A montanha-russa do café: há alguma mudança nos fundamentos?
- Os preços do café arábica registraram uma alta impressionante na segunda-feira, dia 06, atingindo o quarto maior ganho diário já registrado na sessão anterior, aproximando-se dos 360 c/lb. Os preços do robusta também seguiram a tendência, com a volatilidade de ambas as variedades aumentando substancialmente.
- Os preços reverteram, em seguida, parte dos ganhos, mas continuaram altamente voláteis ao longo dos últimos dias, com fortes variações intradiárias.
- No entanto, houve poucas mudanças nos fundamentos. Embora o atraso na colheita no Brasil e o El Niño apoiem os preços, o impulso foi amplificado pelas posições dos fundos e pelas coberturas de posições vendidas.
- Como os destinos continuam com estoques limitados e as vendas dos produtores no Brasil permanecem menores do que nos anos anteriores, o mercado provavelmente continuará sensível a qualquer notícia relacionada à oferta.
A montanha-russa do café: há alguma mudança nos fundamentos?
O mercado de café passou por uma montanha-russa histórica nos últimos dias, com os preços — especialmente os do Arábica — apresentando extrema volatilidade. Somente na segunda-feira (6 de julho), o contrato de Arábica para setembro foi negociado dentro de uma faixa de mais de 50 c/lb, chegando perto de 360 c/lb. Ele acabou fechando em 349,95 c/lb, com alta de 16,19% no dia, marcando seu quarto maior ganho diário já registrado. Os preços do Robusta subiram de forma mais moderada, com o contrato para setembro registrando alta de 8,83% e fechando em US$ 4.044/tonelada.
LN-Robusta (USD/mt), NY-Arábica e Arbitragem (c/lb)

Fonte: LSEG
Os preços então despencaram nos dois dias seguintes, antes de registrarem outra reversão significativa na quinta-feira, 9, com a volatilidade permanecendo elevada e apresentando oscilações intradiárias significativas. Embora os fundamentos do mercado ofereçam algum suporte de alta, a recente evolução dos preços parece ter sido motivada principalmente por fatores técnicos e pelo posicionamento dos fundos. Dados da CFTC de 7 de julho mostraram um aumento nas posições líquidas compradas dos fundos especulativos nos últimos dias.
À medida que os futuros do café arábica romperam níveis-chave de resistência e médias móveis de longo prazo no início de julho, surgiu um novo interesse de compra. Ao mesmo tempo, a Intercontinental Exchange (ICE) aumentou as margens iniciais para os futuros de café. Isso reduziu a liquidez do mercado e levou muitos fundos de commodities a ajustar ou encerrar posições, contribuindo para movimentos exagerados de preços em uma única direção. À medida que os preços subiam e os requerimentos de margem aumentavam, as chamadas de margem desencadearam atividades adicionais de cobertura de posições vendidas, empurrando os preços ainda mais para cima em um ambiente em que a negociação algorítmica amplificava as reações do mercado.
Os fundamentos, por outro lado, sofreram poucas alterações nas últimas semanas, mas também têm contribuído para a volatilidade do mercado, especialmente com o aumento do risco no curto a médio prazo. Embora o El Niño tenha aumentado o risco para muitos países produtores na safra 26/27 e, potencialmente, para a safra 27/28, os estoques na maioria dos destinos ainda não se recuperaram, tornando o mercado mais sensível a quaisquer possíveis mudanças na oferta.
Enquanto isso, os estoques certificados pela ICE continuam diminuindo e, embora representem apenas uma pequena parte dos estoques globais de café, eles se tornaram um indicador importante nos últimos meses, principalmente porque os estoques se concentraram mais na origem, especialmente no Brasil. Essa preocupação com a oferta no curto prazo também se refletiu no spread do Arábica para o período de setembro a dezembro.
Somente em julho, os estoques certificados de Arábica diminuíram em mais de 32.000 sacas, com a redução de mais de 110.000 sacas. Enquanto alguns participantes do mercado têm contado com os estoques certificados para cumprir suas obrigações de entrega, a oferta em outras origens é restrita devido à entressafra, enquanto os diferenciais elevados continuaram a desestimular a certificação. O Brasil, em particular, reduziu significativamente sua participação no processo de certificação desde o ano passado, em decorrência de diferenciais historicamente altos. Embora os diferenciais tenham diminuído mais recentemente com o avanço da colheita, a atividade de certificação ainda não ganhou impulso significativo.

Fonte: LSEG

Fonte: LSEG
Em relação à colheita brasileira, as condições climáticas tornaram-se mais favoráveis para o trabalho no campo, apesar das chuvas registradas em algumas regiões nos últimos dias. No entanto, devido às chuvas persistentes registradas em junho, a colheita de Arábica 2026/27 continua atrasada, com aproximadamente 48% da safra colhida até a semana passada, em comparação com a média de cinco anos de 53%. A colheita de Robusta também está ligeiramente atrasada, atingindo 78% contra a média histórica de 81% (veja o relatório aqui).
A comercialização no Brasil também continua abaixo das expectativas para esta fase da safra. Embora tenham sido registradas vendas adicionais na semana passada, à medida que os preços se fortaleceram e a colheita se aproximava de seu pico, esperava-se que volumes maiores chegassem ao mercado. De acordo com os dados mais recentes, a comercialização para a safra 2026/27 ficou em 26% da produção esperada em junho, bem abaixo da média de cinco anos, de 36%. As vendas de arábica atingiram 26% da safra, enquanto as de robusta ficaram em 28%, ambas abaixo de suas respectivas médias históricas, de 36% e 37%.
Assim, de modo geral, embora não tenha havido nenhuma mudança significativa nos fundamentos do mercado, os atuais riscos continuam apontando para possíveis restrições de oferta no curto a médio prazo. Com a liquidez do mercado reduzida, qualquer evolução relacionada à oferta poderia desencadear maior volatilidade nos preços, potencialmente amplificada pela atividade dos fundos. Nos próximos dias, os participantes do mercado acompanharão de perto os dados de exportação do Brasil, com divulgação prevista para esta semana, bem como as estimativas do USDA esperadas para a próxima semana.

Fonte: Safras & Mercado

Fonte: Safras & Mercado
Em resumo
Os preços do café sofreram extrema volatilidade na última semana, impulsionados principalmente por fatores técnicos e pela atividade dos fundos, e não por grandes mudanças nos fundamentos. À medida que os futuros do Arábica romperam níveis-chave de resistência, os aumentos nas margens, a cobertura de posições vendidas, a negociação algorítmica e a baixa liquidez amplificaram as oscilações de preço. Ao mesmo tempo, as condições subjacentes do mercado continuam favoráveis, com crescentes preocupações com a oferta no médio prazo relacionadas aos riscos do El Niño, à queda nos estoques certificados pela ICE, à desaceleração das atividades de certificação e à redução dos estoques na origem.
No Brasil, a safra de 2026/27 continua atrasada devido às chuvas de junho, enquanto as vendas dos produtores permanecem bem abaixo das médias históricas, limitando a disponibilidade de café no mercado. Como resultado, embora os fundamentos não tenham mudado significativamente, o mercado continua altamente sensível a desenvolvimentos relacionados à oferta, com os dados de exportação do Brasil e as próximas estimativas do USDA (Departamento de Agricultura dos EUA) sendo considerados os principais fatores determinantes no curto prazo.
Relatório Semanal — Café
Escrito por Laleska Moda
laleska.moda@hedgepointglobal.com
Revisado por Carolina França
carolina.franca@hedgepointglobal.com
www.hedgepointglobal.com
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