Fatores climáticos e técnicos geram volatilidade nos preços
- Os preços futuros do café oscilaram fortemente nesta semana, refletindo tanto fatores técnicos quanto preocupações crescentes com os impactos climáticos no Brasil e no Sudeste Asiático.
- No Brasil, as chuvas recentes atrasaram a colheita do café e afetaram os grãos que estavam sendo secos, o que pode comprometer a qualidade desses lotes. No final de semana, também é esperada uma nova frente fria no Brasil, o que poderia sustentar os preços no curto prazo e trazer volatilidade
- As preocupações com o possível impacto do El Niño no Sudeste Asiático também aumentaram nas últimas semanas, especialmente porque o Vietnã ainda está na fase de desenvolvimento da safra 26/27. As chuvas continuam abaixo dos níveis médios.
- As chances de um evento de El Niño muito forte entre outubro desse ano e janeiro de 2027 aumentaram para mais de 60%, com possíveis efeitos negativos sobre a produção de Robusta. A produção de Arábica lavado na América Central também pode ser afetada.
Fatores climáticos e técnicos geram volatilidade nos preços
Após a queda acentuada no início de junho, os preços do café se recuperaram nos últimos dias, com os futuros do Arábica para julho e setembro sendo negociados novamente acima de 270 c/lb. O contrato de julho também atingiu o nível de 280 c/lb, fechando nesta quinta-feira (18) a 275,1 c/lb, 7,0% acima do fechamento da última sexta-feira – hoje a Bolsa de Nova York não operou devido ao feriado de Juneteenth. O contrato do Robusta para julho fechou hoje a 3.640 USD/mt, 1,3% acima do dia 12.
Os principais fatores por trás desse movimento de preços foram as compras técnicas — após os contratos terem entrado em território de sobrevenda — e as preocupações climáticas no Brasil e no Sudeste Asiático. Do ponto de vista técnico, parte do movimento também pode refletir a recente mudança no posicionamento dos fundos especulativos: à medida que os fundos passaram a assumir posições líquidas vendidas na última semana, algumas dessas posições podem ter sido cobertas em meio a relatos recentes de atrasos na colheita no Brasil. Vale ressaltar, no entanto, que tanto o Arábica quanto o Robusta entraram agora em território de sobrecompra, um cenário que poderia desencadear novas quedas, especialmente porque a perspectiva geral de médio prazo permanece baixista devido à safra recorde do Brasil.

Fonte: LSEG

Fonte: CFTC
No curto prazo, no entanto, as chuvas voltaram a grande parte das regiões produtoras de Arábica no país, atrasando ainda mais o trabalho no campo e podendo afetar a qualidade dos grãos recentemente em processo de secagem. Já era esperado um aumento nas chuvas durante o outono e o inverno devido ao fenômeno El Niño — agora oficialmente ativo —, com impactos no ritmo da colheita. Vale ressaltar, porém, que o fenômeno também tende a reduzir a probabilidade de geadas durante o inverno brasileiro.
Até esta sexta-feira, 19 de junho, o índice de colheita no Brasil estava em 39%, com 29% do total dos grãos de Arábica já colhidos, enquanto o andamento da colheita do Conilon chegou a 59% (veja o relatório aqui). Para este fim de semana, prevê-se que uma nova frente fria atinja o Sudeste, podendo trazer um aumento da umidade e uma queda nas temperaturas nas regiões produtoras de café. As previsões indicam uma queda acentuada nas temperaturas nas regiões do Sul de Minas, do Cerrado e de São Paulo, especialmente no próximo fim de semana. Embora não haja previsão de geada nas áreas cafeeiras no momento, esse cenário tende a sustentar os preços no curto prazo.
O El Niño também gera preocupações quanto a possíveis impactos negativos em outras origens, como os países da América Central, Vietnã e Indonésia, aumentando a volatilidade do mercado. Vale lembrar que, no caso do Robusta, o último evento do El Niño (23/24) levou a uma queda na produção no Sudeste Asiático (veja o relatório do El Niño). Com o fenômeno agora ativo e uma probabilidade superior a 60% de um episódio muito forte entre outubro e janeiro, os mercados podem começar a precificar esse risco.
No Vietnã, as chuvas permanecem abaixo dos níveis médios, gerando preocupações quanto ao desenvolvimento da safra 26/27. Se as chuvas continuarem escassas, o enchimento dos grãos poderá ser afetado, levando a rendimentos mais baixos. Por enquanto, mantivemos nossa estimativa inalterada em 30,4 milhões de sacas, mas, caso as condições climáticas continuem desfavoráveis, poderemos revisar nossos números para baixo. Na Indonésia, as chuvas finalmente diminuíram em algumas regiões do país, permitindo o início da colheita. No entanto, espera-se que o pico dos trabalhos no campo ocorra apenas no final de julho, limitando a disponibilidade de oferta no curto prazo.

Fonte: Gadas, CPC

Fonte: Gadas, CPC
O El Niño também pode ter impactos negativos na safra 27/28 para ambos os países. Com a previsão de um evento mais intenso no segundo semestre do ano, temperaturas mais altas e clima mais seco podem afetar o período de desenvolvimento da safra indonésia. Uma estação seca prolongada no Vietnã — especialmente se o El Niño persistir até o início de 2027 — pode reduzir a disponibilidade de água para irrigação e atrasar as chuvas, afetando potencialmente o desenvolvimento inicial da safra 27/28.
Os possíveis impactos desse padrão climático tendem a elevar os riscos (e a volatilidade dos preços) em uma perspectiva de longo prazo, particularmente se o Brasil também for afetado. No entanto, em um cenário em que os impactos se concentrem nas áreas produtoras de Robusta e na América Central, isso poderia provocar mudanças nos níveis de arbitragem e nos diferenciais.
Em resumo
Os preços do café se recuperaram nos últimos dias, após a queda acentuada no início de junho, com os contratos futuros de Arábica para julho e setembro voltando a ser negociados acima de 270 c/lb e o contrato de julho atingindo brevemente 280 c/lb. A recuperação foi impulsionada por compras técnicas — em resposta a condições de sobrevenda — e por preocupações climáticas no Brasil e no Sudeste Asiático, além da cobertura de posições vendidas por fundos especulativos em meio a relatos de atrasos na colheita no Brasil. No entanto, tanto o Arábica quanto o Robusta entraram agora em território de sobrecompra, o que poderia desencadear novas quedas, especialmente considerando que a perspectiva de médio prazo permanece pessimista devido à safra recorde do Brasil.
No que diz respeito aos fundamentos, as chuvas voltaram às regiões de Arábica do Brasil, atrasando os trabalhos no campo e gerando preocupações com a qualidade, enquanto uma nova frente fria deve trazer quedas acentuadas de temperatura no sul de Minas, no Cerrado e em São Paulo — o que sustenta os preços no curto prazo, embora não haja previsão de geada no momento. O El Niño, agora ativo, com mais de 60% de probabilidade de um evento muito forte entre outubro e janeiro, aumenta o risco para outras origens: no Vietnã, chuvas abaixo da média ameaçam a safra 26/27 (estimativa mantida em 30,4 milhões de sacas por enquanto), enquanto na Indonésia a colheita só deve atingir seu pico no final de julho. Olhando mais adiante, o El Niño também poderia pesar sobre a safra 27/28 em ambos os países, elevando a volatilidade dos preços no longo prazo — especialmente se o Brasil também for afetado, enquanto impactos concentrados nas áreas de Robusta e na América Central poderiam, por outro lado, alterar os níveis de arbitragem e os diferenciais.
Relatório Semanal — Café
Escrito por Laleska Moda
laleska.moda@hedgepointglobal.com
Revisado por Carolina França
carolina.franca@hedgepointglobal.com
www.hedgepointglobal.com
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