Índia, Europa e Brasil moldam o sentimento do mercado de açúcar
- Nas últimas semanas, os fatores macroeconómicos e geopolíticos, em particular as tensões no Médio Oriente, tiveram um impacto maior nos preços do que as notícias específicas sobre o açúcar.
- A Índia continua a representar o principal risco altista devido a uma monção mais fraca e aos baixos níveis dos reservatórios.
- A Comissão Europeia diminuiu as estimativas para a produção de açúcar para 14,1 Mt, depois de ondas de calor terem reduzido as expectativas de produtividade da beterraba.
- A produção de cana no Brasil mantém-se forte; no entanto, as chuvas poderão afetar negativamente o ATR e o mix açúcar, sugerindo uma redução na produção e nas exportações de açúcar.
- O volume de exportações brasileiras mantém-se resiliente, apesar do enfraquecimento das importações da China e da Indonésia.
Índia, Europa e Brasil moldam o sentimento do mercado de açúcar
Nas últimas semanas, o mercado do açúcar tem sido impulsionado mais por fatores macroeconómicos e geopolíticos do que pela evolução dos seus próprios fundamentos. As tensões geopolíticas voltaram ao centro das atenções com a escalada e desescalada recorrentes do conflito entre os EUA e o Irã, afetando diretamente o setor energético e, por sua vez, influenciando os mercados do açúcar e de outras matérias-primas.
Ainda que as alterações nos fundamentos específicos do açúcar têm sido limitadas, o mercado continua a debater se as condições meteorológicas na Índia podem levar à concessão de quotas de importação de açúcar. O clima europeu e a deterioração das colheitas também estão em destaque, enquanto a atualização da UNICA sobre a colheita do Centro-Sul do Brasil continua atrasada. Além desses fatores, o fluxo de notícias do mercado tem estado calmo, deixando os participantes com poucos fatores fundamentais novos para reavaliar a direção dos preços.
Especificamente, a Índia continua sendo o principal fator altista para o açúcar, com previsão de condições de monção mais fracas para agosto, após precipitação próxima da média em julho. Os principais estados produtores de cana com precipitação abaixo da média entre junho e julho foram Uttar Pradesh, Tamil Nadu e Karnataka.
Mapa de precipitação por distrito (% do normal)

Fonte: Departamento Meteorológico da Índia
A disponibilidade de água continua sendo um risco, uma vez que os três estados dependem fortemente da irrigação. Os níveis dos reservatórios encontram-se atualmente críticos em Uttar Pradesh, abaixo do normal em Tamil Nadu e adequados em Karnataka. Dada a quota elevada de Uttar Pradesh na produção indiana de cana-de-açúcar (~45%), a sua situação hídrica merece um acompanhamento mais de perto.
Apesar destas preocupações, ainda não esperamos importações de açúcar da Índia no nosso cenário base. A precipitação em julho foi, de um modo geral, boa, e preferimos aguardar os dados relativos à precipitação e aos reservatórios de agosto antes de considerar qualquer redução significativa nas perspetivas de disponibilidade do adoçante na Índia.
O volume de açúcar na Europa foi revisto para baixo pela Comissão Europeia, alinhando as suas perspetivas mais com a nossa avaliação anterior. A região foi afetada por três ondas de calor, o que levou a Comissão a reduzir a sua estimativa de produção para 14,1 Mt, uma queda de 15% em relação à safra anterior, mas ainda assim mais otimista do que a nossa estimativa de 13,8 Mt para a Europa e o Reino Unido. A redução da agência surge na sequência de uma revisão para baixo das projeções de produtividade da beterraba da agência MARS para 76,0 t/ha, em comparação com 77,7 t/ha no relatório anterior.
No que diz respeito ao Brasil, embora as chuvas recentes tenham perturbado as operações de moagem, continuamos otimistas quanto à disponibilidade de cana. Estimamos atualmente em 635,5 Mt o volume de cana do Centro-Sul, com um adicional de 5 Mt que deve ser colhido apenas em 2027/28 devido ao ritmo mais lento. As condições da cana também se mantêm favoráveis, uma vez que os indicadores de saúde da vegetação continuam positivos e apontando para um forte potencial de produtividade. A principal área de preocupação é o ATR, que poderá ficar abaixo do inicialmente esperado, mais próximo de 138 kg/t. Mesmo assim, um mix açúcar de 47,3% permitiria que a produção do adoçante atingisse aproximadamente 39,5 Mt.
Ritmo de moagem x Dias perdidos

Fonte: Bloomberg, Unica, MAPA, Hedgepoint
No que diz respeito às exportações, a nossa expectativa é que, devido à menor disponibilidade de açúcar, impulsionada por um mix açúcar e um ATR reduzidos, as exportações devem cair para 30,5 Mt em 26/27, comparado aos 32 Mt do ano anterior. Embora interrupções devidas as chuvas possam sugerir um atraso significativo até o momento, o desempenho real tem-se revelado mais resiliente. Atualmente, o Brasil exportou 12,3 Mt de açúcar, apenas cerca de 500 kt abaixo do volume expedido durante o mesmo período de 2025 e, em termos gerais, em linha com a média de cinco anos de 12,67 Mt. Nem as chuvas nem as tensões geopolíticas têm, portanto, limitado significativamente as exportações até ao momento. No entanto, uma vez que a disponibilidade de açúcar continua robusta, os fluxos de exportação poderão acelerar assim que a precipitação diminuir.
Exportações totais de açúcar do Brasil entre janeiro e junho (Mt)

Fonte: SECEX, Hedgepoint
Quanto ao conflito no Oriente Médio, os Emirados Árabes Unidos têm sido o único grande importador da região a reduzir significativamente as compras do Brasil em comparação com anos anteriores. O Irã também importou menos açúcar brasileiro, embora isso se insira numa tendência de longo prazo e tenha pouco impacto nos resultados do país.
Exportações brasileiras de açúcar por país (janeiro - junho) – Principais importadores representando até 80% do total (Mt)

Fonte: SECEX, Hedgepoint
Resumo
Inteligência de Mercado - Açúcar
Escrito por Lívea Coda
livea.coda@hedgepointglobal.com
Revisado por Carolina França
carolina.frança@hedgepointglobal.com
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