Jun 19 / Carolina França

Live com Especialistas edição de junho: principais destaques

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  • O cenário macroeconômico continua volátil, com tensões geopolíticas influenciando a inflação e os preços de energia e a percepção de risco nos mercados globais, com possíveis impactos indiretos sobre a demanda e os custos do cacau.

  • A demanda apresenta divergências regionais, com a Ásia mantendo uma atividade relativamente mais resiliente, apoiada pelo crescimento do processamento na Indonésia e na Malásia, enquanto a Europa continua sob pressão, apesar de aumentos temporários nas importações.

  • Os Estados Unidos continuam a apresentar uma demanda mais resiliente em termos de importações, com forte entrada de subprodutos de cacau, incluindo um papel crescente da Malásia no fornecimento de pasta.

  • As condições de oferta estão melhorando na Costa do Marfim, com um aumento nas entregas de cacau aos portos e potencial revisão positiva na oferta, enquanto a produção de Gana permanece estável com maior volume de chuva acumulada. O Equador enfrenta redução na oferta devido a condições climáticas adversas.

  • Apesar da previsão de excedente para a safra 25/26, o mercado permanece cauteloso, com os agentes ajustando suas posições em meio a riscos climáticos e incertezas, enquanto aguardam atualizações importantes sobre a demanda em meados de julho.

Live com Especialistas edição de junho: principais destaques

O mercado de cacau permanece volátil, refletindo uma combinação de incertezas macroeconômicas, ajustes nos fluxos globais de oferta e demanda e riscos climáticos iminentes. Nesse contexto, esta análise visa consolidar os principais pontos discutidos durante a Live com Especialistas, realizada em 17 de junho, reunindo destaques da visão macroeconômica, da dinâmica de oferta e demanda de cacau, dos fatores climáticos e do equilíbrio do mercado, a fim de contextualizar os recentes movimentos de preços e os riscos futuros associados.

Panorama macroeconômico

O ambiente macroeconômico continua incerto, marcado pelas tensões geopolíticas entre os Estados Unidos e o Irã, que aumentaram os prêmios de risco e elevaram os preços da energia, ao mesmo tempo em que direcionaram os investidores para ativos mais seguros, como o ouro, influenciando o mercado de commodities. Embora o anúncio de um possível acordo de paz e a reabertura do Estreito de Ormuz tenham trazido algum alívio, o mercado permaneceu cauteloso diante dos riscos mais amplos. Nos EUA, a inflação continua sob pressão dos custos da energia, juntamente com dados mais resilientes do mercado de trabalho, o que levou o Fed a manter as taxas de juros estáveis. 

Quanto à Europa, devido à maior exposição às oscilações dos preços da energia e ao aumento da inflação, mesmo com sinais de demanda pressionada, o BCE aumentou as taxas de juros em junho. A medida visa conter a inflação impulsionada pelos custos da energia antes que ela se espalhe ainda mais pela economia da zona do euro. Considerando que a Europa é a principal região processadora de cacau, a situação requer atenção, pois o aumento da taxa de juros pode afetar a atividade industrial, o comércio e a demanda por cacau.

Inflação na zona do euro 

Fonte: : Bloomberg


Demanda por amêndoas de cacau e derivados


Do lado da demanda, o quadro global é heterogêneo e pode refletir tanto mudanças regionais quanto a sensibilidade aos preços. Na Indonésia, que responde por cerca de 37% da moagem da Ásia, as importações líquidas acumuladas (out 25 – abr 26) de amêndoas diminuíram, mas podem ter sido parcialmente compensadas pelas expectativas de um aumento na produção doméstica, o que provavelmente reduzirá a dependência do abastecimento externo. Ao mesmo tempo, o aumento nas exportações de cacau em pó, especialmente para mercados como Índia e China, sugerem um ambiente de demanda mais estável na região.

Na Malásia, que representa cerca de 32% da moagem da Ásia, observou-se uma redução semelhante nas importações líquidas de amêndoas (out 25 – fev 26). No entanto, essa dinâmica foi acompanhada por um desempenho sólido nos fluxos de pasta e pó de cacau, o que pode ter sustentado uma maior atividade de processamento. Isso contribuiu para o aumento geral da moagem observado na Ásia, reforçando o papel crescente da região no mercado global de cacau, mesmo com a demanda permanecendo sensível às variações de preço e às condições externas.

Nos EUA, as importações acumuladas (out 25 – abr 26) de amêndoas permanecem, em linhas gerais, alinhadas com as médias históricas, apesar de algumas quedas mensais, com uma mudança notável em direção à Costa do Marfim como principal origem, enquanto o Equador continua a deter uma participação significativa. Ao mesmo tempo, as importações de produtos de cacau, como manteiga e pasta, permanecem elevadas e chegaram até mesmo a níveis recordes em alguns meses, o que talvez sugira uma demanda mais resiliente por subprodutos, mas também um efeito de substituição que favorece as importações em detrimento do processamento doméstico. Nesse contexto, a Malásia aumentou sua participação nas importações de pasta de cacau dos EUA em comparação com a safra anterior, reforçando o papel crescente da oferta asiática nesse segmento.

Na Europa, o pico nas importações líquidas observado em março, combinado com uma queda na atividade de moagem, pode ter contribuído para um influxo mais forte para os estoques durante o primeiro trimestre de 2026. Apesar desse aumento temporário, as importações líquidas acumuladas para a safra (out 25 – mai 26) permanecem abaixo dos níveis observados no ciclo anterior, o que poderia indicar um ambiente de demanda mais moderado de maneira geral. A principal exceção é a manteiga de cacau, cujas importações aumentaram 11,2%, em grande parte fornecidas pela Costa do Marfim.

UE: fluxos de estoques trimestrais (‘000 tons)

Fonte: Comissão Europeia, ECA, Hedgepoint


Os preços mais baixos dos subprodutos, particularmente da manteiga, podem ter favorecido o aumento das importações tanto na Europa quanto nos EUA, influenciando potencialmente os fluxos comerciais globais ao deslocar parte do processamento para a Ásia, onde as perspectivas de crescimento parecem mais favoráveis. No Brasil, o setor continua enfrentando desafios estruturais relacionados à dependência parcial das importações e às mudanças regulatórias, o que pode pesar sobre sua competitividade no futuro.

Oferta e clima

Do lado da oferta, a Costa do Marfim está enfrentando condições climáticas mais favoráveis em comparação com a safra anterior, especialmente no que diz respeito aos níveis de precipitação acumulada, que estão mais próximos da média histórica. Com base nisso, mantivemos nossa estimativa atual de produção para a safra 25/26 em 1.753 kt, embora haja potencial para uma revisão para cima, dado o aumento nas entregas de cacau aos portos, que estão 11,8% acima do ano passado. Essa melhora também sustenta as expectativas para as exportações, que enfrentaram desafios de comercialização no início da safra, mas agora provavelmente se recuperarão para níveis mais próximos da média.

Em Gana, a precipitação acumulada está acima da média, e estamos acompanhando de perto seu impacto na dinâmica da safra, especialmente no que diz respeito às condições de colheita e ao possível desenvolvimento de doenças. Essa avaliação está sendo realizada em conjunto com as tendências de temperatura, já que ambos os fatores são fundamentais para a saúde da cultura. Apesar dessas incertezas, mantivemos nossa estimativa de produção para o país em torno de 650 kt.

O principal ajuste vem do Equador, onde a precipitação acumulada abaixo da média, combinada com temperaturas significativamente mais altas, nos levou a revisar as estimativas de produção para baixo, de 615 kt para 600 kt. Continuamos atentos à forma como essas condições podem afetar não apenas a safra atual, mas também as expectativas para a safra 26/27, especialmente dada a crescente relevância do país no abastecimento global.

Por fim, a evolução do El Niño representa um fator de risco fundamental para os próximos meses. O fenômeno pode levar a padrões climáticos contrastantes nas regiões produtoras, incluindo condições mais secas em partes da África Ocidental, mas também chuvas excessivas no Equador e em algumas áreas da África Ocidental. Essas mudanças podem afetar a floração, o desenvolvimento das lavouras e a incidência de doenças, embora os impactos tendam a ser desiguais e dependam de interações climáticas regionais, como a monção da África Ocidental e o Harmattan. 

A monção da África Ocidental ocorre normalmente entre maio e outubro, enquanto o Harmattan prevalece de dezembro a fevereiro. Logo, os eventos do El Niño podem alterar esses padrões, atrasar o início da estação chuvosa e prolongar a estação seca, influenciando os sistemas atmosféricos que regulam a monção e o Harmattan. Dada essa complexidade, um monitoramento rigoroso será essencial à medida que o próximo ciclo de cultivo se desenrolar.


Balanço global e mercado


Considerando o cenário climático e a queda na demanda, ajustamos nossa estimativa de excedente de 356 kt para 349 kt para a safra 25/26. Esse resultado deve-se principalmente a um aumento projetado na produção de cerca de 2% e a uma redução estimada de aproximadamente 4% na moagem global. 

Oferta e demanda globais de cacau (‘000 tons)

Fonte: ICCO, Hedgepoint


No entanto, mesmo em um cenário de superávit projetado, o posicionamento dos comerciais sugere maior atenção aos riscos e incertezas associados a esse volume, principalmente para o ciclo 26/27, conforme refletido no aumento das posições compradas e na redução das posições vendidas, o que poderia sustentar movimentos técnicos de alta e favorecer um ambiente de volatilidade, ainda sem direção clara. Como resultado, a dinâmica de preços tem permanecido volátil e, em grande parte, impulsionada por fatores técnicos no curto prazo, apoiada principalmente pelo sentimento em relação ao risco climático. Olhando para o futuro, o mercado continua aguardando dados fundamentalistas mais concretos, particularmente sobre a demanda, com atualizações importantes previstas para meados de julho.

Comerciais: posição comprada dos fundos no cacau (lotes)

Fonte: CFTC

Comerciais: posição vendida dos fundos no cacau (lotes)

Fonte: CFTC

Em resumo

O ambiente macroeconômico permanece incerto, influenciado por tensões geopolíticas que pressionaram os preços da energia e reforçaram a inflação globalmente, com efeitos indiretos sobre o cacau por meio dos custos e da demanda. Embora os recentes acontecimentos sugiram alguma redução do risco, a cautela persiste, particularmente na Europa, onde a maior exposição aos preços da energia e a política monetária mais restritiva podem pesar sobre a atividade industrial e o consumo de cacau, enquanto os Estados Unidos mostram maior resiliência, apoiados por taxas de juros estáveis e resultados sólidos no mercado de trabalho.

No que diz respeito aos fundamentos, a demanda continua distinta entre as regiões, com a Ásia apresentando uma atividade de processamento relativamente mais forte, apoiada pela Indonésia e pela Malásia, enquanto a Europa continua refletindo uma demanda mais fraca, apesar de alguma recuperação temporária nos fluxos. Do lado da oferta, a Costa do Marfim apresenta condições melhores, com potencial de aumento da produção; Gana requer monitoramento devido a chuvas acima da média; e o Equador sofreu revisões para baixo devido a condições climáticas adversas. A confirmação do El Niño acrescenta incerteza às perspectivas e, embora seja esperado um excedente para a safra 25/26, o mercado permanece sensível, com o posicionamento comercial refletindo cautela e os preços sendo impulsionados por fatores técnicos, enquanto os participantes aguardam sinais mais claros de demanda, esperados para meados de julho.


Report Semanal — Cacau

Escrito por Carolina França
carolina.franca@hedgepointglobal.com

Revisado por Lívea Coda
livea.coda@hedgepointglobal.com

www.hedgepointglobal.com

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