Live com Especialistas – Milho e Complexo Soja - Destaques
“Resumo com os principais pontos destacados em nossa Live com Especialistas de junho sobre os mercados de Milho e do Complexo Soja”
Atualização de Cenários para Milho e Complexo Soja
Introdução
Os mercados globais de milho e do complexo soja atravessam um momento de transição importante, marcado pela interação entre fatores macroeconômicos, geopolíticos, energéticos e climáticos. Apesar da perspectiva de grandes safras em alguns dos principais produtores mundiais, surgiram novos vetores estruturais de sustentação de preços, especialmente ligados ao avanço dos biocombustíveis e à retomada da influência do petróleo sobre as commodities agrícolas.
Ao mesmo tempo, os mercados permanecem bastante sensíveis ao clima. O foco do mercado migra gradualmente da colheita sul-americana para o desenvolvimento da safra norte-americana e, posteriormente, para os potenciais impactos do El Niño sobre a América do Sul na temporada 2026/27.
Nesse contexto, milho e soja apresentam fundamentos relativamente equilibrados no curto prazo, mas com elevada volatilidade potencial para os próximos meses.
Visão Geral Macro
O principal vetor macroeconômico segue sendo o conflito no Oriente Médio envolvendo Irã e Estados Unidos. Mesmo com a existência de cessar-fogo, o mercado continua trabalhando com elevado nível de incerteza geopolítica, mantendo forte volatilidade nos mercados financeiros e pressão sobre commodities energéticas.
O petróleo voltou a assumir relevância direta sobre os mercados agrícolas. A alta da energia:
• pressiona inflação global;
• eleva custos logísticos;
• aumenta competitividade dos biocombustíveis;
• fortalece a demanda por óleo de soja e milho para etanol.
Esse movimento altera parcialmente a dinâmica tradicional do setor agrícola, já que parte relevante da demanda por soja e milho passa a depender cada vez mais do mercado energético.
Diversos países elevaram ou discutem ampliar mandatos obrigatórios de biodiesel e etanol, buscando reduzir dependência de combustíveis fósseis e conter pressões inflacionárias. Isso cria uma base estruturalmente positiva para:
• esmagamento de soja;
• demanda por óleo de soja;
• consumo de milho para etanol.
Nos Estados Unidos, a inflação voltou a mostrar aceleração recente, principalmente devido ao peso da energia. Isso fez o Federal Reserve interromper o ciclo de redução de juros, aumentando a possibilidade de manutenção dos juros elevados por mais tempo.
Paralelamente, o dólar perdeu força globalmente. O índice DXY segue enfraquecido, enquanto ativos defensivos, como ouro, ganharam valorização significativa devido à busca global por proteção.
No Brasil, o diferencial de juros continua favorecendo o fluxo de capital para o país. Como consequência:
• o real se valorizou de forma importante;
• o câmbio recuou da região de R$6,20 para próximo de R$5,00;
• os preços agrícolas internos ficaram parcialmente pressionados pelo movimento cambial.
A valorização recente do real frente ao dólar reduz a competitividade das exportações brasileiras e limita parcialmente o repasse da valorização internacional para os preços domésticos. Isso ocorre justamente em um momento de elevada competição global, especialmente no milho, com Argentina e Estados Unidos apresentando origens mais competitivas no mercado internacional.
Além disso, o ambiente geopolítico ganhou relevância direta para o agro brasileiro. O Oriente Médio consolidou-se como um importante destino para as exportações brasileiras, especialmente:
• milho;
• carne de frango.
Qualquer deterioração nas relações comerciais ou logísticas da região pode gerar impactos relevantes sobre fluxo de exportação, demanda doméstica e formação de preços no Brasil.
Desempenho do real vs. dólar | em R$/USD

Fonte: LSEG, Hedgepoint
Panorama Climático
O principal fator climático do mercado atualmente é a transição para o El Niño. As probabilidades de confirmação do fenômeno já superam 80%-90%, com risco crescente de um evento forte ou muito forte.
Probabilidades ENSO

Fonte: NOAA
Históricamente, o El Niño provoca:
• chuvas abaixo da média no centro-norte do Brasil;
• chuvas acima da média no sul da América do Sul.
Isso aumenta a preocupação especialmente com o Centro-Norte brasileiro. O mercado continua bastante sensível após as perdas registradas na safra brasileira de soja em 2023/24, quando episódios de seca associados ao El Niño afetaram significativamente a produtividade nessa região.
Por outro lado, Argentina e Sul do Brasil podem ser beneficiados pelo aumento das precipitações, criando possibilidade de compensação parcial das perdas eventuais no centro-norte brasileiro.
Outro ponto relevante é o Sudeste Asiático. Indonésia e Malásia, maiores produtores mundiais de óleo de palma, podem enfrentar períodos mais secos sob influência do El Niño.
Caso isso ocorra:
• a produção de óleo de palma pode cair;
• os preços internacionais do óleo vegetal tendem a subir;
• o óleo de soja ganha suporte adicional.
Padrão de Chuvas | El Niño

Fonte: Columbia University
Nos Estados Unidos, o cenário climático atual ainda é bastante positivo:
• plantio acelerado;
• boa umidade;
• condições iniciais das lavouras próximas dos níveis observados na safra recorde anterior.
Mesmo assim, o mercado climático entre junho e agosto continua sendo o principal fator de definição para milho e soja em Chicago no curto prazo.
Ao mesmo tempo, o mercado segue monitorando a possível consolidação do El Niño. Embora os impactos mais relevantes devam ocorrer no final do ano (próximo ciclo sul-americano), a simples perspectiva de um evento climático relevante já adiciona prêmio de risco ao mercado.
Soja
China
A China continua priorizando segurança alimentar e manutenção de estoques estratégicos elevados de soja.
Os estoques chineses permanecem acima de 44 milhões de toneladas, equivalentes a aproximadamente quatro meses de consumo.
Mesmo com desaceleração no crescimento do consumo:
• as importações continuam elevadas;
• o objetivo principal segue sendo recomposição e manutenção de estoques.
Soja | China | Estoques e Estoque/Uso (M Ton, %)

Fonte: USDA, Hedgepoint
Ao mesmo tempo, surgem sinais de desaceleração estrutural:
• margens mais apertadas na suinocultura;
• possível redução do plantel de matrizes;
• menor crescimento do consumo de farelo de soja.
A demanda chinesa continua relevante, mas em ritmo muito menos acelerado do que na década passada.
Soja | China | Oferta e Demanda

Fonte: USDA
Estados Unidos
A soja norte-americana ganhou área nesta nova temporada (2026/27), refletindo melhor relação de preço frente ao milho durante o período de decisão de plantio.
Mesmo com possibilidade de uma safra próxima de 121 milhões de toneladas, o mercado segue relativamente sustentado devido ao fortíssimo crescimento do esmagamento.
O principal driver da soja hoje é o biodiesel:
• os mandatos de mistura aumentaram significativamente;
• a demanda por óleo de soja disparou;
• as margens de esmagamento atingiram níveis historicamente elevados.
EUA - Soja - Oferta e Demanda

Fonte: USDA, Hedgepoint
O óleo de soja passou a representar a principal fonte de rentabilidade do esmagamento norte-americano. Isso fez o mercado migrar parte de sua dependência da exportação chinesa para o consumo energético doméstico.
O esmagamento opera próximo do limite da capacidade instalada e pode continuar crescendo caso novas expansões industriais ocorram.
EUA - Participação do Óleo de Soja na Margem (%)

Fonte: LSEG, Hedgepoint
EUA - Esmagamento de Soja – Acumulado (M bu)

Fonte: NOPA, Hedgepoint
Chicago permanece relativamente sustentado na faixa próxima de US$11,50–12,00/bushel, considerada compatível com o balanço atual de oferta e demanda.
Existe espaço para correções técnicas, principalmente no óleo de soja, devido ao elevado nível de posições compradas dos fundos, mas sem mudança estrutural de tendência no momento.
Brasil
O Brasil segue consolidando sua liderança global na soja:
• produção extremamente elevada;
• novo recorde de exportações;
• esmagamento sustentado pelo biodiesel.
Apesar disso, existe cautela em relação à temporada 2026/27:
• possível impacto do El Niño;
• margens apertadas do produtor;
• desaceleração no crescimento de área.
Brasil - Soja - Produção (M ton), Área colhida (M ha) e Produtividade (ton/ha)

Fonte: USDA, Hedgepoint
Brasil - Soja - Oferta e Demanda - USDA x Hedgepoint

Fonte: USDA, Hedgepoint
Soja - Brasil – Line-up Exportação - Acumulado do ano (M ton)

Fonte: Secex, Agências Marítimas, Hedgepoint
A comercialização permanece lenta:
• preços considerados pouco atrativos;
• grande volume disponível no mercado;
• produtor aguardando melhor definição de cenário.
Os preços internos ainda encontram dificuldade para recuperação mais consistente devido:
• à supersafra;
• à disponibilidade elevada;
• à valorização cambial do real.
Mesmo assim, o Brasil deve continuar liderando o mercado exportador global de soja com ampla vantagem.
Argentina
A soja argentina perdeu área para o milho na safra mais recente (2025/26), reduzindo a produção total mesmo com boas produtividades.
As exportações extraordinárias do último ciclo não devem se repetir, especialmente porque os EUA voltaram a recuperar parte do espaço perdido na China durante o período mais intenso da guerra comercial.
O mercado acompanha com atenção a política de “retenciones” argentinas. Possíveis reduções nos impostos de exportação poderiam:
• aumentar competitividade argentina;
• estimular exportações;
• ampliar concorrência com Brasil e EUA.
Argentina - Soja - Oferta e Demanda

Fonte: USDA, Hedgepoint
Milho
China
A China segue reduzindo gradualmente seus estoques de milho acumulados nos últimos anos. Apesar disso, os níveis de estoque permanecem elevados, mantendo a relação estoque/uso próxima de 50%.
Milho China - Estoques e Estoque/Uso (M Ton, %)

Fonte: USDA, Hedgepoint
A expectativa é de:
Mllho China - Oferta e Demanda

Fonte: USDA, Hedgepoint
Estados Unidos
Os Estados Unidos seguem como principal referência para o mercado mundial de milho.
A área plantada na temporada 2026/27 recuou em relação ao ano anterior, devido à maior atratividade relativa da soja no momento da decisão de plantio. Mesmo assim, o país ainda pode colher uma safra superior a 406 milhões de toneladas, podendo ser a segunda maior produção da história.
Milho EUA - Produção (M ton), Área colhida (M ha) e Produtividade (ton/ha)

Fonte: USDA, Hedgepoint
O destaque mais relevante está nas exportações:
Milho EUA - Oferta e Demanda

Fonte: USDA, Hedgepoint
As condições das lavouras norte-americanas permanecem positivas:
Brasil
O Brasil trabalha com expectativa de uma safra muito elevada, próxima de 140 milhões de toneladas. Apesar de alguns problemas pontuais de umidade durante o desenvolvimento da segunda safra, os indicadores gerais de vegetação e condição das lavouras continuam positivos.
O principal fator estrutural de sustentação do milho brasileiro é o crescimento acelerado do etanol de milho.
O país saiu praticamente do zero em consumo industrial de milho para etanol em 2017 para níveis próximos de 28,5 milhões de toneladas atualmente. Além disso:
• existem 27 usinas operando;
• mais de 30 novos projetos estão em desenvolvimento;
• o consumo interno deve continuar crescendo nos próximos anos.
O potencial avanço do E32 também pode ampliar ainda mais o consumo doméstico de milho.
Brasil - Milho - Oferta e Demanda

Fonte: USDA, Conab, Hedgepoint
Por outro lado, permanecem preocupações importantes relacionadas à exportação:
• concorrência agressiva de Argentina e EUA;
• milho brasileiro atualmente menos competitivo;
• risco geopolítico envolvendo Oriente Médio.
O Irã foi um dos principais compradores do milho brasileiro recentemente, e qualquer deterioração do conflito pode afetar a demanda da região.
Os preços domésticos seguem pressionados:
• grande oferta disponível;
• expectativa de safra cheia;
• valorização do real limitando recuperação dos preços internos.
Argentina
A Argentina aparece como o principal competidor do milho brasileiro no mercado internacional.
A safra argentina evoluiu de maneira muito positiva:
• aumento importante de área;
• clima favorável;
• produtividade elevada;
• preços extremamente competitivos no mercado global.
Milho Argentina - Oferta e Demanda

Fonte: USDA, Hedgepoint
As exportações argentinas já começaram em ritmo forte, acima do observado nos últimos anos. Além disso, existe possibilidade de novas revisões altistas para a produção do país nos próximos relatórios do USDA, pois estimativas locais apontam para uma produção de até 67 milhões de toneladas (vs. 59 M ton do USDA).
Quanto maior a produção argentina:
• maior tende a ser a competição com o milho brasileiro;
• maior pressão sobre os fluxos exportadores do Brasil no segundo semestre.
Argentina – Exportações de Milho (M ton)

Fonte: Argus
Touros e Ursos
Fatores Altistas (Touros)
Soja
Milho
Fatores Baixistas (Ursos)
Soja
Milho
Considerações finais
Os mercados de milho e soja seguem relativamente equilibrados no curto prazo, mas inseridos em um ambiente de elevada volatilidade potencial.
O principal diferencial estrutural atual é o fortalecimento do vínculo entre commodities agrícolas e mercado de energia. A expansão dos biocombustíveis passou a representar um dos principais vetores de crescimento de demanda tanto para milho quanto para soja.
No milho, o avanço do etanol de milho no Brasil muda estruturalmente o balanço interno e reduz gradualmente a dependência exclusiva das exportações.
Na soja, o esmagamento norte-americano impulsionado pelo biodiesel tornou-se o principal fator de sustentação dos preços internacionais, mesmo com expectativas de safras elevadas.
Os principais fatores a monitorar nos próximos meses serão:
• clima nos EUA;
• evolução do El Niño;
• comportamento do petróleo;
• conflito no Oriente Médio;
• competitividade exportadora entre Brasil, EUA e Argentina.
Apesar de ainda existirem estoques relativamente confortáveis em nível global, o mercado demonstra crescente sensibilidade a riscos climáticos e energéticos, mantendo um ambiente bastante dinâmico para formação de preços ao longo do segundo semestre.
Link – Live com Especialistas de Junho
Para assistir a íntegra da Live com Especialistas de Junho sobre os mercados de Milho e do Complexo Soja, clique neste link.
Inteligência de Mercado – Grãos e Oleaginosas
Escrito por Luiz F. Roque
Luiz.Roque@hedgepointglobal.com
Revisado por Thais Italiani
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