente em torno da demanda. Os EUA continuam acumulando estoques de produtos refinados, um sinal de que as refinarias podem precisar de menos petróleo nas próximas semanas, além dos riscos de menor consumo na China e na Europa.

Assim, dado o atual equilíbrio entre oferta e demanda do complexo energético e a tendência baixista que ganha força, por que a Angola sairia da OPEP?  
Figura 1: Produção de petróleo bruto da Angola (milhões de bpd) vs WTI (USD/barril)

Fonte: Bloomberg

Figura 2: Produção de petróleo bruto Membros africanos (milhões de bpd)

Fonte: Refinitiv

Qual é a razão para a saída da Angola da OPEP?

Vamos dar um passo para trás e entender um pouco sobre o contexto desse país. A Angola entrou para a OPEP e 2007, quando a produção do país era de cerca de 1,9 milhão de barris por dia (bpd). Hoje, o país produz 1,1 bpd, aproximadamente 45% menos do que em seu pico há mais de 15 anos. Os motivos vão desde a falta de investimentos até a ausência de novos projetos em campos de petróleo. Além disso, durante esse período, para complicar ainda mais a exploração hidrocarbonetos no país, os preços da commodity caíram significativamente, só voltando a níveis mais altos em 2022.

Como aproximadamente 90% das exportações de Angola em 2022 consistiam em petróleo e gás, o país depende muito da produção de petróleo bruto. Embora o governo busque diversificar a economia, é provável que o petróleo continue sendo a principal commodity de exportação do país no futuro.

Na OPEP, a influência de cada membro é medida pela produção de barris de petróleo, o que torna Angola menos influente na definição da estratégia da organização e na operação do sistema de cotas. Nesse cenário, a nação africana entendeu que o melhor caminho para preservar seus interesses de aumentar a produção seria sair da OPEP.

Figura 3: Bens e serviços de exportação da Angola e preços do petróleo bruto

Fonte: FMI

Agora, em termos práticos de oferta e demanda, o que muda com a saída de Angola da OPEP no mercado mundial? Não muito...

Mesmo que Angola busque aumentar sua produção, o país enfrenta muitos desafios. Em primeiro lugar, a produção do país está muito próxima da capacidade, portanto, não há espaço ocioso que o país possa ativar neste momento. Olhando para o horizonte, a tentativa de expandir sua capacidade depende de muito investimento, recursos que o país não tem agora, e enfrenta uma escassez de investidores estrangeiros. Além disso, mesmo que isso acontecesse, levaria algum tempo para ser realizado. Portanto, a saída de Angola preocupa mais pelo que significa do que pelos resultados que produz.


Figura 4: Produção e capacidade de petróleo bruto da OPEP (milhões de bpd)

Fonte: Reuters

Em Resumo

Enquanto isso, os recentes movimentos dentro da OPEP enfraqueceram a liderança da Arábia Saudita, o segundo maior produtor de petróleo, atrás apenas dos Estados Unidos. Parece que a nação saudita quer manter os preços do petróleo em um valor muito alto, próximo a US$ 100. Enquanto isso, os outros membros ficariam satisfeitos com preços em torno de US$ 70, mas mantendo a atual participação no mercado, que está sendo gradualmente sendo preenchida pelos países não membros da OPEP+.

Com todas essas idas e vindas, os Emirados Árabes Unidos (EAU) podem ser um grande beneficiário. Isso porque eles buscam mais espaço no sistema de cotas para aumentar sua produção. Ao contrário da Angola, eles têm capacidade não utilizada que pode ser ativada, saltando dos atuais 3,1 milhões de barris por dia (bpd) para 4 milhões de bpd, e podem concentrar investimentos que poderiam aumentar sua produção para quase 5 milhões de bpd.

Portanto, como mencionado anteriormente neste artigo, como o poder de cada membro é medido em capacidade de produção, os Emirados Árabes Unidos são um membro muito influente e desejado para permanecer na organização, obrigando, talvez, a Arábia Saudita fazer concessões no sistema de cotas do grupo no futuro.

Relatório Semanal — Energia

Escrito por Victor Arduin
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Revisado por Livea Coda
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