A saga do superávit: há esperança?
- Os fluxos comerciais globais apresentam superávit devido, principalmente, à forte oferta brasileira.
- A região Centro-Sul impulsiona o equilíbrio global, com o mix voltado para o etanol absorvendo parte do excesso de açúcar.
- Assim os preços do açúcar estão cada vez mais ligados à paridade do etanol, que exigem valores mais baixos para estimular a demanda por combustível e reequilibrar o mercado.
- Medidas como a E32 ou o repasse do preço da gasolina pela Petrobras poderiam elevar o preço mínimo, impulsionando a demanda por etanol sem novos ajustes na composição do mix.
- A ampla disponibilidade mantém os preços de curto prazo dentro de uma faixa, enquanto as expectativas altistas são adiadas para contratos futuros amplamente ancoradas na ocorrência do El Niño.
A saga do superávit: há esperança?
O mercado global de açúcar é marcado por uma demanda resiliente, embora mais lenta do que no passado, e um desequilíbrio de curto prazo impulsionado pela oferta. O consumo continua a se expandir, apoiado principalmente pelo crescimento populacional e pelo avanço no poder de compra nos mercados emergentes, conforme discutido em nosso relatório anterior (link). No entanto, o excesso de oferta, particularmente do Brasil, transformou os fluxos comerciais em superavitários, exercendo pressão de baixa [LR1.1]sobre os preços de curto prazo.
Nesse contexto, o mercado doméstico de etanol do Brasil tornou-se o principal mecanismo de ajuste para absorver, se não completamente, a maior parte do excedente de açúcar e restaurar um certo equilíbrio. Para que esse reequilíbrio se concretize, a demanda adicional por combustível deve ser estimulada por meio de ajustes de preço. Nesse ambiente, a volatilidade macroeconômica, as tensões geopolíticas e a dinâmica do mercado de energia, ao reforçarem as pressões do lado dos custos, atuam como possíveis fontes de suporte aos preços no curto prazo.
Para compreender plenamente o cenário atual, é essencial analisar o lado da oferta da equação. Embora as divergências regionais continuem a moldar o equilíbrio global, a perspectiva geral de oferta permanece confortável. No Hemisfério Norte, a Índia continua a representar o principal risco de queda, enquanto a Tailândia e a recuperação da América Central, compensam parcialmente essa fraqueza ao longo da safra 2025/26. A perspectiva para 2026/27, no entanto, é mais incerta. O desenvolvimento de um padrão El Niño poderia comprometer recuperações importantes da produção, particularmente nessas regiões do Hemisfério Norte.
Probabilidade de El Niño (%)

Fonte: IRI, Hedgepoint
Mesmo assim, as interrupções no abastecimento teriam que ser graves para superar a capacidade do Brasil de reequilibrar o mercado por meio de ajustes em seu mix de produção. Como principal impulsionador do excedente global, espera-se que o Brasil tenha mais um ciclo forte na temporada 2026/27, com a produção de cana no Centro-Sul se aproximando de 635 Mt. Notavelmente, enquanto a maioria das regiões produtoras seria afetada negativamente por um evento El Niño, o Centro-Sul poderia se beneficiar dessas condições considerando 2027/28, especialmente se elas persistirem até o período de verão da região.
Nesse contexto, a dinâmica dos preços do açúcar no curto prazo é cada vez mais ditada pela interação entre os mercados de açúcar e etanol. À medida que os preços do açúcar recuam em resposta ao excesso de oferta, as usinas brasileiras redirecionam a alocação para o etanol, o que, por sua vez, exerce pressão de baixa sobre os preços dos biocombustíveis e estreita a paridade de preço na bomba, estimulando, em última instância, a demanda. Esse mecanismo de retroalimentação posiciona o etanol como o fator de equilíbrio, estabelecendo um piso para os preços do açúcar.
Para absorver a maior parte do excedente atual nos fluxos comerciais, os preços do açúcar precisariam cair para cerca de 14,2 centavos de dólar por libra-peso. No entanto, políticas — como a possível implementação do E32 — poderiam reduzir a necessidade de tais ajustes de preço ao criar demanda intrínseca por etanol anidro, absorvendo assim parcialmente o excedente de forma automática e elevando o piso para cerca de 14,6 centavos de dólar por libra-peso. Com base em nossas estimativas, assumindo um mix de açúcar de 47,5%, nenhum ajuste adicional no mix seria necessário para acomodar o E32; em vez disso, uma mudança na composição do etanol — de hidratado para anidro — seria suficiente para atender à demanda adicional. Estimamos que, em vez de uma participação do anidro próxima a 39%, com 41,1% o E32 seria atendido.
Paridade de preços e piso considerando o hidratado (c/lb)

Fonte: Bloomberg, Hedgepoint
Outro canal que poderia sustentar um piso de preço mais alto seria o repasse total dos custos pela Petrobras. Isso se traduziria em preços mais altos da gasolina e, por meio da equivalência energética e da paridade entre os preços dos combustíveis, permitiria valores mais altos do biocombustível nos posto[LR2.1]s sem comprometer a geração de demanda. Consequentemente, o piso do preço do açúcar também aumentaria, podendo chegar a 18 centavos de dólar por libra-peso.
Arbitragem média de importação da Petrobras na região Centro-Sul (Reais/litro)

Fonte: ANP, Bloomberg, Hedgepoint
No entanto, dado o atual ambiente de ano eleitoral e a ausência de decisões políticas definitivas, o mercado voltou a uma postura mais baixista. Após testar o nível de 15,4 centavos de dólar por libra-peso, os preços recuaram, sugerindo uma faixa de negociação de curto prazo amplamente entre 14,5 e 15,5 centavos de dólar por libra-peso.
Desenvolvimentos recentes também influenciaram o sentimento do mercado. Além das preocupações com um possível El Niño afetando o Sudeste Asiático, a Índia impôs restrições às exportações adicionais, refletindo preocupações subjacentes quanto à disponibilidade doméstica e sugerindo que as aprovações de exportação para 2026/27 podem se tornar cada vez mais difíceis. Por outro lado, a China reduziu seu ritmo de importações e, simultaneamente, anunciou uma cota tarifária mais baixa em comparação com 2025, sinalizando uma abordagem mais cautelosa e estratégica em relação às importações.
Apesar desses desenvolvimentos, a realidade continua sendo que a disponibilidade no curto prazo é ampla. A maioria das expectativas altistas concentra-se em períodos futuros, o que se reflete na estrutura da curva e nos spreads.
Preços futuros do açúcar bruto (c/lb)

Fonte: LSEG, Hedgepoint
Resumo
Inteligência de Mercado - Açúcar
Escrito por Lívea Coda
livea.coda@hedgepointglobal.com
Revisado por Laleska Moda
laleska.moda@hedgepointglobal.com
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