O mercado do cacau tem um novo tom?
- Os preços do cacau subiram de forma expressiva na semana, impulsionados por cobertura de posições vendidas e entrada de novos compradores devido a preocupações com a oferta.
- O El Niño segue como principal fator de risco, com potencial de afetar o desenvolvimento da safra 26/27 na África Ocidental ao alterar padrões climáticos relevantes.
- A suspensão das vendas antecipadas pela Costa do Marfim e o volume já comercializado reforçam a cautela do mercado em relação à disponibilidade futura.
- A combinação entre alta de preços e mudanças nas posições em aberto sugere fortalecimento do viés altista no curto prazo, ainda que o mercado esteja em níveis de sobrecompra e cautela.
- A demanda ganha importância relativa, com expectativa de retração na moagem no ciclo 25/26 e maior atenção aos dados do segundo trimestre de 2026 para definição da tendência do mercado.
O mercado do cacau tem um novo tom?
Os futuros do cacau encerraram a última semana a 5.095 USD/t em Nova York e 3.820 GBP/t em Londres, acumulando ganhos semanais de 20% e 16%, respectivamente. Essa valorização foi impulsionada principalmente pela cobertura de posições vendidas e pela entrada de novas posições compradas, sustentadas por notícias relacionadas à oferta.
O clima segue como um dos principais vetores do mercado. As oscilações recentes refletem as incertezas em torno dos possíveis impactos do El Niño, que pode afetar tanto as condições climáticas quanto a produção nas principais origens. Na África Ocidental, principal região produtora, o fenômeno pode alterar padrões regionais importantes, como a Monção da África Ocidental e os ventos Harmattan. Considerando o provável pico do evento e o calendário da safra, os efeitos devem se concentrar entre outubro e dezembro, o que pode impactar os frutos em desenvolvimento no início da safra principal 26/27, afetando seu final, e o florescimento que dará origem à safra intermediária 26/27. Esse cenário tende a gerar pressão sobre os contratos de dezembro de 2026 e março de 2027.
CCSR/IRI: Categoria de força do ENSO (%, junho, 2026)

Fonte: CCSR/IRI
Nesse contexto, em 23 de junho, o Conselho do Café e do Cacau da Costa do Marfim suspendeu as vendas de contratos de exportação da safra 26/27 enquanto avalia os possíveis impactos do El Niño sobre a produção. Segundo o órgão, o país já comercializou cerca de 1,15 milhão de toneladas da safra principal 26/27, volume superior às 850 mil toneladas vendidas em meados de julho do ano anterior para a safra principal 25/26, o que merece atenção por parte do mercado. Além disso, o excesso de chuvas e a nebulosidade em algumas regiões nas últimas semanas aumentam as preocupações quanto ao ritmo de colheita e à incidência de doenças nas áreas produtoras. Situação semelhante vem sendo observada em Gana, onde as chuvas estão acima da média desde janeiro, com intensificação recente, o que também pode prejudicar a safra 26/27 do país.
Precipitação acumulada estimada para os distritos produtores de cacau da Costa do Marfim (mm)

Fonte: CPC Gadas, Hedgepoint
A combinação desses fatores, que pode resultar em um início mais lento da safra 26/27 nas duas principais origens, contribuiu para o suporte aos preços ao longo da semana. Vale notar que ambos os países anteciparam o início da safra para setembro (normalmente a safra se inicia em outubro), o que torna ainda mais sensível qualquer atraso ou problema inicial.
Considerando o contrato de setembro de 2026, as variações nas posições em aberto, combinadas com a alta dos preços, sugerem tanto um movimento de cobertura de posições vendidas quanto a entrada de novos compradores, reforçando um viés mais altista no curto prazo. Apesar desse cenário, o Índice de Força Relativa nos dois mercados permanece em níveis de sobrecompra, o que pode abrir espaço para movimentos de consolidação ou correções nos próximos dias. Nesse sentido, as cotações encerraram a sessão do dia 26 de junho em queda, devolvendo uma pequena parte dos ganhos da semana em Nova York e Londres.
Cacau NY set 26 – RSI

Fonte: LSEG
Cacau Londres set 26 – RSI

Fonte: LSEG
Apesar dos temores em relação à oferta, vale ressaltar que um fator chave para o balanço da safra 26/27 será a demanda. O cenário atual difere do observado na safra 23/24, quando a oferta foi impactada pelo El Niño, entre outros fatores, contribuindo para uma quebra relevante de produção. Naquele período, mesmo diante desse aperto na oferta, a moagem das amêndoas vinha crescendo desde a safra 20/21. No entanto, para o ciclo 25/26, há expectativa de retração na moagem, o que torna os resultados do segundo trimestre de 2026, a serem divulgados em meados de julho, especialmente importantes e potencialmente determinantes para o tom do mercado de cacau no curto e médio prazo.
Em resumo
Os preços do cacau registraram forte valorização na semana, impulsionados por fatores técnicos e fundamentos ligados à oferta, com destaque para incertezas climáticas associadas ao El Niño e preocupações com a próxima safra 26/27 na África Ocidental. A suspensão das vendas antecipadas pela Costa do Marfim e o excesso de chuvas na região reforçaram o viés mais altista no curto prazo. Apesar disso, indicadores técnicos apontam condição de sobrecompra, sugerindo possíveis correções. No médio prazo, além da oferta, a evolução da demanda ganhará protagonismo, especialmente diante da expectativa de retração na moagem, em contraste com o cenário observado durante a safra 23/24.
Report Semanal — Cacau
Escrito por Carolina França
carolina.franca@hedgepointglobal.com
Revisado por Laleska Moda
laleska.moda@hedgepointglobal.com
www.hedgepointglobal.com
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