Jun 29 / Lívea Coda

Excesso de açúcar bruto e restrição de branco dão suporte ao prêmio do branco

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  • Os dados da UNICA e do MAPA continuam em sintonia, confirmando uma queda de 13% em relação ao ano anterior na moagem da segunda quinzena de maio.
  • O desempenho do Centro-Sul é sólido: a moagem da safra 26/27 está cerca de 16% acima do mesmo período do ano anterior, com a produtividade (TCH) em 84,7 t/ha, sinalizando um potencial de alta para as estimativas atuais de produtividade e moagem (635 Mt). 
  • As perspectivas para a beterraba na UE se deterioram devido às condições climáticas, com a produção prevista para ficar abaixo do ano anterior (14,6 Mt contra 15,8 Mt), reduzindo a oferta regional. 
  • A Índia enfrenta uma monção abaixo do normal, o que pode levar a um desvio menor para a produção de etanol (~3 Mt) e a uma produção de cerca de 27,5 Mt, limitando a disponibilidade para exportação e mantendo o risco de importação em aberto. 
  • A dinâmica global diverge: açúcar bruto brasileiro abundante escassez futura de branco do Hemisfério Norte, sustentando o prêmio do açúcar branco.

Excesso de açúcar bruto e restrição de branco dão suporte ao prêmio do branco

Na última semana, os principais desenvolvimentos em termos de fundamentos continuaram reforçando as expectativas e tendências existentes no mercado, em vez de sinalizar qualquer mudança significativa. Começando pelo último relatório da UNICA, os números estiveram amplamente alinhados com os dados anteriores do Ministério da Agricultura (MAPA). Por exemplo, a UNICA informou 41,5 Mt de moagem de cana na segunda quinzena de maio, em comparação com os 41,2 Mt do MAPA – ambos apontando para uma queda de 13% em relação ao mesmo período do ano anterior. Esse alinhamento sugere que, mesmo que a UNICA ajuste o calendário de divulgação de seus relatórios, o mercado continuará a contar com uma referência oportuna e consistente para a tomada de decisões, embora os dados da organização devam permanecer como a principal referência para a Região Centro-Sul. 

Moagem quinzenal no Centro-Sul (M ton)

Fonte: UNICA

Com relação ao relatório da UNICA, os dados efetivos apontam para um forte desempenho no Centro-Sul do Brasil. Embora a moagem tenha sido inicialmente afetada pelo aumento das chuvas em maio, os volumes acumulados indicam um aumento de quase 16% na safra 26/27 em comparação com a safra 25/26. Além disso, a agência divulgou dados de produtividade, com a Tonelada de Cana por Hectare (TCH) atingindo 84,7 t/ha cumulativamente, corroborando nossa previsão de 77,6 t/ha até o final da safra, com potencial para alta adicional, e claramente superior às 74,5 t/ha registradas na safra anterior. Se essa tendência persistir, ela poderá elevar as expectativas de produtividade e adicionar potencial de alta à nossa estimativa de 635 Mt de cana. Enquanto aguardamos os dados de junho, é importante observar que, embora as chuvas recentes possam interromper temporariamente a moagem, elas são benéficas para a cana do final da safra, reforçando o lado baixista por meio de uma maior produtividade.

Nesse contexto, a segunda-feira, dia 22, fechou a 13,35 c/lb, cerca de 1,8% abaixo do fechamento da semana anterior. Ainda assim, outros desenvolvimentos de fundamentos proporcionaram algum suporte aos preços ao longo da semana, incluindo o Boletim de Monitoramento de Culturas da Comissão Europeia (JRC MARS – junho de 2026) e o monitoramento contínuo da monção.

No lado europeu, as altas temperaturas persistentes e as chuvas limitadas continuam a pesar sobre as principais regiões produtoras de beterraba, como o sudoeste da Alemanha, o leste da França, o sudeste da Polônia e partes da Ucrânia. Como resultado, a agência prevê que a produtividade da beterraba diminua em 5% na safra 26/27 em comparação com a safra 25/26, embora ainda esteja 2% acima da média de cinco anos. Combinado com uma redução na área plantada, isso aponta para uma disponibilidade mais restrita nos próximos meses. Nossas estimativas, incluindo o Reino Unido, apontam para 14,6 Mt na safra 26/27, em comparação com 15,8 Mt na safra 25/26, já levando em conta um desvio médio de 1 Mt para a produção de etanol. 

Síntese climática (1º de maio – 13 de junho | à esquerda) e previsão de produtividade da beterraba sacarina (à direita)

Fonte: Boletim JRC MARS – junho de 2026

Quanto à Índia, embora a monção tenha ganhado força recentemente, o Departamento Meteorológico da Índia (IMD) ainda considera as chuvas abaixo do normal, prevendo atualmente 90% dos níveis médios. As implicações dessa seca ficarão mais claras nos próximos meses, possivelmente em agosto, mas essa tendência já nos levou a revisar nossas perspectivas.

Dada a inflação alimentar em curso e considerações políticas, esperamos agora um menor desvio para a produção de etanol na safra 26/27 em comparação com a safra atual. Em vez de se aproximar de 4 Mt, o desvio deve permanecer mais próximo de 3 Mt. Como resultado, e levando em conta os riscos climáticos, a produção de açúcar da Índia é estimada em cerca de 27,5 Mt para a safra 26/27. Mesmo assim, isso provavelmente manterá o país fora dos fluxos globais de exportação.

No entanto, se os impactos do El Niño forem mais fortes do que o esperado, a produção poderá cair ainda mais, potencialmente reduzindo os estoques para menos de 3 Mt — um resultado que poderia levar o governo a considerar importações. Atualmente, espera-se que o El Niño seja mais intenso do que em ocorrências anteriores, com as probabilidades de intensidade indicando chances crescentes de um evento muito forte entre outubro de 2026 e janeiro de 2027. Para mais informações, consulte nosso relatório especial sobre o El Niño (link).

Probabilidades de intensidade do ENOS (%) – junho de 2026

Fonte: NOAA


Mesmo com os desdobramentos negativos no Hemisfério Norte, esses fatores já estão precificados e refletidos na atual estrutura de spreads, o que aponta para uma disponibilidade mais restrita no futuro, especialmente nos contratos vinculados à oferta do Hemisfério Norte. Como resultado, os preços correntes mostraram pouca reação a esses comunicados oficiais, fechando a semana ainda abaixo de 14 c/lb, porém com uma recuperação de cerca de 3% em relação à sexta-feira anterior. No que diz respeito à próxima entrega, o volume de contratos em aberto forneceu poucas pistas. Espera-se uma alta modesta e até certo ponto típica, embora a possível participação da região Centro-Sul possa limitar novas altas.

Dada a divergência nos fundamentos entre o Brasil e o resto do mundo — onde o país continua sendo um importante exportador de açúcar bruto e o Hemisfério Norte está mais focado na produção de açúcar branco —, o prêmio do açúcar branco recuperou força, já que se espera que seu mercado fique mais restrito. Além disso, espera-se que os custos de refino sejam mais altos do que no ano anterior devido ao conflito entre os EUA e o Irã, tanto na Europa quanto na Ásia, o que dá ainda mais suporte ao açúcar branco, apesar da correção nos preços do açúcar bruto. 


À medida que nos aproximamos da entrega de julho, as expectativas de um excedente de açúcar, especialmente no segmento do açúcar bruto, continuam a pesar sobre o mercado e a limitar o potencial de alta em Nova York. Os desdobramentos no Centro-Sul do Brasil continuam sendo fundamentais para essa dinâmica, com os preços do etanol já se corrigindo conforme previsto em relatórios anteriores, embora tenham ganhado algum ímpeto na última semana. A paridade do etanol se ampliou para além das principais regiões produtoras, com estados como Bahia e Santa Catarina atingindo cerca de 70% no posto de gasolina, o que sustenta uma demanda mais forte por etanol e atua como um leve suporte em meio às interrupções causadas pelas chuvas na moagem da cana no curto prazo.

Indicador Semanal de Etanol Hidratado – São Paulo

Fonte: CEPEA/ESALQ

O aumento do consumo de etanol se destaca como o canal mais econômico para absorver o excedente de cana, podendo sustentar os preços ao longo do tempo e aliviar o excesso de oferta de açúcar no mercado global. No entanto, as expectativas cada vez mais positivas para a safra do Centro-Sul continuam pressionando os preços tanto do etanol quanto do açúcar, reforçando a perspectiva baixista. Portanto, embora os preços do hidratado tenham subido no curto prazo, os distribuidores podem adiar novas compras, já que se espera que a moagem de cana acelere. De modo geral, é improvável que os preços do açúcar e do etanol apresentem uma recuperação significativa no curto prazo.

Resumo

O mercado permanece praticamente inalterado, com os fundamentos reforçando uma tendência baixista impulsionada por uma safra robusta no Centro-Sul e pelas expectativas de excedente de cana-de-açúcar. Embora os riscos no Hemisfério Norte (seca na UE, monção fraca na Índia) reduzam a disponibilidade de açúcar branco e sustentem o seu prêmio, esses fatores já estão precificados e não conseguiram elevar os preços gerais. No Brasil, a melhora na produtividade, a expansão da paridade do etanol e o aumento da produção continuam a pesar sobre os mercados de açúcar e do biocombustível, com expectativa de alta limitada no curto prazo.


Inteligência de Mercado - Açúcar

Escrito por Lívea Coda
livea.coda@hedgepointglobal.com

Revisado por Carolina França
carolina.frança@hedgepointglobal.com

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