Apr 10 / Lívea Coda

Açúcar | Projeção de safra: Centro-Sul do Brasil - 2026 04 13

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"O Brasil está prestes a ter mais um ano de oferta abundante de cana-de-açúcar no Centro-Sul em 2026/27, reforçando um excedente estrutural em meio à forte produção de 2025/26 e à recuperação parcial dos produtores do Hemisfério Norte. Embora fatores macroeconômicos e geopolíticos tenham impulsionado a volatilidade de curto prazo, os fundamentos permanecem baixistas, com o etanol recuperando competitividade como principal mecanismo de ajuste por meio de reduções na mistura e estímulo à demanda."

Mais cana à vista, mas o El Niño ainda dá alguma esperança aos traders altistas

  • A oferta no Centro-Sul continua forte, com a produção de açúcar em 2025/26 prevista acima de 40 Mt e a safra de cana em 2026/27 projetada em cerca de 635 Mt, em condições climáticas normais.

  • Os fluxos comerciais globais apresentam excesso de oferta devido à alta produção do Brasil e à recuperação na Índia, Tailândia e México, mantendo os preços do açúcar estruturalmente em baixa.

  • A recente alta dos preços para cerca de 16,1 c/lb retrocedeu à medida que os prêmios de risco geopolítico suavizaram e o complexo energético recuou, ressaltando o caráter limitado do suporte geopolítico.

  • O etanol recuperou a paridade em relação ao açúcar nos últimos meses de 2025, incentivando reduções no mix; o equilíbrio de mercado exigiria índice próximo a 44,5%, embora restrições físicas limitem os ajustes e a mantenham mais próxima de 48%.

  • O piso efetivo do preço do açúcar é estimado em torno de 13,5 c/lb (com o hidratado ex-mill em R$ 2,2/litro), com os riscos de alta mais fortes concentrados em 2027 dado os possíveis impactos climáticos relacionados ao El Niño no desenvolvimento das safras de 2026/27 no Hemisfério Norte.

O Brasil deve entrar em mais um ano de oferta abundante de cana-de-açúcar na região Centro-Sul, apoiado por condições climáticas favoráveis e indicadores positivos de desenvolvimento da safra. Quando combinado com o forte resultado da safra 2025/26, na qual a produção de açúcar deve ultrapassar 40 milhões de toneladas, e uma recuperação parcial dos produtores do Hemisfério Norte, particularmente Índia, Tailândia e México, o mercado global de açúcar está fadado a um excedente. Como resultado, os preços do açúcar permanecem estruturalmente em baixa, com potencial de alta limitado, apesar do apoio ocasional de fatores macroeconômicos ou da volatilidade relacionada à energia. Neste relatório, nosso objetivo é discutir nossa revisão das estimativas de produção do Centro-Sul e seus impactos no mercado de açúcar.

Embora os preços do açúcar bruto tenham atingido recentemente uma alta de cinco meses, de 16,1 c/lb , eles perderam impulso desde então, à medida que o prêmio de risco geopolítico diminuiu após um cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irã, mesmo que temporário. O complexo energético recuou significativamente, caindo mais de 15% em todas as suas principais commodities, o que reduziu o efeito de contágio para outros mercados e moderou as expectativas de um possível repasse de custos pela Petrobras, contribuindo ainda mais para a queda dos preços do açúcar. Torna-se evidente que, embora relevantes, os choques geopolíticos não afetaram os fundamentos do adoçante.

Fatores técnicos desempenharam um papel significativo na recente alta dos preços, à medida que os especuladores reduziram suas posições vendidas, aproximando-as dos níveis mínimos observados no passado recente. No entanto, eles não têm motivos para, no curto prazo, manter o ímpeto de compra, já que os fundamentos do mercado permanecem estritamente baixistas. No entanto, ainda pode surgir algum grau de volatilidade por parte dos especuladores caso as tensões entre os Estados Unidos e o Irã voltem a se intensificar.

Figura 1 – Posicionamento líquido especulativo (em milhares de lotes)

Fonte: CFTC, Hedgepoint

Apesar de alguma recuperação na produção do Hemisfério Norte, o Brasil — particularmente a região Centro-Sul — continua sendo o principal impulsionador da tendência de baixa no mercado de açúcar. A safra 2025/26 deve apresentar outro resultado robusto, com a moagem de cana-de-açúcar ultrapassando 600 milhões de toneladas e a produção de açúcar superando 40 milhões de toneladas, apoiada por um alto mix açúcar. As exportações podem, portanto, ultrapassar 31 milhões de toneladas, reforçando o papel do Brasil no abastecimento global. Olhando para 2026/27, as condições climáticas melhoraram, com chuvas favoráveis registradas entre outubro de 2025 e fevereiro de 2026. Essas condições resultaram em um Índice de Saúde Vegetal (VHI) mais forte, que permanece próximo ou acima das médias históricas, permitindo a expectativa de um desempenho sólido de produtividade, atualmente estimada em 78,5 t/ha. Como resultado, supondo que os padrões climáticos normais persistam, a produção de cana-de-açúcar no Centro-Sul está projetada para atingir aproximadamente 635 milhões de toneladas na safra 2026/27. O mix de açúcar continua sendo o tema em destaque, no entanto. 

Figura 2 – Índice de Saúde Vegetal Semanal – Centro-Sul

Fonte: NOAA

O etanol recuperou competitividade em relação ao açúcar desde o final de 2025, impulsionado principalmente pela pressão sobre seus estoques. Essa melhoria na paridade permite que as usinas reavaliem suas estratégias de produção e reduzam a produção de açúcar em favor do etanol, em busca de melhores retornos. Análises da paridade futura sugerem que, especialmente quando os CBios são incorporados, os preços do etanol hidratado convergem para a paridade com o açúcar ou até mesmo a ultrapassam nos próximos meses. Isso reforça o etanol como um mecanismo-chave de ajuste para ajudar a mitigar o excesso de oferta de açúcar, especialmente se os preços do adoçante continuarem sob pressão.

Figura 3 – Paridade histórica entre açúcar e etanol (à esquerda) e paridade futura atual (à direita)

Fonte: Bloomberg, Hedgepoint

A redução do mix açúcar surge, portanto, como a principal alavanca para o reequilíbrio do mercado. Atualmente, estimamos que o mercado de açúcar esteja com um excesso de oferta de, pelo menos, 3,2 Mt, e que deve permanecer assim, já que os ajustes na composição podem ser limitados por restrições físicas. Esse excedente já leva em conta a mudança do mix de acima de 50% para 48%. Mas, como exercício, qual seria o mix que resolveria a equação de oferta e demanda do adoçante?

Conforme discutido em relatórios anteriores, estimular a demanda por etanol hidratado continua sendo a solução mais econômica para lidar com o excesso de oferta no mercado de açúcar, sendo os preços o principal mecanismo desencadeador. Atualmente, o etanol hidratado oferece retornos mais elevados do que o açúcar e, portanto, deve ser priorizado pelas usinas. À medida que a produção de etanol aumenta, a maior parte dela deve ser consumida no mercado interno brasileiro, onde o etanol hidratado compete diretamente com a gasolina C pela demanda dos consumidores. Dada a relativa estabilidade dos preços da gasolina – refletindo a ausência do antigo mecanismo de precificação de paridade de importação e a tendência da Petrobras de absorver grande parte da volatilidade dos preços internacionais–, o aumento dos estoques de etanol tende a exercer pressão de baixa sobre os seus preços. À medida que os valores se ajustam, o etanol hidratado torna-se cada vez mais atraente no posto de combustível.

Com o tempo, essa correção de preço permite que o etanol hidratado ganhe competitividade além dos estados produtores, estimulando gradualmente a demanda em outras regiões antes que a paridade com o açúcar seja eventualmente restaurada. O nível de mistura de açúcar que garantiria um equilíbrio entre oferta e demanda seria de 44,5%. Com base nas estimativas atuais, para que o etanol hidratado se torne suficientemente competitivo nos postos de combustível fora de São Paulo, os preços ex-mill, líquidos de impostos, precisariam cair para cerca de R$ 2,2 por litro, o equivalente a aproximadamente 13,5 centavos por libra. Esse nível pode, portanto, ser interpretado como um piso de preço efetivo para o açúcar ao longo da safra.

No entanto, à medida que os preços buscam o piso, é importante observar que existem restrições físicas:

  • Os volumes de açúcar já vendidos ou “hedgeados” devem impedir uma mudança completa da composição do mix em direção ao etanol, já que muitas usinas resistem a reajustar suas posições.

  • Mudanças na demanda por combustível e no mecanismo de ajuste não são imediatas e também podem limitar a queda do mix.

Portanto, mantemos uma previsão conservadora com um mix de 48% de açúcar para 2026/27, garantindo uma produção de 40,5 Mt de açúcar e mais uma contribuição robusta para os fluxos comerciais – o que também empurra os preços em direção ao piso estimado.


Figura 4 – Fluxos comerciais totais de açúcar (em milhares de toneladas) – uma composição de 48% de açúcar gera um excedente de 3,2+

Fonte: Greenpool, Hedgepoint

Para os participantes altistas, há alguns riscos de alta que valem a pena monitorar, embora o mais relevante deva afetar mais os contratos de 2027. O primeiro, embora menos provável, envolve uma nova escalada das tensões entre os Estados Unidos e o Irã, que poderia levar a um repasse dos custos mais altos de importação de gasolina pela Petrobras. Considerando que o Brasil está atualmente em ano eleitoral, acreditamos ser improvável que o governo permita um aumento significativo nos preços domésticos dos combustíveis. Caso isso ocorra, no entanto, um repasse total da arbitragem estimada na importação de gasolina, de cerca de R$ 1,7 por litro, implicaria uma mudança no preço mínimo estimado de aproximadamente 13,5 centavos por libra para cerca de 16,7 centavos por libra, um nível muito próximo da paridade atual do hidratado com base nos preços do CEPEA. Mesmo assim, esse cenário não alteraria os fundamentos do mercado e continua altamente dependente de decisões políticas, e não da dinâmica estrutural de oferta e demanda.
Figura 6 - Arbitragem média de importação da Petrobras na região Centro-Sul (BRL/litro)

Fonte: ANP, Bloomberg, Hedgepoint

Figura 7 - Previsão de anomalias da temperatura da superfície do mar (em ºC) na região Nino 3.4

Fontes: UNICA, Hedgepoint

O segundo fator potencialmente altista, e o mais relevante, está relacionado ao clima. As probabilidades e a intensidade esperada do El Niño já foram revisadas para cima para o período de maio a julho. Isso aumenta a probabilidade de um inverno mais chuvoso no sul do Brasil, o que poderia interromper ou desacelerar o ritmo da safra de 2026/27 em alguns estados. No entanto, o impacto mais significativo de um evento El Niño seria sentido no Hemisfério Norte durante o desenvolvimento do ciclo 2026/27. Normalmente, as condições do El Niño estão associadas a um clima mais seco e quente no Sudeste Asiático, sul da América do Norte e América Central, representando riscos para a produção em importantes países exportadores de açúcar, como Índia, Tailândia, México e Guatemala. Portanto, esse cenário poderia resultar em menor disponibilidade de açúcar da região na safra seguinte e, consequentemente, contribuir para preços mais firmes durante 2027.

Atualização de Safra - Açúcar

Escrito por Lívea Coda
livea.coda@hedgepointglobal.com

Revisado por Carolina França
carolina.franca@hedgepointglobal.com

www.hedgepointglobal.com

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