Outlook 2º Semestre: Mercado do Café
- A safra 26/27 do Brasil confirma um volume recorde de produção, tanto em Arábica quanto em Conilon, reforçando as projeções de superávit global no balanço de oferta e demanda do café Ainda assim, o mercado segue operando com volatilidade elevada e preços futuros ainda altos considerando o excedente global.
- Essa aparente contradição no mercado está relacionada a alguns fatores, como: risco climático com a probabilidade de um El Niño forte entre o fim de 2026 e o início de 2027; estoques limitados nos destinos; estrutura do mercado e custos elevados para carregar estoques; café retido na origem (especialmente no Brasil).
- Esses e outros pontos foram abordados na segunda edição do Outlook de 2026, apresentada na quarta-feira, 26 de agosto. Confira os destaques na análise a seguir.
Outlook 2º Semestre: Mercado do Café
O mercado de café atravessa, no segundo semestre de 2026, um dos períodos de maior volatilidade de sua história recente. Em julho, o contrato de Arábica em Nova York chegou a se mover cerca de 50 centavos de dólar por libra-peso em um único dia — e, mais recentemente, sessões de queda acentuadas em dias consecutivos tornaram-se comuns.
Esse comportamento seria mais compreensível se a oferta global estivesse efetivamente escassa, porém,não é o que os números mostram. O Brasil, maior produtor mundial, finalizou a colheita de uma safra recorde em 26/27, devido aos bons números de Arábica e Conilon, com um superávit global projetado em torno de 9 M scs para o ciclo. E por que o mercado segue tão volátil então? A resposta está na forma como esse café está — ou, mais precisamente, não está — se movendo da origem para os destinos, e na estrutura de um mercado futuro que se tornou menor, mais concentrado e mais sensível aos riscos relacionados à oferta, especialmente em um ano com um dos mais fortes El Niños previstos.
O cenário macroeconômico também continua complexo e sustenta a estrutura atual do mercado cafeeiro, devido aos custos financeiros mais altos de carregar estoques. As tensões geopolíticas envolvendo o Oriente Médio contribuíram para uma maior volatilidade nos mercados de commodities por meio de seu impacto sobre os preços da energia. Enquanto as conversas sobre um tratado de paz seguem instáveis, os Estados Unidos ameaçaram impor novas sanções sobre o Irã e novas tarifas sobre países que comercializam com o país no chamado “Dia D Econômico” nesta semana. Ainda que a medida tenha sido pausada e os preços de energia tenham seguido mais estáveis, as incertezas seguem altas para um mercado já desestabilizado.
O petróleo, os combustíveis refinados e o gás natural continuam em altos níveis, aumentando os custos de produção e transporte em toda a cadeia de abastecimento agrícola e impulsionando a inflação em várias economias, forçando os bancos centrais a manter políticas monetárias relativamente restritivas. Na Europa, mercado mais dependente de gás natural importado, vem sentindo esses impactos de maneira mais direta, com o Banco Central Europeu já elevando juros em 2026.
Nos Estados Unidos, a inflação permanece acima da meta do Federal Reserve e, apesar de indicadores de emprego por vezes mais fracos, o mercado continua precificando uma postura cautelosa da política monetária, com expectativas maiores de aumento da taxa de juros americana até o fim do ano.
IPC dos principais países (% A/A)

Fonte: LSEG
Esses desdobramentos também geraram períodos de fortalecimento do dólar americano e pressão sobre os mercados emergentes e das commodities. Ainda assim, importantes países produtores como a Colômbia e o Brasil seguem com diferenciais de juros atrativos, mantendo certa força das moedas locais, o que, por sua vez, também tem impactado o ritmo de vendas nesses dois países, uma vez que reduzem o quanto o produtor recebe na moeda local. No caso do real brasileiro, este pode seguir mais volátil nas próximas semanas com o possível aumento da taxa de juros americana e devido à crescente incerteza política com o início da corrida presidencial, o que também poderia impactar o ritmo de venda.
Nos países de destino, juros mais altos elevam diretamente o custo de capital necessário para financiar estoque, especialmente em um momento em que o mercado segue invertido. A demanda, por um lado, segue resiliente, com a Hedgepoint projetando recuperação para 181 M de sacas em 26/27, enquanto o USDA aponta um recorde de quase 180 M, com resultados positivos de volume e receita reportados por grandes players do setor no primeiro semestre de 2026, apesar de uma aparente mudança nos hábitos de consumo, especialmente com o crescimento do consumo em casa.
Por outro lado, as importações nos destinos não se elevaram, mantendo o ritmo das últimas safras, mas os estoques seguem extremamente baixos. Isso mostra uma possível tendência de importar apenas o necessário, dado o custo mais alto de manter estoque parado. Nos Estados Unidos, esse efeito estrutural se combina a um fator específico: as tarifas sobre o café brasileiro impostas em meados de 2025, que permaneceram efetivas até o final daquele ano para o café verde e até meados de 2026 para o solúvel, reduzindo a presença do Brasil nas importações americanas. A participação do Brasil está entre as menores dos últimos 10 anos e nenhuma outra origem (Vietnã, Indonésia, Índia, América Central) conseguiu compensar integralmente essa perda.
EUA: Importação de Café por Origem (M scs)

Fonte: US Trade Commission
Na maior origem produtora, o atraso da colheita da safra 26/27, devido às floradas tardias em 2025 e às chuvas de junho, contribuiu para a volatilidade do mercado. Enquanto o volume da safra não foi impactado – com 50,2 M scs de Arábica e 25,6 M scs de Conilon, levando à colheita de 75,8 M scs –, as precipitações e a maturação desuniforme afetaram a qualidade de uma parcela do volume de arábica e podem impactar os diferenciais de cafés mais finos, ainda que se espere que as exportações de ambas as variedades aumentem no ciclo.
Produção de Café Brasileira (M scs)

Fonte: Hedgepoint
Por outro lado, produtores seguem segurando suas vendas à espera das primeiras floradas de 27/28, especialmente do lado do Arábica, o que também foi refletido nas exportações até o momento. Nos dois primeiros meses da safra 26/27 (junho e julho), os embarques de Arábica verde estão abaixo dos níveis médios. Já as exportações acumuladas do Conilon se elevaram, refletindo a arbitragem favorável para o Robusta e a entressafra no Vietnã.
Enquanto produtores brasileiros têm comercializado seus grãos de forma mais limitada, os riscos climáticos para os próximos meses seguem elevados, não apenas no Brasil, mas no restante do globo, o que vem mantendo a volatilidade alta no mercado. A probabilidade de um El Niño forte supera 75% entre agosto e outubro de 2026 e passa de 90% entre outubro de 2026 e janeiro de 2027. O risco é especialmente mais alto para a safra de Robusta no Sudeste Asiático, nos ciclos 26/27 e 27/28 – o que poderia afetar a arbitragem –, e moderado para a temporada Mitaca da Colômbia em 26/27.
O terremoto na Colômbia no dia 10 de agosto também aumentou a sensibilidade do mercado no período. Ainda que não houve impactos nas áreas produtivas, o desastre afetou a infraestrutura e logística da cadeia cafeeira no país, com o porto de Buenaventura – que concentra a maior parte das exportações colombianas – voltando 100% à operação apenas neste final de agosto.
Apesar desses fatores, a temporada 26/27 ainda deve contar com um superávit de quase 9 M scs, especialmente devido ao recorde no Brasil. Nesse sentido, o maior desafio do mercado cafeeiro hoje não é a oferta no ciclo, mas sim o deslocamento desse volume para os destinos em meio à estrutura atual do mercado futuro. O mercado, inclusive, começou a precificar esse superávit no primeiro semestre de 2026, quando os preços futuros do Arábica chegaram a operar nos níveis de 250 c/lb. Entretanto, os estoques ainda baixos em destinos, o mercado ainda invertido e o eventual atraso da colheita da safra brasileira com o aumento dos riscos climáticos levaram a novas precificações em meados do ano.
Oferta e Demanda Global de Café (M scs)

Fonte: Hedgepoint
Os spreads dezembro/26-março/27 e março-maio/27 bateram, em julho, seus níveis mais altos em cerca de uma década e permaneceram em níveis elevados nas semanas seguintes, na medida em que o mercado assimilou o ritmo mais lento de venda no Brasil. Os estoques certificados da ICE também reforçam essa tendência do mercado, à medida que se aproximam dos níveis mais baixos desde abril de 1999. Ainda que esses estoques não sejam sinônimos de estoque físico total disponível no mundo, sua queda reflete o fato de que o Brasil — historicamente o maior certificador desse estoque — não estava enviando café para classificação, dado que os diferenciais locais não compensam esse movimento, o que tem contribuído para essa retenção da oferta nas origens.
Arábica: Spread de Dezembro-Março (c/lb)

Além disso, a própria composição do mercado futuro tem auxiliado na atual volatilidade. Nos últimos anos, à medida que muitos agentes comerciais saíram do mercado após as altas históricas de 2024 e 2025 — o número de contratos em aberto em Nova York está em baixos níveis —, os fundos especulativos passaram a ocupar um espaço proporcionalmente maior na formação de preços. Em um mercado mais concentrado, qualquer sinal sobre a oferta tem potencial para gerar movimentos de preço desproporcionais, o que tem sido observado nos últimos meses. A margem inicial exigida pela bolsa é outro fator: ela é em função do risco percebido do mercado, e, diante da variação diária de preços observada nos últimos meses, chegou a saltar de cerca de 5 mil para 20 mil dólares por lote em um espaço curto de tempo — tornando o mercado remanescente, paradoxalmente, mais estreito e mais reativo.
Fonte: Hedgepoint
Em resumo
Assim, enquanto os custos de carregar estoque permanecerem elevados e a estrutura futura seguir invertida, o incentivo econômico continuará sendo manter o café na origem, e não nos destinos, o que pode manter a atual volatilidade. A mudança dessa atual dinâmica do mercado dependerá mais efetivamente da comercialização brasileira nas próximas semanas e dos primeiros sinais sobre o tamanho da safra 27/28, especialmente com as previsões de chuvas no Brasil nos próximos dias. Até lá, com um mercado futuro estruturalmente menor, mais concentrado em fundos especulativos e com margens de garantia elevadas, a expectativa é de que a volatilidade continue sendo a característica do mercado.
Relatório Semanal — Café
Escrito por Laleska Moda
laleska.moda@hedgepointglobal.com
Revisado por Carolina França
carolina.franca@hedgepointglobal.com
www.hedgepointglobal.com
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