Aug 25 / Carolina França

Outlook Cacau Segundo Semestre de 2026: principais destaques

Outlook Cacau Segundo Semestre de 2026: principais destaques

O mercado de cacau entra no segundo semestre de 2026 com um viés mais altista do que o observado no início do ano. Embora a expectativa de superávit global para a safra 2026/27 permaneça como consenso entre os participantes do mercado, o surgimento de sinais iniciais de recuperação da demanda e a permanência de riscos relevantes para a oferta têm sustentado os preços e mantido a volatilidade elevada. Dessa forma, o mercado continua dividido entre uma perspectiva de superávit para a próxima temporada e um conjunto de incertezas que pode reduzir esse excedente, especialmente diante das dúvidas sobre o comportamento da oferta nos principais países produtores.

No ambiente macroeconômico, as atenções continuam para a escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã, que aumentaram a volatilidade dos mercados ao impactar o setor energético e reforçar preocupações inflacionárias. A elevação dos preços do petróleo trouxe novas incertezas para a trajetória da inflação global, mantendo o foco dos investidores sobre as decisões de política monetária tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. 

A valorização registrada nas cotações do cacau durante os últimos meses foi apoiada por uma combinação de fatores técnicos e fundamentais. Além da influência do ambiente macroeconômico, o mercado reagiu a atualizações relacionadas ao El Niño, movimentos de cobertura de posições vendidas e, principalmente, a indicadores que passaram a sugerir uma possível recuperação da demanda após um longo período de ajustes provocados pelos preços historicamente elevados do cacau.

Nesse sentido, a demanda continua sendo um dos principais pontos de atenção para o mercado. Após um período marcado por retração do consumo, reformulações de portfólio e ajustes na concentração de derivados utilizada pela indústria, os resultados mais recentes apresentaram os primeiros sinais de melhora. Entretanto, a mensagem central permanece cautelosa. Os dados indicam sinais iniciais de recuperação, mas ainda não permitem concluir que exista uma retomada consistente da demanda global.

Os resultados regionais reforçam essa leitura. A Ásia apresentou o desempenho mais forte, impulsionada principalmente pela elevação da moagem e por mudanças nos fluxos comerciais envolvendo Malásia e Indonésia. Na América do Norte, a recuperação dos volumes processados foi acompanhada pelo crescimento das importações de cacau em amêndoas e derivados, sugerindo uma melhora da demanda regional. O Brasil também registrou avanço da moagem e forte crescimento das exportações de manteiga de cacau. Em contraste, a Europa continuou apresentando resultados mais fracos, com importações líquidas de amêndoas abaixo dos níveis observados na safra anterior e sinais de mudanças nos fluxos comerciais de derivados.

Quando analisados de forma agregada, os dados de moagem de Europa, Ásia e América do Norte mostraram crescimento de 6%, reforçando a percepção de melhora em relação aos trimestres anteriores. Ainda assim, permanece a dúvida sobre a sustentabilidade dessa recuperação. O mercado acompanha atentamente como a demanda irá reagir ao atual patamar de preços, próximo de US$ 6.000 por tonelada. Além disso, parte das mudanças implementadas pela indústria durante o período de preços elevados tende a ser gradual e possivelmente não pode ser revertida no curto prazo. Por isso, apesar dos sinais positivos, a demanda continua sendo tratada com cautela.

Principais fluxos da demanda por cacau

Fonte: Hedgepoint


Do lado da oferta, a atenção permanece concentrada na África Ocidental. Na Costa do Marfim, a perspectiva para 2025/26 foi revisada para cima em função do desempenho das chegadas de cacau aos portos e da melhora das condições climáticas. Para 2026/27, no entanto, a expectativa é de redução da produção, para 1.801 kt, refletindo relatos de menor volume de frutos nas árvores, impactos das chuvas excessivas em algumas regiões produtoras e as incertezas associadas ao clima. Em Gana, o cenário inspira ainda mais cautela, com preocupações relacionadas às fortes chuvas registradas desde fevereiro e ao aumento recente das temperaturas, fatores que podem afetar o desenvolvimento das lavouras e a produção da próxima safra, estimada em 595 kt, uma queda de 9%.

Para Nigéria e Camarões, as perspectivas são relativamente mais estáveis, apoiadas por condições climáticas mais favoráveis. No Equador, a expectativa permanece de estabilidade da produção em torno de 600 kt, embora os riscos associados ao calor e às chuvas abaixo da média continuem sendo monitorados.

Outro ponto relevante destacado ao longo da análise foi o aumento dos esforços dos países da África Ocidental para expandir o processamento doméstico de cacau. Esse movimento pode alterar gradualmente os fluxos globais de comércio, com maior participação das exportações de derivados e menor disponibilidade relativa de amêndoas para exportação. As mudanças já observadas nos fluxos comerciais entre países produtores e consumidores sugerem que essa transformação começou a ganhar relevância para a dinâmica do mercado.

Entre os fatores de risco para a oferta, o El Niño continua ocupando posição central nas discussões do mercado. O fortalecimento esperado do fenômeno coincide com etapas importantes do desenvolvimento da safra 2026/27. No entanto, análises destacaram que não existe uma relação histórica clara entre eventos de El Niño e perdas de produção de cacau. Os impactos dependem da interação do fenômeno com padrões climáticos regionais, especialmente a monção da África Ocidental e os ventos Harmattan. Dessa forma, o risco existe, mas ainda é cedo para determinar seus efeitos sobre a produção global e sobre o tamanho do superávit esperado para a próxima temporada.

Probabilidades de intensidade do ENOS (%) – agosto de 2026

Fonte: NOAA, Hedgepoint


Em síntese, o mercado de cacau entra no segundo semestre de 2026 sustentado por três temas principais. O primeiro é a expectativa de um superávit global em 2026/27 estimado em 111 kt, mas cuja magnitude ainda está sujeita a revisões diante dos riscos para a oferta. O segundo é o surgimento de sinais iniciais de recuperação da demanda, cuja continuidade ainda precisará ser confirmada em um ambiente de preços mais elevados. O terceiro é a permanência de riscos relacionados ao clima, ao El Niño, às mudanças nos fluxos comerciais e à implementação do EUDR. Assim, embora o balanço global continue apontando para um excedente, as incertezas em torno da oferta e da demanda seguem sustentando um ambiente de elevada volatilidade para os preços do cacau.

Oferta e demanda globais de cacau (‘000 tons) 

Fonte: ICCO, Hedgepoint

Em resumo

O mercado de cacau entra no segundo semestre de 2026 com um viés mais altista, sustentado por sinais iniciais de recuperação da demanda e riscos ainda presentes para a oferta. Embora o mercado continue projetando um superávit global em 2026/27, a magnitude desse excedente permanece incerta devido às preocupações com a produção na África Ocidental e aos potenciais impactos do El Niño. Ao mesmo tempo, os dados de moagem apontam para uma melhora da demanda, especialmente na Ásia e na América do Norte, mas ainda é cedo para confirmar uma recuperação consistente, sobretudo diante dos preços próximos de US$ 6.000/t. Assim, a combinação de incertezas sobre oferta e demanda deve manter a volatilidade elevada nos próximos meses.

Report Semanal — Cacau

Escrito por Carolina França
carolina.franca@hedgepointglobal.com

Revisado por Luiz Silverio
luiz.silverio@hedgepointglobal.com


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