Aug 31 / Luiz Fernando G. Roque

Outlook 2º Semestre 2026 – Milho e Complexo Soja - Destaques

“Resumo com os principais pontos destacados em nosso Outlook 2º Semestre 2026 sobre os mercados de Milho e do Complexo Soja”.

Outlook 2º Semestre 2026 – Milho e Complexo Soja

Introdução


Os mercados de soja e milho entram em uma fase de transição particularmente importante. As atenções começam a migrar da definição das safras norte-americanas e entrada da colheita nos Estados Unidos para o início do plantio da nova safra sul-americana. Essa transição ocorre em um ambiente no qual a demanda continua oferecendo suporte relevante, enquanto ainda existem dúvidas importantes sobre o tamanho efetivo da oferta, sobretudo nos Estados Unidos e na América do Sul. 

Ao mesmo tempo, a formação de preços está sendo influenciada por fatores que extrapolam os fundamentos agrícolas tradicionais. As tensões entre Estados Unidos e Irã, a intensificação do conflito entre Rússia e Ucrânia, a retomada das compras chinesas de soja americana, o crescimento do esmagamento nos EUA e a expansão do etanol de milho no Brasil adicionam novas camadas de complexidade ao mercado. O resultado é um ambiente em que fundamentos, geopolítica, energia, câmbio e fluxo financeiro passam a atuar simultaneamente, aumentando a importância da gestão de risco e da comercialização por componentes.


Panorama Macro


O ambiente macro é dominado por três grandes temas: relações Estados Unidos-China, conflitos geopolíticos e energia/câmbio.


A relação comercial entre Estados Unidos e China volta ao centro das atenções com a reunião prevista para 24 de setembro, em Washington, a primeira desde a visita de Donald Trump a Pequim em maio de 2026. A expectativa em torno do encontro é elevada porque a China voltou a comprar soja americana em volumes relevantes, após um período de compras muito reduzidas. Existe uma meta de aproximadamente 25 milhões de toneladas anuais de soja americana no âmbito dos entendimentos recentes, volume inferior ao recorde de cerca de 36 M ton, mas ainda bastante significativo para o balanço americano. 

Um aspecto fundamental é diferenciar compras estatais e compras das esmagadoras privadas chinesas. As estatais podem adquirir soja americana por razões estratégicas e geopolíticas, independentemente da margem de esmagamento. Já as empresas privadas tendem a comprar a origem mais competitiva. Portanto, a confirmação de compras privadas chinesas de forma consistente seria um sinal muito mais relevante para o mercado, pois indicaria competitividade efetiva da soja americana e poderia pressionar os prêmios brasileiros. 

A reunião também ocorrerá próxima às eleições legislativas americanas de novembro, o que acrescenta uma dimensão política. Ao mesmo tempo, existe um risco de deterioração das relações entre Washington e Pequim caso a política americana de retaliação ao Irã atinja terceiros países que mantenham relações comerciais com Teerã – um ponto particularmente sensível porque a China possui relações comerciais relevantes com o Irã. 

Geopolítica e Mar Negro

A intensificação dos ataques entre Rússia e Ucrânia tornou-se particularmente importante para os mercados de grãos. Os ataques atingiram instalações portuárias dos dois países, comprometendo a capacidade logística de exportação. A Ucrânia enfrenta seu pior nível de exportações de grãos em volume desde o início da guerra em 2022, enquanto a Rússia apresenta seu menor potencial exportável de trigo desde 2011. 

O impacto não ocorre apenas pela redução física da oferta. Existe também um prêmio de confiabilidade da origem. À medida que compradores passam a questionar a capacidade de execução de embarques do Mar Negro, origens consideradas mais confiáveis, como o Brasil, Argentina e Estados Unidos, podem capturar prêmios maiores. 

Câmbio e energia

O conflito elevou a aversão global ao risco e fortaleceu o dólar, enquanto o real permaneceu relativamente valorizado, influenciado também pelo diferencial de juros e pelo carry trade. A aproximação das eleições brasileiras adiciona uma fonte adicional de volatilidade cambial para os próximos meses. 

O petróleo e o diesel também voltaram a ganhar força com a escalada dos conflitos. O encarecimento da energia favorece o mercado de biocombustíveis, especialmente o óleo de soja utilizado na produção de biodiesel. O óleo de soja, inclusive, vem apresentando desempenho mais forte do que o óleo de palma e tornou-se um componente cada vez mais importante da formação da margem de esmagamento nos Estados Unidos. 

Fertilizantes

A alta dos fertilizantes é outro componente relevante. Os preços subiram significativamente após o início dos conflitos, recuaram parcialmente e voltaram a ganhar força com a intensificação da guerra Rússia-Ucrânia. Como a alta atingiu justamente o período de pré-plantio brasileiro, os custos elevados devem afetar principalmente as decisões de área e investimento na safra 2026/27. 


Onde estamos agora?

O mercado está entrando em uma importante transição entre safras. Nos EUA, a soja e o milho se aproximam da colheita; no Brasil, começa o planejamento da safra 2026/27.


Calendários de Safras – Soja e Milho


Na soja, Brasil e Estados Unidos disputam espaço conforme os diferenciais de preço e frete, de olho também na sazonalidade de entrada da nova safra norte-americana. No milho, a Argentina aparece como origem bastante competitiva, enquanto o Brasil enfrenta maior concorrência internacional e problemas em seu principal comprador (Irã).

Entretanto, o milho brasileiro possui uma particularidade: a menor competitividade externa é parcialmente compensada pelo crescimento da demanda doméstica para etanol, que aumenta a disputa pelo milho disponível.


Soja – Preços FOB – Principais Origens (USD/ton)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Fonte: LSEG, Hedgepoint

Milho – Preços FOB – Principais Origens (USD/ton)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Fonte: LSEG, Hedgepoint


Síntese


O mercado está entrando em uma janela de transição em que o foco deixa gradualmente de ser apenas a safra americana e passa para a combinação entre colheita dos EUA + plantio sul-americano + clima da América do Sul. Historicamente, essa transição aumenta a volatilidade, especialmente entre outubro e o fim do ano. A direção dos preços dependerá da confirmação das safras norte-americanas e, posteriormente, das condições de plantio e desenvolvimento das lavouras brasileiras e argentinas.


Estados Unidos

Soja

A produção americana é um dos principais pontos de incerteza do mercado atual.

O USDA elevou sua estimativa de produção para aproximadamente 123 milhões de toneladas, enquanto a Pro Farmer apontou 124,4 M ton. A diferença parece pequena, mas a composição das estimativas é importante: o USDA trabalha com produtividade inferior à do ano anterior, enquanto a Pro Farmer trabalha com produtividade maior.


Soja EUA - Produção (M ton), Área colhida (M ha) e Produtividade (ton/ha)

                                                                                                                                                         Fonte: USDA, Pro Farmer, Hedgepoint

Soja EUA - Oferta e Demanda

                                                                                                                                                                                   Fonte: USDA, Hedgepoint


O problema é que as condições das lavouras não parecem justificar uma produtividade tão elevada. Apenas 60% das lavouras de soja estavam em condições boas ou excelentes na penúltima semana de agosto, contra 69% no mesmo período do ano anterior, que terminou com produtividade recorde. Isso aumenta a possibilidade de que a produtividade efetiva fique abaixo das projeções mais otimistas. A confirmação dependerá da colheita e dos próximos relatórios do USDA. 


EUA - Soja - Condições das Lavouras - em % (23 Agosto)

                                                                                                              Fonte: USDA, Hedgepoint


O principal fator de suporte não está apenas na produção, mas no forte crescimento do esmagamento. A expansão do biodiesel e do diesel renovável elevou o valor do óleo de soja e melhorou significativamente a margem das esmagadoras.


EUA – Esmagamento de Soja – Acumulado (M ton)

                                                                                                                                                                             Fonte: NOPA, Hedgepoint


As vendas antecipadas também aceleraram após a retomada das compras chinesas, chegando a aproximadamente 11,5 M ton para entrega a partir de setembro. O estoque/uso americano permanece próximo de 7%, limitando o potencial de aumento dos estoques.


Soja EUA | Compras China + Desconhecidos | Safra Nova | 2ª Sem. Ago (M ton)

                                                                                                                                                                            Fonte: USDA, Hedgepoint


Chicago subiu de aproximadamente US$ 10/bushel em setembro de 2025 para cerca de US$ 12–12,20/bushel, refletindo principalmente a melhora da demanda.

Com estoque/uso próximo de 7%, o modelo de regressão aponta para um preço justo ao redor de US$ 12/bushel. Se a produção americana cair e o estoque/uso se aproximar de 6%, existe espaço para preços mais elevados. Se a produção crescer sem expansão equivalente da demanda, o mercado pode voltar a pressionar os preços.


Preços da Soja vs. Estoque/Uso nos EUA

                                                                                                                                                                                                        Fonte: CME, USDA, Hedgepoint


Síntese


A soja americana possui um dos balanços mais interessantes do mercado atual. A produção pode ser recorde, mas a combinação de esmagamento recorde, demanda por óleo de soja e retomada das compras chinesas impede que a oferta adicional se transforme automaticamente em estoques elevados. A grande dúvida está na produtividade real. Se a safra decepcionar, o estoque/uso pode apertar mais, abrindo espaço para Chicago acima dos níveis atuais.


Estados Unidos

Milho


O quadro do milho americano apresenta uma dinâmica semelhante, mas com maior possibilidade de redução da produção.

O USDA trabalha com aproximadamente 407 M ton, enquanto a Pro Farmer apresenta uma estimativa próxima de 390 M ton. A diferença é significativa e abre espaço para revisões futuras do USDA.


Milho EUA - Produção (M ton), Área colhida (M ha) e Produtividade (ton/ha)

                                                                                                                                                       Fonte: USDA, Pro Farmer, Hedgepoint

Milho EUA - Oferta e Demanda

                                                                                                                                                                                     Fonte: USDA, Hedgepoint


As condições das lavouras reforçam essa possibilidade: somente 57% do milho estava em condições boas ou excelentes, contra 71% no ano anterior. Assim, existe fundamento para uma produtividade abaixo da utilizada atualmente pelo USDA. 


EUA - Milho - Condições das Lavouras - em % (23 Agosto)

                                                                                                           Fonte: USDA, Hedgepoint


As exportações, por outro lado, seguem muito fortes e podem alcançar aproximadamente 83 M ton, a segunda maior marca da história americana. Com isso, o estoque/uso pode cair de aproximadamente 12% para 10%.


Milho | Exportações EUA | Top 10 Destinos | Atual. vs. Ano Com. Ant. (% Var.)

                                                                                                                                                                             Fonte: USDA, Hedgepoint


O milho subiu de cerca de US$ 3,80/bushel em setembro/2025 para aproximadamente US$ 4,80-4,90/bushel neste momento, apoiado pela demanda externa e pelos problemas de oferta no Mar Negro.


Síntese

O milho americano possui fundamentos mais altistas do que aparenta inicialmente. A produção pode ser menor do que a estimada pelo USDA, enquanto as exportações permanecem excepcionalmente fortes. Se o USDA revisar a produtividade para baixo durante a colheita, o estoque/uso pode cair ainda mais e dar sustentação adicional a Chicago.


União Europeia

Milho


As condições das lavouras europeias pioraram significativamente com as ondas de calor durante junho e julho. Na França, apenas 29% das lavouras estavam boas ou excelentes, enquanto 43% estavam em condições ruins ou muito ruins até a penúltima semana de agosto.

Como consequência, o USDA reduziu sua projeção de produção europeia de aproximadamente 57 M ton para 50 M ton, com possibilidade de novos cortes.


Milho União Europeia | Oferta e Demanda

                                                                                                                                                   Fonte: USDA, Hedgepoint


A queda da produção deverá elevar as necessidades de importação justamente em um momento em que a Ucrânia – historicamente uma das principais origens da UE – enfrenta problemas logísticos e de capacidade exportadora. Isso cria potencial para aumento das compras europeias dos EUA, Brasil e Argentina.


Síntese

A deterioração da produção europeia representa uma oportunidade para os exportadores, principalmente Brasil e Argentina, mas a forte competitividade argentina limita o potencial de ganho brasileiro.


América do Sul

Soja - Brasil


A primeira estimativa da Hedgepoint para a safra brasileira 2026/27 aponta para produção de 181,7 M ton, praticamente em linha com a produção estimada para 2025/26.

A diferença em relação às projeções mais otimistas está principalmente na área. A expectativa é de aumento de apenas 0,9%, enquanto o USDA trabalha com crescimento próximo de 3%. Isso representa uma desaceleração importante em relação aos últimos anos.


Soja Brasil - Produção (M ton), Área colhida (M ha) e Produtividade (ton/ha)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Fonte: USDA, Hedgepoint


O principal problema são as margens. Preços mais baixos, custos elevados e fertilizantes mais caros reduziram significativamente a rentabilidade do produtor. Esse ambiente reduz o incentivo para uma expansão mais agressiva de área e também deve limitar investimentos em tecnologia e insumos.

A projeção de 181,7 M ton não incorpora, ainda, nenhum possível impacto negativo do El Niño. O fenômeno apresenta um padrão historicamente conhecido para o Brasil:

• maior umidade no Sul; 

• menor precipitação no Centro-Norte. 

Esse padrão é particularmente relevante porque Mato Grosso, Goiás, Bahia e outras áreas do Centro-Norte já sofreram perdas importantes em episódios anteriores de El Niño. 

Para setembro e outubro, as previsões ainda são favoráveis ao plantio brasileiro, com chuvas normais ou acima da média no Centro-Norte. A preocupação aumenta a partir de novembro, quando as projeções começam a apresentar uma configuração mais típica de El Niño, com redução das chuvas no Centro-Norte e aumento no Sul. 

Isso cria um risco importante: a safra pode começar com boas condições de plantio e posteriormente enfrentar problemas no desenvolvimento.

Em relação à demanda para a temporada atual, as exportações brasileiras de soja 2025/26 devem atingir aproximadamente 114 M ton, cerca de 6 M ton acima do recorde anterior de 108 M ton. O ritmo de embarques permanece forte, sustentado pela elevada demanda internacional pelo produto brasileiro.


Soja - Brasil – Line-up Exportação - Acumulado anual (M ton)

                                                                                                                                          Fonte: MDIC, Agências Marítimas, Hedgepoint


Os prêmios também ganharam força, favorecidos pela sazonalidade positiva do segundo semestre e pela combinação de:

• forte demanda externa; 

• forte demanda doméstica; 

• menor disponibilidade antes da próxima safra. 


Basis de Soja – Rondonópolis, MT (USDc/bu)

                                                                                                                                                             Fonte: CME, ESALQ, Hedgepoint


Síntese

A soja brasileira entra no novo ciclo com uma perspectiva de crescimento muito mais moderado da oferta. O principal ponto de atenção não é apenas a área, mas a combinação entre margens comprimidas e risco climático associado ao El Niño. Caso o clima permaneça apenas normal, a produção deve ficar próxima de 181–182 M ton; se houver problemas no Centro-Norte, existe espaço para uma safra significativamente menor e, consequentemente, para forte reação de preços e prêmios.


América do Sul

Milho - Brasil e Argentina


A produção brasileira de milho 2025/26 está estimada em aproximadamente 140,3 M ton. O principal destaque, porém, é o crescimento da demanda doméstica.

O consumo de milho para etanol deve crescer cerca de 5,5 M ton, podendo chegar próximo de 29 M ton com o E32. Existem atualmente 29 usinas de etanol de milho em operação e outros 27 projetos em desenvolvimento.


Milho Brasil – Oferta e Demanda

                                                                                                                                     Fonte: USDA, CONAB, Hedgepoint


Esse crescimento explica por que o milho brasileiro pode estar menos competitivo para exportação sem necessariamente representar um fundamento negativo para o produtor. O mercado doméstico está disposto a pagar pelo milho, especialmente nas regiões próximas às plantas de etanol.

As exportações, por outro lado, podem enfrentar dificuldades. As exportações brasileiras são agora estimadas em 41 M ton, praticamente estável em relação ao ano anterior. Há dois fatores limitando o potencial exportador:

1. maior concorrência argentina; 

2. possível redução das compras iranianas.

O Irã, maior comprador de milho brasileiro em 2025, adquiriu cerca de 9 M ton no ano passado, mas estava aproximadamente 1 M ton abaixo do ritmo anterior no acumulado até o período analisado em 2026 (janeiro a julho), em função das dificuldades logísticas provocadas pelo conflito.


Milho – Brasil – Line-up Exportação - acumulado mensal (M ton)

                                                                                                                                          Fonte: MDIC, Agências Marítimas, Hedgepoint


Ao mesmo tempo, a Argentina apresenta uma safra excepcional, estimada em 63 M ton pelo USDA, mas com estimativas locais próximas de 70 M ton. As exportações argentinas podem saltar de 29 M ton para aproximadamente 45 M ton, superando o Brasil.


Milho Argentina – Oferta e Demanda

                                                                                                                                                   Fonte: USDA, Hedgepoint

Milho Argentina – Exportações (M ton)

                                                                                                                                                                                                     Fonte: Argus


Síntese

O milho brasileiro apresenta uma clara dicotomia: exportação mais desafiadora, mas demanda doméstica estruturalmente mais forte. O crescimento do etanol reduz a dependência do mercado externo e pode absorver parte relevante do excedente. Porém, a combinação de Argentina altamente competitiva e menor demanda iraniana pode impedir que as exportações cresçam.


Cisnes-Negros, Volatilidade e Estratégias


Um dos pontos mais importantes é a constatação de que os fundamentos, embora essenciais, não são suficientes para antecipar todos os movimentos relevantes dos mercados.

Nos últimos 25–26 anos, ocorreram pelo menos 14–15 eventos de grande magnitude capazes de alterar completamente o cenário de mercado: crise financeira de 2008, pandemia de Covid-19, guerras e eventos geopolíticos, entre outros. O próximo grande choque provavelmente será algo que o mercado ainda não está discutindo hoje.


Índice VIX x Principais Eventos

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         Fonte: LSEG, Hedgepoint


Essa constatação reforça a importância da gestão de risco. A formação de preços tornou-se mais complexa e não existe estratégia capaz de eliminar completamente a incerteza. O objetivo passa a ser estruturar a comercialização de modo que um evento inesperado não comprometa a margem do produtor ou da empresa.

Estratégias de comercialização
Existem quatro abordagens básicas:

1. Não fazer nada
Permite capturar integralmente uma eventual alta, mas deixa o produtor totalmente exposto a uma queda.

2. Fixar o preço físico
Garante uma margem conhecida e elimina a incerteza, mas também elimina a participação em eventual valorização posterior.

3. Utilizar futuros
Permite proteção em mercados líquidos e padronizados, como Chicago ou B3. A desvantagem é que o preço fica mais rigidamente travado e podem existir custos de margem e diferenças entre o contrato e a exposição física.

4. Utilizar opções e estruturas OTC
Permite maior customização de:
• vencimento; 
• volume; 
• participação em altas ou baixas; 
• e definição separada dos componentes do preço. 

Essa última abordagem permite trabalhar com Chicago, câmbio e prêmio de forma independente, em vez de necessariamente fixar todos os componentes simultaneamente. 

Síntese

Em um mercado sujeito a choques inesperados, a gestão de risco passa a ser tão importante quanto a previsão de preços. A estratégia mais eficiente é trabalhar os componentes da formação de preço individualmente e evitar depender de uma única aposta direcional.


Touros e Ursos

Fatores Altistas (Touros)

• Esmagamento americano: forte crescimento sustentado pelo biodiesel. 
• Retomada das compras chinesas: acordo aponta para 25 M ton de soja americana por ano. 
• Risco de safras menores nos EUA: condições das lavouras de soja e milho abaixo do ano anterior. 
• Milho americano: exportações próximas de 83 M ton e estoque/uso potencialmente em 10%. 
• Problemas na UE: maior necessidade de importação de milho. 
• El Niño: risco para a produção brasileira de soja. 
• Etanol de milho no Brasil: crescimento estrutural da demanda doméstica. 
• Problemas no Mar Negro: maior valor estratégico para origens alternativas. 

Fatores Baixistas (Ursos)

• Possibilidade de grandes safras americanas: caso a produtividade atual se confirme. 
• Compras chinesas ainda abaixo do potencial histórico. 
• Grande safra argentina de milho: aumento da competição internacional e, principalmente, com o Brasil.
• Risco de queda das compras iranianas de milho brasileiro.
• Real valorizado: reduz a competitividade das exportações. 
• Possível realização dos fundos: caso os fundamentos mudem. 


Considerações finais

O mercado de milho e complexo soja entra em uma das janelas mais importantes do ano com um quadro que, à primeira vista, parece equilibrado, mas que apresenta assimetria relevante de riscos. De um lado, a oferta americana ainda pode ser grande e a Argentina apresenta uma safra excepcional de milho; de outro, a produtividade dos Estados Unidos pode decepcionar, a demanda por esmagamento de soja está extremamente forte e a Europa pode precisar aumentar suas importações de milho. No Brasil, o crescimento do etanol de milho cria um novo vetor estrutural de demanda, enquanto o El Niño introduz um risco potencialmente relevante para a próxima safra de soja.

A principal mensagem é que a demanda atualmente oferece um suporte mais consistente aos preços do que a oferta oferece pressão. Na soja, o esmagamento americano, o óleo de soja e a retomada das compras chinesas sustentam Chicago próximo de US$ 12/bushel; no milho, exportações americanas fortes, problemas no Mar Negro e uma possível redução da produção dos EUA ajudam a manter os preços firmes. Na América do Sul, entretanto, a situação é mais complexa: o Brasil pode ter safras maiores, mas com margens mais comprimidas, enquanto a Argentina pode assumir participação crescente nas exportações de milho.

Nesse ambiente, o maior risco é tentar definir antecipadamente uma única direção para os preços. A transição entre a colheita americana e o plantio sul-americano, o encontro entre Trump e Xi em setembro, o conflito no Oriente Médio, a situação do Mar Negro e a evolução do El Niño podem produzir movimentos rápidos e não lineares. Por isso, a estratégia mais adequada é tratar Chicago, câmbio e prêmio como componentes independentes, aproveitando as janelas de oportunidade de cada um e utilizando estruturas de proteção que permitam participar de movimentos favoráveis sem deixar a margem totalmente exposta a um eventual choque de mercado. 

Em síntese, o mercado entra no segundo semestre com fundamentos suficientemente fortes para sustentar preços, mas também com riscos suficientes para impedir uma leitura excessivamente otimista. A combinação entre demanda estrutural, clima e geopolítica deve manter a volatilidade elevada – e, justamente por isso, transformar a gestão ativa da comercialização em um componente tão importante quanto a própria previsão de preços.



Link – Outlook 2º Semestre 2026 - Milho e Complexo Soja

Para assistir a íntegra do Outlook 2º Semestre 2026 sobre os mercados de Milho e do Complexo Soja, clique neste link.

Inteligência de Mercado – Grãos e Oleaginosas

Escrito por Luiz F. Roque
Luiz.Roque@hedgepointglobal.com


Revisado por Gustavo Costa

Gustavo.Costa@hedgepointglobal.com

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