Chuvas no Brasil: um novo desafio para o mercado de café
- Com o El Niño agora ativo e ganhando força, o mercado de café enfrenta um novo desafio. Além dos possíveis impactos em regiões como a América Central e o Sudeste Asiático, o fenômeno também deve trazer um aumento nas chuvas no Brasil durante o inverno.
- As chuvas já aumentaram no Brasil em junho, não apenas atrasando a colheita, mas também afetando a qualidade dos grãos, o que pode provocar oscilações nos diferenciais nas próximas semanas.
- Os temores de uma oferta limitada do Brasil – especialmente em um momento em que outras origens estão em baixa temporada – têm sustentado os preços e ampliado os spreads de setembro a dezembro.
- Enquanto a oferta no curto prazo continua sendo uma preocupação, os estoques nos destinos permanecem baixos. Os estoques certificados pela ICE também continuam diminuindo, particularmente para o Arábica.
Chuvas no Brasil: um novo desafio para o mercado de café
Nas últimas semanas, os preços do café ganharam impulso devido às chuvas acima da média no Brasil, o que prejudicou o ritmo da colheita, apesar da safra recorde do país. As condições excepcionalmente chuvosas durante o outono e o inverno estão relacionadas ao El Niño, que agora está oficialmente ativo. O fenômeno também está associado a condições mais secas no Sudeste Asiático e na América Central, aumentando os riscos climáticos neste ano, especialmente porque se espera que ele se intensifique ainda mais e permaneça forte até o início de 2027. No Brasil, é provável que os níveis mais elevados de precipitação persistam ao longo do inverno, enquanto a primavera e o verão tendem a ser mais quentes, o que pode exercer pressão sobre o desenvolvimento da safra de 2027/28.
No curto prazo, no entanto, as chuvas já causaram interrupções temporárias nos trabalhos de campo em Minas Gerais e São Paulo em alguns dias, gerando preocupações com novos atrasos na colheita. Até esta semana, cerca de 44% da produção total havia sido colhida, abaixo da média de cinco anos, que é de 47%. Para o Arábica, o número é de 33% contra uma média de 37%, enquanto 66% do Conilon/Robusta já foram colhidos, um pouco acima da média de 64%.

Fonte: Safras & Mercado

Fonte: Safras & Mercado
As crescentes preocupações com atrasos na chegada do café brasileiro ao mercado, somadas à disponibilidade, abaixo do esperado, de grãos de maior qualidade no curto prazo, têm sustentado os preços tanto no mercado local quanto no internacional.
Essas preocupações de curto prazo também estão se refletindo na estrutura dos spreads, aumentaram significativamente nos últimos dias, especialmente o spread setembro–dezembro do Arábica. O spread setembro–novembro do Robusta também apresentou leve alta, mas permanece abaixo dos níveis observados em temporadas anteriores, já que se espera que os principais impactos do El Niño se manifestem mais no médio e longo prazo.

Fonte: CCSR/IRI

Fonte: LSEG, Hedgepoint
À medida que a safra brasileira se aproxima de seu pico — apesar dos atrasos —, o volume de grãos impactados pelas chuvas está se tornando significativo, com a qualidade cada vez mais em foco. As condições climáticas adversas também estão atrasando o processo de secagem, especialmente nas regiões produtoras de arábica, afetando os grãos que já estão nos pátios de secagem e, em alguns casos, fazendo com que os frutos caiam no chão, o que pode reduzir a qualidade na xícara.
Isso pode reduzir a disponibilidade geral de grãos de Arábica de alta qualidade na safra 2026/27, adicionando complexidade em um momento em que outras origens produtoras estão em entressafra. Caso as chuvas persistam durante o inverno e a qualidade seja significativamente afetada, a queda esperada nos diferenciais para o Arábica de alta qualidade pode ser limitada, mesmo diante de uma safra excepcional. Por enquanto, os diferenciais brasileiros seguem em queda com o avanço da colheita, mas em ritmo mais lento do que o esperado, diante das preocupações atuais (veja nosso relatório).
Do lado positivo, um inverno mais chuvoso pode melhorar a umidade do solo e favorecer o desenvolvimento da próxima safra, embora as condições climáticas ao longo do segundo semestre sejam cruciais para garantir uma temporada forte.
Também é importante observar que esses desafios climáticos estão surgindo em um momento em que os estoques nos destinos permanecem baixos, contribuindo para a volatilidade do mercado. Os estoques certificados pela ICE continuam apresentando tendência de queda, com os estoques de arábica em seus níveis mais baixos desde o início de 2024 (veja o relatório).
Nesse contexto, embora a safra abundante do Brasil ainda aponte para uma perspectiva de médio prazo mais pessimista, as condições climáticas de curto prazo serão fundamentais para a disponibilidade do arábica e provavelmente continuarão sendo um dos principais fatores de volatilidade.

Fonte: Bloomberg, Hedgepoint

Fonte: Bloomberg, Hedgepoint
Em resumo
Nas últimas semanas, os preços do café receberam apoio das chuvas acima da média no Brasil, associadas ao fortalecimento do El Niño, o que prejudicou o ritmo da colheita, apesar de uma safra recorde. O andamento da colheita permanece abaixo da média — especialmente para o Arábica —, gerando preocupações quanto a atrasos na chegada da oferta ao mercado e à redução da disponibilidade de grãos de maior qualidade, fatores que têm sustentado os preços e ampliado os spreads dos contratos mais próximos.
O excesso de chuvas também está afetando a secagem e a qualidade dos grãos, o que pode limitar a redução dos diferenciais, apesar da safra abundante, enquanto os baixos estoques nos destinos e a queda nos estoques da ICE contribuem ainda mais para a escassez e a volatilidade do mercado. Embora as condições mais úmidas possam beneficiar a umidade do solo e o desenvolvimento da próxima safra, a dinâmica dos preços no curto prazo continuará altamente sensível aos impactos climáticos e à qualidade da safra no Brasil.
Relatório Semanal — Café
Escrito por Laleska Moda
laleska.moda@hedgepointglobal.com
Revisado por Thais Italiani
thais.italiani@hedgepointglobal.com
www.hedgepointglobal.com
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