Jun 8 / Lívea Coda

O Brasil não é o único culpado!

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  • A recuperação da produção no Hemisfério Norte — especialmente na Índia, Tailândia, Paquistão, China e México — aumentou a oferta, reforçando o atual excedente.
  • No Sudeste Asiático, Índia e Tailândia apresentaram safras mais robustas, mas os riscos crescentes do El Niño e as expectativas de uma monção mais fraca estão aumentando a incerteza para a safra 2026/27 e limitando a viabilidade das exportações.
  • O crescente excedente do Paquistão e a produção da China acima do esperado podem pesar sobre a dinâmica futura do mercado.
  • Os riscos climáticos ligados ao El Niño estão cada vez mais sendo precificados nas estruturas de futuros, embora se espere que a resiliência e a flexibilidade de oferta do Brasil compensem possíveis interrupções e limitem o impulso altista sustentado.

O Brasil não é o único culpado!

Nos últimos meses, a atenção tem se concentrado na região Centro-Sul do Brasil e em seu papel central como fator baixista no mercado de açúcar. Com uma quarta safra consecutiva de disponibilidade de cana superior a 600 milhões de toneladas, a região efetivamente inundou o mercado com açúcar, a ponto de os preços internacionais mais baixos já terem provocado uma redução em seu mix de açúcar.

No entanto, o Brasil não tem sido a única força a moldar a dinâmica dos preços. O Hemisfério Norte se recuperou parcialmente de uma sequência de safras adversas marcadas por quebras de produção, com alguns países superando as expectativas positivamente durante a safra 2025/26. Neste relatório, avaliamos brevemente essas recuperações e traçamos as expectativas para a próxima safra.

Por exemplo, no Sudeste Asiático, embora os resultados tenham ficado abaixo das expectativas iniciais, a Índia conseguiu aumentar sua produção de açúcar de 26 Mt na safra 2024/25 para cerca de 28 Mt. Essa expansão de 2 Mt, combinada com mais um ano de contração do consumo impulsionada pela inflação mais alta, permitiu ao país manter uma presença modesta no mercado internacional, exportando aproximadamente 750 kt.

No entanto, com uma probabilidade crescente de El Niño e uma perspectiva de monções já abaixo da média, o governo indiano tomou medidas para proibir novas exportações, abordando proativamente o risco de uma disponibilidade mais restrita na safra 2026/27.

A Tailândia, por sua vez, entrou na safra com uma perspectiva positiva, mas desestabilizou as expectativas do mercado em meio a rumores de doenças na cana e baixa produtividade. Essas preocupações acabaram se revelando infundadas, já que o país apresentou seu melhor resultado em seis anos. Com a produção de açúcar atingindo cerca de 12 Mt, a Tailândia está bem-posicionada para expandir as exportações, reforçando assim a tendência baixista atual.

Balanço do Açúcar - Tailândia (Mt Dez-Nov)

Fonte: Thai Sugar Millers, Sugarzone, Hedgepoint

No entanto, o El Niño continua sendo um fator-chave para a próxima safra da região. Como tal, é um risco que vale a pena monitorar de perto, dado seu potencial para restringir a oferta e dar suporte ao contrato mais exposto à dinâmica do Hemisfério Norte – ou seja, o contrato de março de 2027.

O Paquistão e a China também surpreenderam positivamente, embora o impacto total ainda não tenha se refletido no mercado físico.

No Paquistão, a PSMA está buscando aprovações de exportação em meio a um excedente crescente. Os estoques aumentaram em 2025/26 e, com outra safra forte prevista para 2026/27, o excesso de oferta deve se ampliar, adicionando pressão ao mercado interno.

Na China, a produção superou as expectativas, ultrapassando 12 Mt contra uma estimativa inicial de 11,2 Mt. Apesar disso, as importações permaneceram firmes, apoiadas pela arbitragem aberta, com a Associação Chinesa do Açúcar mantendo sua perspectiva de importação de 5 Mt. Embora isso tenha impacto imediato limitado, a maior disponibilidade doméstica pode limitar futuros ganhos nos preços internacionais, já que o país pode reduzir rapidamente as importações se o mercado se tornar mais restrito.

Paridade histórica estimada das importações (USD/t)

Fonte: Bloomberg, msweet, yntw, Hedgepoint

Na América Central e do Norte, vários produtores relataram melhores resultados. A Guatemala e El Salvador registraram ganhos na produção, enquanto o México não apenas apresentou números sólidos de moagem até o momento, mas também viu sua estimativa oficial revisada para cima em 500 kt pela CONADESUCA. Como resultado, a produção de 2025/26 agora é esperada em cerca de 5,5 Mt, a maior desde 2021/22, reforçando a capacidade de exportação da região e contribuindo para o tom baixista do mercado.

Balanço do Açúcar - México (Mt Dez-Nov)

Fonte: Conadesuca, Hedgepoint

Dito isso, tanto o México quanto a América Central continuam altamente expostos ao El Niño, o que gera preocupações para a próxima safra. Assim como no Sudeste Asiático, a oferta regional está intimamente ligada ao contrato de março, e os movimentos atuais de spread (Out/Mar a -0.89 c/lb) e carry já sugerem que os riscos do Hemisfério Norte estão sendo precificados. Ainda assim, sistemas de irrigação relativamente robustos em partes da América Central podem ajudar a mitigar o risco de perdas graves na produção.

Balanço do Açúcar - Guatemala (Mt Out-Set)

Fonte: Cengicaña, Sieca, Azucar.gt, Greenpool, Hedgepoint

Além disso, o Centro-Sul não é fortemente afetado pelo padrão climático. Espera-se que a região tenha uma safra 2026/27 robusta e, salvo outras condições adversas, mantenha uma perspectiva saudável para 2027/28. Combinado com sua flexibilidade estrutural para alternar entre a produção de açúcar e etanol, o país poderia compensar as quebras de safra de outras regiões. Essa tendência reduz o espaço para um forte movimento altista e consolida o papel central do Centro-Sul na formação dos preços globais.

Resumo

O mercado global de açúcar continua sob pressão devido à oferta elevada e sustentada do Centro-Sul do Brasil. No entanto, essa tendência baixista não se formou sozinha. A recuperação dos produtores do Hemisfério Norte – como Índia, Tailândia, Paquistão, China e México – contribuiu ainda mais para o atual excedente, mesmo que alguns impactos ainda não estejam totalmente refletidos nos mercados físicos.

Olhando para o futuro, os riscos crescentes do El Niño em regiões-chave (Sudeste Asiático, América Central e México) estão começando a ser precificados nas curvas de futuros. Apesar desses riscos, a exposição limitada do Brasil ao fenômeno climático e sua flexibilidade na alocação de açúcar/etanol devem ajudar a compensar possíveis déficits em outros lugares, limitando o potencial de alta e consolidando seu papel dominante na formação dos preços globais.

Inteligência de Mercado - Açúcar

Escrito por Lívea Coda
livea.coda@hedgepointglobal.com

Revisado por Laleska Moda
laleska.moda@hedgepointglobal.com

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