Escalada do conflito no Oriente Médio: e o mercado de cacau?
- A escalada do conflito no Oriente Médio elevou o risco geopolítico e impactou o mercado de energia, com o petróleo Brent atingindo os maiores níveis desde 2022.
- A interrupção do Estreito de Ormuz e a redução do tráfego no Canal de Suez aumentaram os custos logísticos globais e ampliaram os prêmios de risco em fretes e seguros marítimos.
- O cenário de maior incerteza tende a fortalecer o dólar e elevar pressões inflacionárias, encarecendo energia, fertilizantes e outros insumos relevantes para a produção agrícola.
- Para o mercado de cacau, os impactos diretos nas rotas comerciais são limitados, já que cerca de 80% dos derivados e aproximadamente 70% das amêndoas importadas pela União Europeia têm origem na África Ocidental e utilizam rotas atlânticas não afetadas.
- Os efeitos mais relevantes para o setor tendem a ocorrer de forma indireta, por meio de custos de frete mais altos, disponibilidade de embarcações e possíveis ajustes nos fluxos comerciais no médio prazo, mantendo o mercado de cacau sensível e sujeito a maior volatilidade.
Escalada do conflito no Oriente Médio: e o mercado de cacau?
Em 28 de fevereiro, as tensões no Oriente Médio ganharam um novo capítulo. Ataques coordenados dos EUA e de Israel contra regiões estratégicas do Irã provocaram retaliações do país e intensificaram o conflito, ampliando os impactos na economia e o comercio globais. Com a escalada, diversos países vizinhos que abrigam bases americanas ou ativos energéticos se envolveram direta ou indiretamente, como Iraque, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Catar e Bahrein. Além disso, incidentes com drones e atividades com mísseis também afetaram áreas próximas ao Líbano, Síria e Azerbaijão, ressaltando a natureza regional da escalada.
Os primeiros impactos foram observados no mercado de energia. A interrupção do Estreito de Ormuz, que é responsável por cerca de um quinto dos fluxos globais de petróleo e GNL e a redução do tráfego marítimo pelo Canal de Suez em função da insegurança no Mar Vermelho afetam diretamente os fluxos comerciais de energia. Adicionalmente, a redução de produção por parte da Arábia Saudita e outros membros da OPEP contribuíram para o cenário crítico, levando os preços do petróleo Brent a atingirem os maiores níveis desde 2022 durante a sessão do dia 09 de março.
A declaração do presidente Donald Trump de que o conflito estaria próximo ao fim, e a flexibilização das sanções ao petróleo da Rússia, segundo maior exportador mundial, ajudaram a reverter parte dos ganhos nas cotações. Somado a isso, na quarta-feira, 11 de março, a Agência Internacional de Energia (IEA) recomendou a liberação de 400 milhões de barris de petróleo, em uma tentativa de conter a alta no mercado de energia. Ainda assim, o cenário permanece crítico, pois o que a agência classifica como a maior interrupção do fornecimento de petróleo da história, somado à intensificação dos ataques nos últimos dias, continua pressionando os preços.
O confronto envolveu alguns dos principais integrantes do mercado de energia do Oriente Médio e afetou rotas marítimas estratégicas, aumentando os prêmios de risco geopolítico em energia, fretes e moedas. Assim, o confronto militar regional passou a gerar impactos econômicos e comerciais em escala global, afetando também o mercado de commodities. Nesse contexto, esta análise busca discutir os potenciais impactos da escalada do conflito sobre o mercado de cacau, avaliando possíveis desdobramentos para um mercado que já apresenta volatilidade elevada.
Partindo de um panorama macroeconômico mais amplo, um cenário de maior incerteza tende a favorecer o dólar, que pode melhorar a remuneração das commodities aos produtores e estimular vendas no médio prazo. Por outro lado, esse mesmo contexto de incertezas também pode intensificar a pressão inflacionária, elevando custos e os riscos ao longo da cadeia de commodities, incluindo o cacau, e contribuindo para níveis de preços mais elevados.
Nesse sentido, outro ponto relevante é que a alta do petróleo e a volatilidade do dólar tendem a pressionar os custos de produção, encarecendo não apenas o combustível utilizado nas fazendas, mas também insumos como fertilizantes e defensivos, refletindo custos energéticos e logísticos mais elevados. Além disso, a interrupção do Estreito de Ormuz pode afetar o comércio global de fertilizantes, uma vez que importantes produtores do Golfo dependem dessa rota para escoar parte significativa da oferta mundial.
Aprofundando a análise do ponto de vista logístico, avaliando as principais rotas marítimas globais, alguns pontos críticos se destacam, três deles relevantes no contexto atual. Como mencionado anteriormente, o Estreito Ormuz, diretamente impactado, o Canal de Suez, que teve o tráfego reduzido em função da insegurança no mar vermelho, e o Cabo da Boa Esperança, que se tornou uma opção de rota alternativa mais longa em função do conflito.
Principais rotas marítimas do mercado de cacau

Fonte: : Hedgepoint
Para o mercado de cacau, os impactos tendem a ser indiretos, visto que nenhuma rota usada por grandes produtores e importadores de amêndoas e subprodutos do cacau foi diretamente afetada. A principal exceção é a rota utilizada por Malásia e Indonésia para exportação de pó e manteiga de cacau para a Europa. Ainda assim, o impacto é limitado, já que, em média, cerca de 80% das importações da União Europeia desses subprodutos têm origem na África Ocidental, cuja rota pelo Atlântico permanece inalterada. Vale destacar ainda que cerca de 70% das amêndoas de cacau importadas pela União Europeia também têm origem na África Ocidental.
Dessa forma, os efeitos indiretos estão mais associados ao aumento dos custos de frete e à dinâmica logística global, especialmente no que diz respeito à disponibilidade de embarcações e ao custo de seguros marítimos, a depender da duração do conflito. Nesse contexto, também monitoramos a possibilidade de mudanças nos fluxos comerciais no médio prazo, particularmente no mercado norte-americano, caso o encarecimento logístico passe a influenciar a competitividade entre origens, considerando ainda as limitações relacionadas à qualidade dos produtos.
Por fim, vale ressaltar que o mercado de cacau já se encontra sensível em função de fatores discutidos em análises recentes, e que o conflito no Oriente Médio tende a sustentar a volatilidade nesse mercado. Nesse cenário, os preços do cacau encerraram a sexta-feira, 13 de março, com valorização semanal de 2,14% em Nova York e 4,54% em Londres.
Preços cacau Nova York e Londres

Fonte: LSEG
Em resumo
A escalada das tensões no Oriente Médio após os ataques de 28 de fevereiro ampliou os impactos geopolíticos sobre energia, logística e mercados globais. A interrupção do Estreito de Ormuz e a redução do tráfego no Canal de Suez elevaram os prêmios de risco no mercado de energia, contribuindo para a alta recente do petróleo e para maior incerteza macroeconômica. Esse cenário pressiona custos energéticos, logísticos e agrícolas, especialmente por meio do encarecimento de fertilizantes e insumos. Para o mercado de cacau, os impactos diretos nas rotas comerciais são limitados, já que os principais fluxos entre África Ocidental e Europa permanecem inalterados, mas efeitos indiretos podem surgir via fretes, seguros marítimos e dinâmica logística global. Em um mercado já sensível a fatores estruturais e técnicos, esse ambiente de incerteza tende a sustentar a volatilidade dos preços.
Report Semanal — Cacau
Escrito por Carolina França
carolina.franca@hedgepointglobal.com
Revisado por Laleska Moda
laleska.moda@hedgepointglobal.com
www.hedgepointglobal.com
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