O cacau recua enquanto o mercado acompanha a ameaça do El Niño
- Os futuros de cacau iniciaram uma correção após um período de consolidação, em um movimento que parece ter sido influenciado principalmente por fatores técnicos.
- As preocupações com a falta de chuvas na África Ocidental diminuíram parcialmente, com precipitações mais favoráveis em Gana e Nigéria e previsão de chuvas acima da média para a Costa do Marfim.
- Apesar da melhora no curto prazo, o mercado continua monitorando os potenciais impactos do El Niño sobre a safra 2026/27, especialmente durante o período de florescimento que se inicia neste segundo semestre.
- Relatos de mercado indicam exportações robustas do Equador em agosto, em linha com nossas estimativas de cerca de 55,4 mil toneladas, reforçando a importância do país para a oferta global e sugerindo intensificação da comercialização.
- Os estoques certificados permanecem elevados nos Estados Unidos e próximos da média histórica na Europa, embora movimentações relacionadas ao período de entregas e aos ajustes de vencimento dos contratos possam gerar oscilações temporárias nesses volumes.
O cacau recua enquanto o mercado acompanha a ameaça do El Niño
Após um período de consolidação, os futuros de cacau fecharam a semana de 18 de setembro a 5.327 USD/t em Nova York e 3.934 GBP/t em Londres, após os preços iniciarem um movimento de correção na sessão de quinta-feira. Sem mudanças significativas nos fundamentos do mercado, a dinâmica recente parece ter sido influenciada principalmente por fatores técnicos. Embora os movimentos no interesse em aberto tenham acompanhado parte da correção, as variações observadas foram relativamente limitadas e não apontam para uma mudança clara no posicionamento dos participantes. Além disso, a migração de posições do contrato de setembro para o de dezembro pode estar influenciando os números de posição aberta, o que recomenda cautela na interpretação dos dados.
Em paralelo, os preços das commodities recuaram de forma generalizada em 17 de setembro após o Federal Reserve adotar um tom mais duro do que o esperado pelo mercado. A perspectiva de juros mais altos fortaleceu o dólar e reduziu o apetite por risco, favorecendo movimentos de realização de lucros em diversos mercados. Nesse contexto, a recente queda dos preços do cacau pode refletir uma combinação de ajustes técnicos, reposicionamento dos agentes diante do vencimento dos contratos e o ambiente macroeconômico.
Dentre os fatores que podem influenciar no balanço global das amêndoas, o clima continua sendo um dos principais pontos de monitoramento, especialmente na África Ocidental, principal região produtora, e os potenciais impactos do fenômeno El Niño sobre a produção. A preocupação do mercado com as chuvas abaixo da média na África Ocidental diminuiu parcialmente na última semana. Gana e Nigéria já registraram precipitações mais favoráveis, enquanto a Costa do Marfim, apesar de ainda apresentar acumulados inferiores à média, deve receber chuvas acima do normal nos próximos dias.
Os modelos climáticos apontam para precipitações acima da média nas principais regiões produtoras ao longo dos próximos 14 dias, cenário que tende a beneficiar a cultura. Ainda assim, os volumes previstos para algumas localidades são considerados elevados e podem dificultar o processo de polinização, além de comprometer parte do florescimento das árvores.
EC anomalia de precipitação – próximos 14 dias (% do normal)

Fonte: World Ag Weather
Apesar da melhora recente nas perspectivas de precipitação para a África Ocidental, as atenções do mercado continuam voltadas para os potenciais efeitos do El Niño sobre a próxima temporada. Como discutido em análises anteriores, a avaliação das safras passadas sob influência do fenômeno não revela uma relação direta e consistente entre o volume ou a distribuição das chuvas e os efeitos do El Niño. O padrão mais evidente diz respeito às temperaturas durante o principal período de florescimento, que normalmente atinge seu pico entre abril e junho. No caso do El Niño com impacto previsto para 2026/27, o foco do mercado está no florescimento que dará origem à safra intermediária 2026/27, cujo desenvolvimento se inicia em setembro. Nesse contexto, um bom volume de chuvas nas próximas semanas é importante tanto para sustentar o florescimento quanto para favorecer o desenvolvimento dos frutos que serão colhidos na parte final da safra principal.
Parte da correção recente também pode ter encontrado suporte em relatos de mercado apontando para um forte ritmo de exportações de cacau pelo Equador em agosto. O movimento reforça a relevância do país na oferta global de amêndoas e está em linha com nossas estimativas, que indicam embarques de aproximadamente 55,4 mil toneladas no último mês. O desempenho também está alinhado com as indicações de uma intensificação das atividades de colheita e comercialização, à medida que produtores buscam reduzir sua exposição às incertezas associadas aos potenciais impactos do El Niño nos próximos meses.
Além do monitoramento das condições climáticas e do ritmo de exportações dos principais produtores, os estoques certificados seguem como um importante indicador para o mercado em relação a oferta de curto prazo. Nos Estados Unidos, os volumes permanecem em patamares elevados, enquanto na Europa os estoques retornaram para níveis próximos da média histórica após a recuperação observada nos últimos meses. Vale ressaltar que, com a proximidade do período de entregas físicas, os ajustes relacionados ao vencimento dos contratos podem provocar oscilações nos volumes certificados, como a queda de 21,5% observada hoje nos estoques europeus. De forma geral, o mercado de cacau continua altamente sensível a mudanças nas expectativas de oferta e demanda. Diante das incertezas relacionadas ao clima na África Ocidental, à evolução do El Niño, ao comportamento das exportações e à dinâmica dos estoques, é provável que a volatilidade permaneça elevada nas próximas semanas, com os preços respondendo rapidamente a novas informações sobre qualquer um desses fatores.
Estoques certificados ICE EUA (‘000 bags)

Fonte: ICE
Estoques certificados ICE Europa (‘000 tons)

Fonte: ICE
Em resumo
Após um período de consolidação, os preços do cacau iniciaram um movimento de correção. Apesar da melhora recente das perspectivas climáticas na África Ocidental, as atenções do mercado seguem voltadas para os potenciais impactos do El Niño sobre a próxima safra. Ao mesmo tempo, relatos de exportações robustas do Equador reforçam a percepção de boa disponibilidade de oferta no curto prazo, enquanto os estoques certificados permanecem relativamente confortáveis. Ainda assim, a combinação de incertezas climáticas, fluxos de exportação, dinâmica dos estoques e ajustes de mercado sugere que a volatilidade deve continuar elevada nas próximas semanas.
Report Semanal — Cacau
Escrito por Carolina França
carolina.franca@hedgepointglobal.com
Revisado por Luiz Silverio
luiz.silverio@hedgepointglobal.com
www.hedgepointglobal.com
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