May 29 / Carolina França

Mercado de cacau combina sensibilidade climática e movimentos técnicos

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  • O mercado tem sido guiado por fatores técnicos e pelo cenário macroeconômico, incluindo cobertura de posições vendidas e ajustes de posicionamento.

  • As condições climáticas na África Ocidental seguem favoráveis até o momento, mas exigem monitoramento diante de riscos de chuvas abaixo da média no início de junho em algumas regiões.

  • A expectativa de formação de um El Niño reforça a incerteza, pois seus impactos variam por região e podem intensificar a volatilidade do mercado.

  • A dinâmica de preços no curto prazo tende a depender da interação entre fatores técnicos e notícias climáticas, com o mercado reagindo de forma rápida a qualquer mudança de percepção sobre oferta e demanda.

Mercado do cacau reage a dados mistos de moagem

Os futuros do cacau encerraram a semana de 29 de maio cotados a 3.923 USD/t em Nova York e 2.975 GBP/t em Londres. Na comparação mensal, os contratos fecharam maio com valorização de 12,3% em Nova York e de 13,5% em Londres. Apesar de comentários sobre uma possível safra maior na Costa do Marfim e de preocupações com a qualidade das amêndoas na África Ocidental, até o momento não houve mudanças relevantes nos fundamentos do mercado.

Nesse sentido, os movimentos recentes do mercado têm sido guiados principalmente pelo cenário macroeconômico, em meio aos desdobramentos do conflito entre EUA e Irã, além de fatores técnicos. Entre os principais vetores estão a cobertura de posições vendidas por fundos especulativos, compras técnicas após o rompimento de níveis de resistência e ajustes de posicionamento. Assim, embora a tendência siga baixista diante da expectativa de superávit no ciclo corrente, o mercado de cacau permanece estruturalmente sensível, e qualquer mudança de percepção pode ampliar a volatilidade, mesmo dentro de um viés de queda.

Nesse contexto, o clima continua em destaque. Na Costa do Marfim, principal produtor de amêndoas, a precipitação acumulada segue acima do ciclo passado e próxima da média histórica. Em Gana, esse indicador também está acima da média e já registra novas máximas, o que é positivo para a cultura, mas exige atenção quanto ao andamento da colheita e à incidência de doenças.

Precipitação acumulada estimada para os distritos produtores de cacau da Costa do Marfim (mm)

Fonte: : CPC Gadas, Hedgepoint

Precipitação acumulada estimada para as regiões produtoras de cacau de Gana (mm)

Fonte: : CPC Gadas, Hedgepoint


Apesar disso, a previsão para os próximos dias indica chuvas abaixo da média em partes da África Ocidental. Considerando o calendário da cultura, a safra está em fase crítica, equivalente ao florescimento que dará origem à safra principal 26/27, colhida a partir de outubro. Dessa forma, um período prolongado de menor precipitação ao longo de junho pode afetar o desenvolvimento das lavouras e oferecer suporte adicional a movimentos técnicos do mercado.


Ainda no campo climático, o setor segue atento à evolução do El Niño. A NOAA elevou para 82% a probabilidade de formação do fenômeno entre maio e julho, com possibilidade de persistência ao longo do inverno de 2026/27 no hemisfério norte, ou verão no hemisfério sul. A temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 também avançou de forma significativa nos últimos meses, com projeções de que o índice ultrapasse 1,5 °C e até 2 °C a partir de setembro, configurando um evento forte ou muito forte.

Nas principais regiões produtoras de cacau, os efeitos potenciais do El Niño variam conforme a intensidade e a localização. Em termos gerais, o fenômeno pode favorecer condições climáticas mais secas na África Ocidental e Central, na América Central e no norte do Brasil, enquanto tende a aumentar as chuvas no Peru, no Equador e em partes da África. Em relação à temperatura, a ocorrência de ondas de calor pode se tornar mais frequente na América do Sul e na África. Em algumas regiões, especialmente na África Ocidental, a resposta ao El Niño não é direta e pode ser modulada por fatores regionais, como a Monção da África Ocidental e os ventos Harmattan.

Dessa forma, os impactos do El Niño não são homogêneos e dependem da intensidade do evento, do momento em que ocorre no ciclo produtivo e de sua interação com fases críticas, como o florescimento e o desenvolvimento dos frutos. Por isso, os efeitos podem variar significativamente entre regiões e safras, reforçando a necessidade de monitoramento contínuo das condições climáticas e das lavouras.

Assim, embora os movimentos recentes sejam predominantemente técnicos, fatores climáticos seguem capazes de dar sustentação adicional ao mercado. Os contratos futuros de cacau encerraram em queda na sexta, 29 de maio, e podem testar a região de suporte em 3.925 USD/t em Nova York e 2.986 GBP/t em Londres, níveis que, se rompidos, podem abrir espaço para novas perdas, especialmente em um contexto de expectativa de superávit global e estoques elevados nos armazéns certificados em Nova York. Por outro lado, caso o suporte seja respeitado, há potencial para repiques técnicos e movimentos de correção no curto prazo, ainda que limitados por esse pano de fundo mais baixista de recuperação parcial da oferta.

Cacau – NY Jul 26: Níveis de retração de Fibonacci (USD/t)

Fonte: LSEG

Cacau – LND Jul 26: Níveis de retração de Fibonacci (GBP/t)

Fonte: LSEG

Em resumo

O mercado de cacau segue pressionado por fatores técnicos e por um pano de fundo baixista associado à expectativa de superávit global e estoques elevados em Nova York, mas permanece sensível a mudanças climáticas. As condições atuais na África Ocidental são favoráveis, embora haja risco de chuvas abaixo da média em um período crítico para o desenvolvimento da próxima safra 2026/27. Ao mesmo tempo, a possível formação de um El Niño adiciona incerteza, uma vez que seus efeitos variam entre regiões. Nesse contexto, mesmo com tendência de baixa, o mercado pode registrar volatilidade e movimentos de correção no curto prazo.

Report Semanal — Cacau

Escrito por Carolina França
carolina.franca@hedgepointglobal.com

Revisado por Luiz Silverio
luiz.silverio@hedgepointglobal.com

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