Jun 15 / Lívea Coda

Mercado baixista, esperança nas nuvens.

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  • A perspectiva de curto prazo continua baixista, com baixa volatilidade e reação limitada a fatores externos (por exemplo, mercados de energia). 
  • O foco do mercado mudou para os riscos climáticos, com o El Niño impulsionando expectativas altistas. 
  • O atraso da monção na Índia e as restrições às exportações sustentam um leve sentimento de alta, com possíveis necessidades de importação no futuro. 
  • A Tailândia e partes do México enfrentam riscos de seca, ameaçando a produção e a disponibilidade para exportação em 2026/27. 
  • O Centro-Sul do Brasil permanece estável, reforçando sua capacidade de abastecimento em meio às quebras de safra em outros países.

Mercado baixista, esperança nas nuvens.

O mercado de açúcar está notavelmente calmo no momento, com pouquíssimas notícias para impulsionar os preços. A volatilidade limitada e os fundamentos de curto prazo claramente baixistas mantiveram o mercado um tanto isolado de movimentos externos; mesmo a recente alta no setor de energia, ligada às tensões entre EUA e Irã, teve pouco impacto.

Como resultado, o foco mudou naturalmente do curto prazo para os riscos de médio e longo prazo. A menos que haja uma grande escalada geopolítica, o clima continua sendo a principal variável a ser observada.

Em particular, as crescentes especulações sobre um El Niño mais precoce e mais forte têm sido a principal fonte de atenção, dando algum suporte ao posicionamento altista. Isso se reflete especialmente no contrato de março de 2027, que tem se mostrado mais sensível a este risco climático. O fortalecimento do spread V/H sugere que o mercado está começando a precificar uma disponibilidade mais restrita no Hemisfério Norte, uma mudança clara em relação ao cenário de oferta relativamente confortável observado na atual temporada 2025/26.

Uma das principais variáveis sob observação no momento é o andamento da monção do sudoeste da Índia. As chuvas estão atrasadas em relação ao padrão habitual, e o Departamento Meteorológico do país revisou ligeiramente sua previsão para baixo, de 92% para 90% da média de longo prazo. De acordo com autoridades meteorológicas, parte desse atraso está ligada às perturbações ocidentais originadas no Mediterrâneo, em vez de ser diretamente atribuída ao El Niño nesta fase. O sistema de perturbações ocidentais, que normalmente traz chuva e neve ao norte da Índia, pode atrapalhar o avanço da monção, como observado este ano.


Essa mudança introduz maior incerteza para o desenvolvimento da safra de cana-de-açúcar de 2026/27 e, consequentemente, para as perspectivas de produção. Além do açúcar, essa dinâmica climática também representa riscos para culturas importantes do verão, como arroz, soja e algodão, particularmente na Índia central. Por sua vez, isso pode contribuir para riscos de alta na inflação dos alimentos, adicionando mais pressão sobre a rupia indiana.


Além disso, os níveis dos reservatórios estão abaixo dos do ano passado, mas ainda acima da média de 10 anos, mantendo-se consistentes com os padrões típicos de restrição pré-monção. No caso de uma monção abaixo da média, a reposição pode se mostrar desafiadora, potencialmente prejudicando ainda mais o desenvolvimento da safra 2026/27. Dito isso, há uma clara divergência regional: enquanto o sul parece mais vulnerável, o noroeste permanece comparativamente mais confortável.


Como resultado, a Índia continua sendo um importante pilar altista para o mercado global. O país teve participação limitada nos fluxos comerciais nos últimos períodos e espera-se, em geral, que mantenha restrições às exportações na próxima temporada, podendo até mesmo recorrer às importações caso os estoques internos se tornem ainda mais restritos.

forçando assim a tendência baixista atual.

Avanço da monção do sudoeste (à esquerda) e probabilidade de chuva (%) em junho, julho e agosto para a Índia (à direita) — junho de 2026

Fonte: Departamento Meteorológico da Índia

A Tailândia, por sua vez, é outra região produtora de açúcar que tende a ser afetada negativamente durante os anos de El Niño. As previsões atuais apontam para chuvas abaixo da média nas principais regiões de cana, o que suscita preocupações quanto à produtividade de 2026/27 e pode reduzir sua capacidade de exportação.

Mais especificamente, espera-se que Nakhon Ratchasima enfrente um período de seca durante junho e julho, com uma possível melhora apenas em agosto, quando as chuvas podem ficar acima da média. Mais ao nordeste, no entanto, as condições parecem mais desafiadoras. Khon Kaen e Udon Thani devem enfrentar tempo persistentemente seco durante todo o período, intensificando os riscos de queda na produção.

Previsão de anomalia de precipitação na Tailândia para junho (à esquerda), julho (ao centro) e agosto (à direita) 

Fonte: Departamento Meteorológico da Tailândia

No México, o impacto do El Niño permanece menos definido, embora as previsões atuais apontem para condições mais secas nas regiões centrais. Até o momento, San Luis Potosí parece ser a região mais exposta, respondendo por cerca de 7% da produção total de cana. Em contrapartida, as perspectivas são comparativamente mais favoráveis em estados produtores importantes, como Veracruz (38%) e Jalisco (7,2%), onde as condições climáticas devem ser mais favoráveis.

Anomalia de precipitação acumulada (% | junho (à esquerda), julho (ao centro) e agosto (à direita))

Fonte: Conadesuca, Hedgepoint

Na mesma linha, o Centro-Sul do Brasil, tipicamente menos sensível às condições do El Niño, apresenta atualmente uma perspectiva favorável para o estágio de moagem da safra 2026/27. Entre junho e agosto, espera-se que os principais estados produtores tenham chuvas próximas da média no geral, com apenas um padrão ligeiramente mais seco em junho. Isso poderia até mesmo ser favorável para o ATR (Açúcar Total Recuperável), sem representar uma ameaça aos resultados da produção no ano safra.

Anomalia de precipitação no Brasil (mm | junho (à esquerda), julho (ao centro) e agosto (à direita))

Fonte: Inmet

No fim das contas, embora as perturbações climáticas possam pesar sobre a produção do Hemisfério Norte, conforme destacado em nosso relatório anterior, ainda não há indícios de risco para a produção da Região Centro-Sul do Brasil, nem para a safra 2026/27 nem, neste momento, para a safra 2027/28. Isto reforça o papel do Brasil como principal fornecedor global e destaca ainda mais a crescente dependência do mercado em relação à região.

No entanto, continua sendo essencial acompanhar de perto a evolução do clima global, já que este continua sendo a principal fonte de sustentação para os preços do adoçante. Quaisquer mudanças significativas poderiam influenciar a atual curva futura e reforçar ainda mais o spread V/H.

Resumo

O mercado de açúcar permanece calmo, com fundamentos de curto prazo baixistas limitando os movimentos de preço e protegendo-o de fatores externos. Como resultado, a atenção se voltou para os riscos de médio e longo prazo, com o clima, particularmente o El Niño, emergindo como a principal fonte de potencial altista. Enquanto os riscos se acumulam no Hemisfério Norte (Índia, Tailândia e partes do México, por exemplo), o Centro-Sul do Brasil continua apresentando uma perspectiva estável, reforçando seu papel central no abastecimento global e moldando a curva de futuros para o carry.

Inteligência de Mercado - Açúcar

Escrito por Lívea Coda
livea.coda@hedgepointglobal.com

Revisado por Carolina França
carolina.frança@hedgepointglobal.com

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