Jul 24 / Laleska Moda

Live com os Especialistas – Destaques do mercado de café

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  • Nesta análise, você encontra os principais pontos discutidos durante o nosso evento “Live com os Especialistas – Mercado do Café”, realizado em 23 de julho. Você também pode acessar este link para assistir à gravação completa.

Panorama macroeconômico

Em 18 de junho de 2026, os EUA e o Irã assinaram o Memorando de Entendimento, concordando em suspender as hostilidades durante 60 dias e negociar o fim do conflito, com os preços da energia registrado queda. No entanto, em 7 de julho, surgiram novos ataques, com o conflito intensificando-se novamente, afetando o setor energético e contribuindo para as expectativas de um cenário inflacionário persistente.  

Desde o início do conflito, as pressões inflacionistas têm aumentado em muitos países, elevando a probabilidade de um período prolongado de política monetária restritiva. 

Na Europa, por exemplo, a situação atual levou o BCE a aumentar as suas três taxas de juro de referência em 25 pontos base. Nos EUA, as taxas de juro inalteradas (entre 3,5% e 3,75%), mas sinalizaram que continua possível um aumento ainda em 2026, uma vez que a inflação ainda está acima da meta de 2%, alterando o tom para uma postura mais restritiva.

Um ambiente de taxas de juros mais elevadas nos EUA atrai normalmente o capital para ativos denominados em dólares e enfraquece as moedas dos mercados emergentes. No caso do Brasil, o diferencial de juros entre os dois países ainda pode manter o carry trade atrativo.

IPC dos principais países (% a/a)

Fonte: LSEG

É provável que os preços continuem voláteis

Os preços do café, especialmente do Arábica, têm apresentado forte volatilidade em julho. Embora os fundamentos também tenham contribuído para esse cenário, fatores macroeconômicos, indicadores técnicos e o posicionamento dos fundos foram os principais catalisadores do movimento, à medida que os futuros do Arábica romperam níveis importantes de resistência e médias móveis de longo prazo. A arbitragem também se ampliou.

Ao mesmo tempo, o aumento das margens iniciais também reduziu a liquidez do mercado e levou muitos fundos a ajustar ou encerrar posições, o que contribuiu para extrapolar a dinâmica do mercado. As chamadas de margem também aumentaram e desencadearam uma atividade adicional de cobertura de posições vendidas.
 
No entanto, após algumas correções, o mercado perdeu parte da força anterior, ainda que isto não exclua a possibilidade de uma nova fase de volatilidade, especialmente tendo em conta os riscos associados ao El Niño.  

Os spreads também seguem apontando para preocupações no curto a médio prazo, com o spread do Arábica para setembro-dezembro alargando-se significativamente no mês. Embora a recente volatilidade dos preços tenha sido também impulsionada por fatores técnicos, o apoio fundamental mantém-se. Os atrasos na colheita no Brasil, a oferta mais restrita de outras origens, os efeitos de um El Niño forte e a diminuição dos estoques certificados pela ICE deverão manter os spreads de curto prazo elevados.
LN-Robusta (USD/mt), NY-Arábica e arbitragem (c/lb)
Arábica: spread setembro-dezembro (c/lb)

Fonte: LSEG

Fonte: LSEG

A colheita de 26/27 no Brasil teve um atraso

A precipitação constante em junho impediu os trabalhadores de entrarem nos campos de café, atrasando a colheita em muitos dias e afetando também a qualidade de bebida dos grãos colhidos e que estavam secando nesse período. Mesmo após ganhar força em julho, a colheita continua abaixo dos níveis dos anos anteriores. 

Por outro lado, mesmo com o atraso nos trabalhos, a chuva não impactou a produção total, esperando uma colheita recorde no país. Outras entidades do mercado também destacam a safra excepcional no Brasil de 26/27 e como esta conduzirá a um superávit global de café.

Quanto ao mercado, enquanto negócios foram registrados com o avanço da colheita e a alta após o dia 10, o ritmo de vendas vem em um ritmo mais lento do que na temporada anterior. Isso também vem sendo refletido nas exportações de café do país, com as exportações de Arábica seguindo abaixo da média dos últimos anos. As exportações de Robusta, por outro lado, têm mostrado alguma reação nos últimos meses, especialmente devido à colheita mais avançada. 

Nesse âmbito, também é importante ressaltar que, em meados de julho, o café instantâneo brasileiro foi incluído na lista de isenções da nova tarifa de 25% imposta pelos EUA. Dado que o país é um dos maiores importadores do Brasil, a medida pode favorecer as exportações. 

Precipitação acumulada nas regiões cafeeiras do Brasil: junho (mm)

Fonte: LSEG

O El Niño representa um risco para outras origens 

Dentre os maiores riscos para 26/27, a crescente intensidade do El Niño pode impactar os maiores produtores de café. Agora há mais de 70% de probabilidade do fenômeno se tornar muito forte entre agosto e novembro de 2026. Em algumas origens, inclusive, o clima já tem levantado o alerta para a produção neste ano.

No Vietnã, por exemplo, apesar do aumento da área de produção, o desenvolvimento da safra 26/27 tem sido marcado por precipitação abaixo da média, o que já nos levou a reduzir marginalmente a produção no país. A produção poderá ser ainda mais afetada caso as condições meteorológicas não se tornem mais favoráveis. Já na Indonésia, a preocupação maior é com o clima durante o segundo semestre, quando os cafezais do país entrarão no período de desenvolvimento da safra 27/28.

Para o Arábica, a maioria dos países da América Central está registrando padrões de precipitação irregulares devido ao fenômeno El Niño, sendo essencial acompanhar de perto a situação nos próximos meses. Já na Colômbia, a precipitação tem-se mantido próxima dos níveis médios nos últimos meses, contribuindo para o desenvolvimento da safra 26/27, embora o fenômeno El Niño ainda possa afetar a oferta, especialmente na colheita de Mitaca.
Probabilidades de intensidade do ENOS (%) - julho de 2026
Possíveis Impactos do El Niño

Fonte: NOAA, Hedgepoint

Fonte: Hedgepoint

Balanço global

Embora a colheita recorde do Brasil garanta um excedente nesta temporada, um El Niño extremamente forte poderá afetar a produção em outras origens (atualmente em fase de desenvolvimento). Já revisamos em baixa a produção de alguns países com base no padrão irregular de precipitação. Com isso, reduzimos nossa estimativa de superávit de 26/27 de 9,9 M scs para 8,2 M scs. 

Apesar da redução, o excedente ainda pode permitir uma recuperação de estoques, ainda que a estrutura atual do mercado, os custos e a tendência das importações nos países de destino possam sugerir que os países de origem irão reter parte da produção.

É válido lembrar que, dado que muitos países só entraram na colheita entre outubro e novembro, novas revisões podem ser feitas, com os efeitos do El Niño podendo potencialmente alterar o superávit. Este fenômeno também será um fator determinante para a safra de 27/28 no Brasil e na Indonésia, consequentemente afetando os preços do café até o fim do ano. 


Oferta e demanda global de café (M scs)

Fonte: Hedgepoint

Em resumo

O mercado do café segue altamente volátil, com as atenções voltadas para a colheita da safra 26/27 no Brasil e os efeitos do El Niño em outras origens nos próximos meses. A volatilidade de julho também foi atribuída a fatores macroeconômicos – com a inflação global persistente e diversos países com políticas mais restritivas – movimentos técnicos e mudança nas posições dos fundos especulativos e de hedge, após os contratos ultrapassarem importantes níveis de resistência.  

No Brasil, a colheita ganhou ritmo no mês, mas segue abaixo dos anos anteriores, com as vendas também a níveis menores que nas últimas safras. Apesar do atraso, a safra recorde no país deve permitir o avanço das exportações nos próximos meses, o que pode pressionar as cotações.

Por outro lado, as incertezas relacionadas ao El Niño em outras origens e os estoques ainda reduzidos nos destinos podem reduzir parte do movimento de baixa esperado pela colheita no Brasil. Também será importante verificar os efeitos do evento no período de florada de 27/28 no Brasil, essencial para a formação de preços globais da commodity.     

Relatório Semanal — Café

Escrito por Laleska Moda

laleska.moda@hedgepointglobal.com

Revisado por Luiz Silverio
Luiz.silverio@hedgepointglobal.com

www.hedgepointglobal.com

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