Mais um trimestre de resultados mistos da demanda por cacau
- A moagem europeia caiu 4,6% no segundo trimestre de 2026, resultado consistente com a menor disponibilidade de amêndoas observada nas importações da região.
- As importações europeias de manteiga e pó de cacau seguem acima dos níveis da safra anterior, reforçando uma hipótese já discutida anteriormente de que os derivados podem estar contribuindo para o resultado de moagem da região.
- A Ásia registrou crescimento de 25,1% na moagem, com destaque para Indonésia e Malásia, cujas exportações de derivados apontam para uma demanda regional e internacional mais aquecida.
- A América do Norte surpreendeu com alta de 7,7% na moagem, apoiada pelo forte crescimento das importações de amêndoas e derivados pelos Estados Unidos, sugerindo uma demanda efetivamente mais resiliente e disseminada na região.
- Apesar dos sinais de recuperação da demanda, o cenário de oferta no curto prazo é mais confortável, com maiores entregas aos portos da Costa do Marfim e estoques certificados acima dos níveis do ano passado.
Mais um trimestre de resultados mistos da demanda por cacau
Após um período marcado por forte volatilidade e expressivas valorizações, os contratos futuros de cacau encerraram a semana de 17 de julho em queda na comparação semanal. Ao contrário dos movimentos recentes, que foram sustentados principalmente por fatores técnicos, como rompimentos de resistência, cobertura de posições vendidas e entrada de novos compradores, a dinâmica do mercado foi influenciada pela divulgação, em 16 de julho, dos dados de moagem das principais regiões processadoras referentes ao segundo trimestre de 2026. Diante disso, esta análise busca avaliar os fatores por trás desses resultados e discutir suas implicações para o equilíbrio do mercado de cacau no curto e médio prazo.
Alinhados às nossas expectativas, os dados divulgados pela Associação Europeia do Cacau (ECA) indicaram uma queda de 4,6% na moagem da região no segundo trimestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior. O resultado, que ficou 9,8% abaixo da média histórica para o período, é consistente com os dados de importações líquidas acumuladas de amêndoas pela União Europeia entre outubro de 2025 e junho de 2026, que permanecem cerca de 2,7% abaixo dos níveis observados no mesmo período do ciclo anterior.
Moagem de cacau: Europa (‘000 tons)

Fonte: Associação Europeia do Cacau
UE: importações líquidas de amêndoas de cacau (‘000 tons)

Fonte: Comissão Europeia, Hedgepoint
Além das amêndoas, as importações de subprodutos de cacau também corroboram os resultados observados. As importações líquidas acumuladas de manteiga e pó estão, respectivamente, 16% e 6,4% acima do registrado no mesmo período da safra anterior. Em uma região cujas importações são majoritariamente compostas por amêndoas (em média 85%), por concentrar a principal capacidade de processamento de cacau do mundo, esse aumento das importações de subprodutos pode ter contribuído para o resultado de moagem observado. Essa é uma hipótese que já vinha sendo discutida em análises anteriores, especialmente após os resultados do primeiro trimestre, quando foi observado um possível efeito do maior fluxo de subprodutos sobre a moagem europeia em um contexto de descolamento entre os desempenhos regionais. Com os dados mais recentes, essa leitura ganha força também para o segundo trimestre. Nesse sentido, destaca-se o aumento da moagem mensal da Costa do Marfim, principal origem dos subprodutos importados pelo mercado europeu.
Dessa forma, mesmo diante dos resultados positivos da moagem na Ásia, que serão discutidos a seguir, os dados da Europa, dado o peso da região, exerceram maior influência sobre o mercado. Em resposta, os contratos futuros de cacau fecharam a sessão de 16 de julho com recuos de 7,5% em Nova York e 9,3% em Londres. A dinâmica das posições em aberto reforça essa leitura, sugerindo que a queda pode ter sido acompanhada pelo encerramento de posições compradas, à medida que os participantes passaram a reavaliar os fundamentos de demanda implícitos nos dados de moagem do segundo trimestre.
Em contraste com a Europa, a moagem asiática apresentou um desempenho significativamente mais forte, registrando crescimento de 25,1% em relação ao mesmo período do ano passado. Como já destacado em análises anteriores, esse resultado está alinhado ao comportamento das exportações de subprodutos dos principais processadores da região. Indonésia e Malásia, que respondem por aproximadamente 37% e 32% da moagem asiática, respectivamente, vêm apresentando indicadores consistentes de maior atividade industrial e comercial no setor de cacau.
Moagem de cacau: Ásia (‘000 tons)

Fonte: Associação de Cacau da Ásia
Na Indonésia, destaca-se o desempenho das exportações de pó de cacau, que, no acumulado entre outubro de 2025 e maio de 2026, ficaram 6% acima do registrado no mesmo período da safra anterior. A composição dos destinos dessas exportações reforça a força da demanda regional, com Índia e China figurando entre os principais compradores do produto e sinalizando uma atividade mais aquecida no mercado asiático de cacau.
Indonésia: exportações de pó de cacau (‘000 tons)

Fonte: BPS Indonesia
Já na Malásia, o principal destaque é o avanço das exportações de pasta de cacau. No acumulado entre outubro de 2025 e março de 2026, os embarques superaram em 120% os volumes observados no mesmo período da safra passada. Entre os principais destinos, chama atenção o crescimento da participação dos Estados Unidos, que elevaram sua fatia nas importações de pasta malaia de 2% para 9% no acumulado entre outubro de 2025 e maio de 2026. Além dos EUA, Rússia, China e Japão permanecem entre os principais mercados de destino, reforçando a crescente relevância da Malásia no abastecimento global de derivados de cacau.
Malásia: exportações de pasta de cacau (‘000 tons)

Fonte: Trade Map, Hedgepoint
Dessa forma, os dados de comércio corroboram os resultados divulgados para a moagem asiática, sugerindo que o crescimento do processamento na região tem sido acompanhado por uma expansão consistente da demanda por subprodutos de cacau em importantes mercados consumidores.
Por fim, a moagem da América do Norte foi a que mais surpreendeu o mercado ao registrar crescimento de 7,7% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, resultado significativamente acima das expectativas. Como os dados foram divulgados após o fechamento da sessão de 16 de julho, eles contribuíram para uma recuperação parcial dos preços na sexta-feira, amenizando parte das perdas observadas após a divulgação dos números europeus. Com isso, os contratos futuros encerraram a semana a 5.533 USD/t em Nova York e 4.096 GBP/t em Londres.
Moagem de cacau: América do Norte (‘000 tons)

Fonte: Associação Nacional de Confeiteiros
Entre os principais países da região, destacam-se os Estados Unidos, cujas importações líquidas acumuladas de amêndoas de cacau entre outubro de 2025 e maio de 2026 ficaram 66,7% acima do registrado no mesmo período da safra anterior. Além disso, as importações de derivados também avançaram no período, com alta de 19,6% para pasta, 5,5% para pó e 26,1% para manteiga de cacau. Diferentemente do observado na Europa, onde o aumento das importações de subprodutos pode ter influenciado os resultados de moagem em um contexto de menor disponibilidade de amêndoas, a estrutura de importações dos Estados Unidos é historicamente mais equilibrada entre amêndoas e derivados. Dessa forma, o crescimento simultâneo das importações de ambos os grupos de produtos sugere um fortalecimento mais disseminado da demanda regional, e não apenas uma substituição entre matérias-primas e produtos processados.
EUA: importações líquidas de amêndoas de cacau (‘000 tons)

Fonte: Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos (USITC)
Somado a isso, o número de participantes da pesquisa permaneceu inalterado em 14 empresas, o que reforça que o avanço da moagem reflete efetivamente uma maior atividade do setor. Assim, os resultados norte-americanos indicam um mercado consumidor mais aquecido.
Dessa forma, a análise consolidada dos resultados das principais regiões processadoras aponta para uma demanda por cacau mais resiliente do que a percebida pelo mercado nos últimos trimestres, com a soma dos volumes processados (ECA + NCA + CAA) registrando crescimento de 6% em relação ao mesmo período do ano anterior. Esse cenário já vinha dando sinais de fortalecimento e, possivelmente, começou a ser incorporado aos preços após a divulgação de resultados no setor que indicaram recuperação dos volumes de vendas de processadoras. Nesse contexto, a divulgação dos resultados de outras empresas nas próximas semanas será fundamental para confirmar se essa recuperação da demanda está ocorrendo de forma mais ampla ao longo da cadeia.
Por outro lado, o cenário de oferta no curto prazo parece mais confortável do que o observado na safra passada. As entregas de cacau aos portos da Costa do Marfim seguem acima dos níveis registrados no mesmo período do ano anterior, enquanto os estoques certificados nas bolsas dos Estados Unidos e da Europa também apresentam recuperação em relação aos patamares de um ano atrás. Embora esses fatores não eliminem as preocupações com o equilíbrio do mercado no médio prazo, eles contribuem para reduzir a percepção de escassez imediata de matéria-prima e podem a limitar movimentos de alta muito acentuados e sustentados nos preços.
Assim, a expectativa é de continuidade da volatilidade, à medida que o mercado busca equilibrar sinais de demanda mais resiliente com uma disponibilidade de oferta mais confortável no curto prazo, e as incertezas relacionadas à safra 26/27 que se aproxima. Nesse ambiente, as cotações podem seguir testando níveis importantes de suporte e resistência, entre 5.200 e 5.600 USD/t em Nova York e entre 3.900 e 4.200 GBP/t em Londres, enquanto os participantes aguardam novas informações sobre o desenvolvimento da próxima safra e a evolução do balanço global de oferta e demanda.
Em resumo
Após semanas de forte valorização impulsionada principalmente por fatores técnicos, o mercado de cacau passou a reagir aos fundamentos com a divulgação dos dados de moagem do segundo trimestre de 2026. Enquanto a Europa registrou queda de 4,6% no processamento, a Ásia e a América do Norte surpreenderam positivamente, com altas de 25,1% e 7,7%, respectivamente, reforçando sinais de uma demanda mais resiliente do que o esperado. Ao mesmo tempo, indicadores de oferta no curto prazo, como as entregas de cacau aos portos da Costa do Marfim e a recuperação dos estoques certificados nos Estados Unidos e na Europa, apontam para uma disponibilidade de produto mais confortável. Dessa forma, embora os dados recentes reforcem uma perspectiva mais positiva para a demanda, o equilíbrio entre esses dois fatores deve manter o mercado sensível a novas informações sobre a próxima safra e limitar a formação de tendências mais definidas no curto prazo.
Report Semanal — Cacau
Escrito por Carolina França
carolina.franca@hedgepointglobal.com
Revisado por Luiz Silverio
luiz.silverio@hedgepointglobal.com
www.hedgepointglobal.com
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