Aug 10 / Lívea Coda

A safra brasileira: cana maior, menos açúcar

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  • Os atrasos da UNICA aumentaram a incerteza no mercado, mas o MAPA trouxe mais clareza.
  • A moagem se recuperou na primeira quinzena de julho;
  • A qualidade da cana e o mix açúcar permaneceram moderados.
  • A produção de açúcar está estimada em 39,5 Mt, apesar dos esforços das usinas para maximizar a produção de açúcar devido às expectativas em relação às condições climáticas.
  • Preços mais altos, mas potencial de alta limitado, já que o Brasil continua sendo uma fonte estável de oferta de açúcar.

A safra brasileira: cana maior, menos açúcar

Enquanto o mercado continua acompanhando o desenvolvimento das safras no Hemisfério Norte em busca de orientação, a atenção voltou-se para o Centro-Sul do Brasil na última semana. Os atrasos na divulgação dos dados da Unica alimentaram as especulações do mercado, enquanto as perspectivas de clima mais chuvoso deram suporte aos preços. A semana foi marcada pela publicação dos números de junho da Unica, divulgados com dois meses de atraso, juntamente com os dados da primeira quinzena de julho do MAPA. Embora ambos os conjuntos de números tenham oferecido sinais de suporte aos preços, eles exigem uma interpretação cuidadosa. Neste relatório, avaliamos esses resultados e suas possíveis implicações para os preços do açúcar.

Os números acumulados da UNICA até 1º de julho totalizaram 214,5 Mt de cana e 10,75 Mt de açúcar, representando um aumento de quase 4% no processamento de cana e uma queda de 12,4% na produção de açúcar em relação ao mesmo período do ano anterior. E o que explica esses números?

A safra começou em um cenário confortável de fluxos comerciais globais do adoçante. As expectativas de uma temporada em recuperação no Hemisfério Norte em 2025/26 e de uma safra robusta no Centro-Sul brasileiro em 2026/27 apontavam para um superávit global considerável. Como resultado, a maneira mais eficiente de absorver a disponibilidade adicional de açúcar era por meio de uma demanda mais forte por etanol no Brasil, incentivada pelos preços mais baixos do hidratado devido à redução do mix açúcar pelas usinas – respeitando a vantagem que o etanol oferecia em relação ao açúcar naquele momento. Esse ajuste se concretizou, com os preços do etanol hidratado se corrigindo significativamente, conforme discutido em nossos relatórios anteriores (link). Desde então, a paridade na bomba tornou-se altamente favorável ao biocombustível nos principais estados produtores de açúcar e etanol e está cada vez mais favorável em estados como Amazonas (NNE), Acre (NNE), Bahia (NNE) e Paraná (CS).


Paridade de preço na bomba nos estados (%)

Fonte: ANP, Hedgepoint

Ao mesmo tempo, um forte padrão de El Niño começou a se manifestar, ameaçando as perspectivas de produção do Hemisfério Norte para 2026/27 e, ao mesmo tempo, prejudicando as operações de moagem no Centro-Sul do Brasil. Isso acrescentou mais uma camada de incerteza ao mercado, especialmente porque a UNICA, a fonte mais confiável de dados sobre a safra na região, enfrentou atrasos significativos na divulgação de informações, deixando os participantes do mercado com visibilidade limitada sobre o andamento da colheita e o desempenho da safra, aumentando sua dependência dos dados do MAPA como um indicador mais oportuno do desempenho da safra. Portanto, os volumes de moagem mais baixos relatados em junho devido às chuvas já eram amplamente esperados quando o relatório da UNICA foi publicado na semana passada.

Os números do MAPA referentes à primeira quinzena de julho, no entanto, apresentaram um quadro mais suavizado. A moagem de cana atingiu 50,9 Mt, aproximadamente 9% acima da média de cinco anos para o período, reforçando nossa estimativa de uma safra de 635,5 Mt no Centro-Sul. Por outro lado, o relatório foi mais suportivo para preços sob a perspectiva do mercado de açúcar.Embora as usinas tenham começado a maximizar o adoçante, apoiadas por um prêmio do açúcar de cerca de 200 pontos em relação ao etanol hidratado durante a maior parte de julho, o mix açúcar permaneceu em 49%, abaixo da média de cinco anos de 50% para o período. Além disso, o Açúcar Total Recuperável (ATR) ficou em 134,6 kg/t, cerca de 4% abaixo do mesmo período do ano anterior. Esse indicador sugere limitações à qualidade final da cana e, consequentemente, à produção de açúcar. Atualmente, estimamos a produção da região Centro-Sul em 39,5 Mt, um nível que restringiria as exportações e daria suporte aos preços. Esses resultados são atribuídos a níveis mais elevados de precipitação.

Moagem quinzenal de cana nas usinas do Centro-Sul (M ton) 

Fonte: UNICA, MAPA, Hedgepoint

Chuvas excessivas, combinadas com temperaturas elevadas e luz solar adequada, desviam o foco fisiológico da cana da acumulação de sacarose para o crescimento vegetativo. Isso normalmente resulta em menor concentração de açúcar e maior teor de fibra, reduzindo a eficiência da extração de açúcar, além de atrapalhar as atividades de colheita. Essas preocupações estiveram entre os principais fatores por trás da alta dos preços na semana passada e sustentam o potencial para uma faixa de negociação mais elevada daqui para frente.

No entanto, embora parte da cana do Centro-Sul possa permanecer não colhida e ser transferida para a safra seguinte (bisada), acreditamos que o potencial de alta dos preços continua limitado. Ao contrário de períodos anteriores de escassez impulsionados por safras abaixo do esperado tanto no Brasil quanto no Hemisfério Norte, ainda se espera que o Brasil produza mais de 600 Mt de cana. Isso aponta para uma safra forte no geral, mesmo que a produção de açúcar fique aquém de seu potencial máximo. Além disso, preços mais firmes poderiam incentivar uma migração adicional para a produção de açúcar, um cenário já incorporado em nosso balanço de 2026/27.

Preços do açúcar bruto (c/lb)

Fonte: LSEG, Hedgepoint

Olhando para o futuro, chuvas contínuas poderiam sustentar uma maior disponibilidade de cana para a safra de 2027/28. Se os fundamentos globais continuarem mais restritos, essa maior base de cana também poderia vir acompanhada de um maior mix açúcar. Portanto, embora o ambiente do mercado seja claramente mais altista do que era no início do ano, as perspectivas para a safra brasileira ainda têm o potencial de limitar ganhos adicionais. Por enquanto, no entanto, os preços provavelmente permanecerão em uma faixa mais alta, já que o mercado continua a precificar tanto a deterioração das perspectivas no Hemisfério Norte quanto o impacto de curto prazo das chuvas na safra do Centro-Sul. Na semana passada, já havia sinais dessa faixa de preços mais elevada, com as cotações rompendo o patamar de 16 centavos por libra-peso, em decorrência de maior atividade de compra que, combinada com um aumento nos contratos em aberto, sugere a entrada de novos participantes no mercado.

Previsão de anomalia de precipitação (mm – agosto (à esquerda), setembro (ao centro) e outubro (à direita)

Fonte: Inmet

Resumo

A atenção do mercado voltou-se novamente para a região Centro-Sul do Brasil, uma vez que o atraso nos dados da UNICA e as chuvas aumentaram a incerteza em relação ao desempenho da safra nessa região. Embora os números de julho do MAPA tenham reforçado as expectativas de uma safra de cana abundante, o ATR mais baixo e um mix açúcar abaixo da média sugerem um potencial limitado de produção do adoçante. Portanto, as chuvas excessivas estão contribuindo para uma perspectiva de preços mais otimista, ao afetar a qualidade da cana e a colheita, embora a grande safra brasileira deva continuar a limitar movimentos significativos de alta.


Inteligência de Mercado - Açúcar

Escrito por Lívea Coda
livea.coda@hedgepointglobal.com

Revisado por Carolina França
carolina.frança@hedgepointglobal.com

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