Jul 14 / Lívea Coda

Live com os Especialistas – Destaques do mercado de açúcar

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Live com os Especialistas – Destaques do mercado de açúcar

Nesta análise, você encontra os principais pontos discutidos durante o nosso evento “Live com os Especialistas – Mercado de Açúcar”, realizado em 8 de julho. Você também pode acessar este link para assistir à gravação completa.

Panorama macroeconômico e de preços 

O mercado continua acompanhando os efeitos do conflito no Oriente Médio, a persistência da inflação global e a manutenção de juros elevados nas principais economias. Dados mais fracos de emprego nos Estados Unidos reduziram temporariamente o suporte ao dólar e favoreceram uma recuperação das commodities ao longo da semana passada, ao reduzirem a expectativa de aumentos na taxa de juros norte-americana. Ainda assim, o Fed deve seguir observando também a inflação para determinar sua política monetária, que segue acima da meta de 2% como reflexo dos desdobramentos do conflito com o Irã. 


No Brasil, o elevado diferencial de juros ainda sustenta o real, embora a proximidade do período eleitoral aumente a volatilidade cambial. Desvalorizações podem beneficiar novas vendas de açúcar e devem ser monitoradas.

Índice de Preços ao Consumidor (IPC) dos EUA

Fonte: Bloomberg

Em termos do açúcar, a recente recuperação dos preços foi impulsionada pela cobertura de posições vendidas dos fundos e pelo aumento das preocupações com a safra 2026/27 do Hemisfério Norte. Apesar disso, a disponibilidade atual permanece elevada e limita movimentos mais expressivos de alta. Tecnicamente, o contrato de açúcar bruto encontrou resistência próxima de 15,5 c/lb.

Hemisfério Norte

Índia

As monções avançaram de maneira razoavelmente favorável após um início atrasado. A produção está estimada em aproximadamente 27,3 Mt, abaixo da temporada anterior. O país não deve exportar açúcar em 2026/27 e uma piora das condições climáticas poderia inclusive gerar necessidade de importações, o que agiria como suporte aos preços ao impactar diretamente a disponibilidade global.

Paridade histórica: açúcar x etanol hidratado

Tailândia

O país tem histórico de ser negativamente afetado pelo El Niño com redução expressiva da produtividade dado a seca e maiores temperaturas. Como o evento climático tem alta probabilidade de ocorrência e de intensidade para o período de desenvolvimento da cana no país, reduzimos nossa projeção para a safra 2026/27 e estimamos uma moagem de cerca de 88 Mt de cana, diminuindo as exportações para um volume entre 6–6,5 Mt. Essa redução impacta diretamente os fluxos comerciais ao reduzir em 1Mt a disponibilidade quando comparado a estimativa anterior.

Europa e Reino Unido

O clima seco e as altas temperaturas nos principais países produtores (Alemanha, França e Polônia), bem como dificuldades com pestes na Inglaterra reduziram o potencial da produtividade da beterraba. Combinada a um segundo ano de diminuição de área, a produção de açúcar da região deve ser próxima de 14 Mt, já descontando o desvio para o etanol e elevando significativamente a necessidade de importações para manutenção dos estoques do adoçante.

Fonte: LSEG, Hedgepoint

México, América Central e Eurásia

México, Guatemala, El Salvador e Ucrânia apresentam perspectivas menos favoráveis para 2026/27. Enquanto os três primeiros devem enfrentar clima adverso por conta da intensidade do El Niño, a Ucrânia apresentou uma redução de area de 18% por conta dos altos estoques, redução da capacidade de exportação para a Europa e pelos desafios impostos pela guerra contra a Russia. Em contrapartida, a Rússia deve manter produção relativamente estável, funcionando como um dos poucos fatores baixistas no Hemisfério Norte.

China

A China continua atuando como um fator moderadamente baixista para o mercado internacional de açúcar. Diferentemente de outros grandes importadores, o país vem ampliando sua produção doméstica e acumulando estoques, reduzindo sua dependência do mercado externo. Para 2026/27, a expectativa é de produção próxima a 13 Mt, enquanto as importações devem ficar abaixo dos níveis observados na temporada anterior. O Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais estima que cerca de 4.8 Mt de açúcar devem ser importados na proxima safra, porém, com a possibilidade de uma faixa de preços mais elevada e o conforto dos estoques do país nos levam a considerar uma importação menor, em cerca de 4 Mt, uma vez que a arbitragem de importação pode perder atratividade. 

Dessa forma, embora a deterioração da safra no Hemisfério Norte ofereça suporte aos preços globais, uma demanda chinesa mais cautelosa pode atenuar parte desse movimento altista e contribuir para manter o mercado em um cenário de superávit moderado.

Balanço do açúcar – China (Mt, outubro-setembro)

Fonte: GSMN, CSA, YNTW, Refinitiv, Greenpool, Hedgepoint. Observação: os estoques também incluem o volume dos entrepostos alfandegários.

Centro Sul Brasileiro

Mesmo com chuvas que atrasaram a moagem, a projeção permanece praticamente inalterada: 635 Mt de cana, ATR levemente superior ao esperado inicialmente e mix próximo de 47,3%. Há potencial de aumento do mix açucareiro caso os preços continuem favorecendo o açúcar frente ao etanol. Não apenas isso, mas a perspectiva de aperto no fluxo comercial em 2027 sugere que a próxima safra do Centro-Sul brasileiro pode ser majoritariamente açucareira. Em termos de El Niño, o evento climático não possui grande correlação com as regiões produtoras de cana. Ainda, por sua intensidade elevada, podemos observar maiores chuvas no Sul de São Paulo e do Mato Grosso do Sul, o que pode atrasar a safra, mas beneficiar a cana do final do período. Anos de El Niño, em geral, tendem a favorecer a produtividade da região. 

Resumo de Safra

Fonte: UNICA, Hedgepoint

Com relação ao NNE, o El Niño costuma trazer seca e temperaturas mais elevadas. Com sua ocorrência no segundo semestre, pode implicar em ATR mais elevado para a safra 2026/27, mas, se prolongado, pode prejudicar o desenvolvimento de 2027/28.

Fluxo Comercial Global

A redução da disponibilidade exportável do Hemisfério Norte diminuiu o superávit esperado do mercado global a partir do quarto trimestre de 2026. O Brasil continua atuando como principal fornecedor de equilíbrio do mercado e deverá desempenhar papel ainda mais relevante em 2027/28. Alterações de mix da região Centro-Sul podem suavizar, em partes, este cenário. Em contrapartida, pioras significativas que levem a Índia a importar intensificam o aperto global. Estas tendências devem ser monitoradas de perto.


Fluxo comercial total (esquerda), de açúcar bruto (meio) e branco (direita) | ‘000t tq 

Fonte: Green Pool, Hedgepoint

No cenário doméstico, políticas públicas relacionadas ao mercado de combustíveis desempenham papel relevante. A possível adoção de uma mistura maior de etanol anidro na gasolina, o E32, pode contribuir para reduzir o excedente de açúcar, elevando o piso de preços de 14 c/lb para 14.2 c/lb. Por outro lado, eventuais subsídios à gasolina podem gerar efeito contrário, reduzindo a competitividade do etanol e pressionando os preços do açúcar. O impacto efetivo dessas medidas dependerá da forma como forem implementadas e do grau de repasse ao consumidor final.

Resumo

O mercado global de açúcar tornou-se menos confortável em relação ao início do ano. Embora a oferta brasileira continue robusta e mantenha o mercado global superavitário, os riscos climáticos associados ao fortalecimento do El Niño reduziram significativamente as perspectivas de produção do Hemisfério Norte em sua próxima safra, 2026/27. Como resultado, o superávit global nos fluxos comerciais foi revisado para aproximadamente 1,8–2 Mt, contra quase 4 Mt estimados anteriormente entre o segundo trimestre de 2026 e o terceiro trimestre de 2027. Essa perspectiva mais restrita sustenta um patamar de preços superior ao observado na primeira metade do ano, principalmente para os contratos de 2027. Entretanto, essa nova faixa não deve ser comparável as altas de 2023, uma vez que seguimos em superávit e o contexto de adversidade atinge apenas o Hemisfério Norte, até o momento, com o Centro-Sul brasileiro ainda com uma perspectiva favorável de disponibilidade.

Inteligência de Mercado - Açúcar

Escrito por Lívea Coda
livea.coda@hedgepointglobal.com

Revisado por Laleska Moda
laleska.moda@hedgepointglobal.com

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