Oct 23 / Laleska Moda

Live com os Especialistas – Destaques do mercado de café

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  • Nesta análise, reunimos os principais pontos discutidos durante a Live com Especialistas realizada em 21 de outubro, que abordou: o cenário macroeconômico, o clima e a comercialização no Brasil, o El Niño nas demais origens, as importações nos destinos, a estrutura de mercado e o balanço global de café. Você também pode acessar este link para assistir à gravação completa.

Cenário macroeconômico

A inflação segue como risco para as principais economias. Com a crise energética persistindo, o CPI americano está em 3,4% e a inflação na União Europeia, em 3,8%, ambos acima da meta de 2%. Nesse contexto, o Fed elevou os juros para a faixa de 3,75% a 4,00%, o primeiro aumento desde 2023, e o BCE levou sua taxa a 2,5% em setembro, com ambos sinalizando que novas altas podem ocorrer.

EUA: PCE e Taxas de Juros do FED (%)

Fonte: Bloomberg


A guerra entre Irã, Estados Unidos e Israel retomou a pressão inflacionária e redefiniu as expectativas de juros, mantendo elevado o custo financeiro, sobretudo nos países de destino, o que encarece o financiamento de estoques e do comércio de café. Além disso, a forte demanda por crédito das empresas de tecnologia pode manter esses custos altos por mais tempo.

No câmbio, o dólar ganhou força com a expectativa de novas altas de juros nos Estados Unidos, mas o quadro eleitoral brasileiro tem dado fôlego ao real. Como uma moeda local mais forte tende a desestimular novas vendas, o movimento é relevante para a comercialização no Brasil.

Brasil: clima, safra e comercialização

O clima segue favorável por enquanto. As chuvas permitiram boas floradas para a safra 2027/28, ainda que mais desuniformes do que o esperado, e o aumento de área nos últimos anos ajuda o próximo ciclo. Pela bienalidade, o Arábica tende a produzir menos do que em 2026/27, enquanto o Conilon pode igualar ou superar o volume atual, dependendo do quadro climático. O risco no quarto trimestre de 2026 está nas temperaturas, que devem ficar entre 0,6 °C e 2 °C acima da média, uma vez que as precipitações até o momento – reflexo do El Niño – contribuíram para melhores reservas hídricas.

No entanto, o maior risco é o primeiro trimestre de 2027: se o calor se combinar com menos chuva, peneira e rendimento podem cair, afetando o tamanho e qualidade da próxima safra. Para a safra 2026/27, a Hedgepoint manteve a estiamtiva de 75,8 milhões de sacas (M scs), sendo 50,2 M scs de Arábica e 25,6 M scs de Conilon. A comercialização, porém, segue lenta: os produtores vendem apenas o necessário para cobrir custos e aguardam maior definição sobre 2027/28, e os negócios futuros também andam devagar, uma vez que o preço spot tem sido maior.

Por outro lado, os diferenciais indicam menor preocupação com a oferta, próximos da média ou até abaixo no good cup 14/16, e as exportações avançaram nos últimos dois meses, com os Estados Unidos de volta à liderança entre os destinos após o fim das tarifas sobre os grãos brasileiros. No mercado interno, o spread entre Arábica e Conilon ainda favorece o uso de Conilon nos blends, embora possa se estreitar, uma vez que a produção de Arábica de menor qualidade em 2026/27 foi maior.

Chuvas acumuladas nas regiões cafeeiras do Brasil (mm)

Fonte: Somar, Bloomberg

El Niño e outras origens

O El Niño é o maior fator de risco para a produção global de café. A NOAA indica que o evento deve ser um dos mais fortes em anos, com impactos sobretudo na safra 2027/28: temperaturas mais altas no Brasil e na América Central, calor e seca no Sudeste Asiático, possível seca na Mitaca colombiana e enchentes durante a colheita 2026/27 na África Oriental.

Probabilidade de Força do ENSO (%) – Outubro 2026 

Fonte: NOAA

Maiores impactos

No Vietnã, a colheita 2026/27 começa a ganhar ritmo e a produção esperada é de 30,5 M scs, praticamente estável frente a 2025/26 graças à maior área, uma vez que algumas regiões foram atingidas pelo clima mais seco. Por outro lado, as baixas precipitações devem acelerar o ritmo de colheita e levar os grãos ao mercado já em novembro e manter as exportações elevadas. O risco maior é 2027/28, especialmente se o El Niño se estender em 2027, uma vez que as reservas hídricas podem reduzir e a seca atingir a época de floração.

Na Indonésia, o clima seco já ameaça a safra 2027/28, uma vez que as árvores de Robusta já se encontram em período de desenvolvimento. As exportações acumuladas somam 3,3 M scs, 21,5% abaixo do ciclo anterior. Com Vietnã, Uganda e Índia no início da colheita e a Indonésia na entressafra, os diferenciais do Robusta seguem elevados, mas podem recuar se a safra vietnamita chegar mais cedo ao mercado.

No Arábica, o El Niño ainda não teve grandes impactos, mas a safra intermediária (Mitaca) da Colômbia está em desenvolvimento e exige atenção, podendo ser afetada por temperaturas mais altas e seca. As exportações colombianas somam 10,6 M scs, 13,5% abaixo de 2024/25, refletindo a menor produção e a valorização do peso, enquanto América Central e México mantêm ritmo semelhante ao do ciclo anterior. Na África Oriental, os embarques estão abaixo de 2024/25, mas muito acima da média recente. Como a maior parte das origens está no início da colheita, o maior volume de café novo só chega entre novembro e dezembro, e a retração dos produtores colombianos e os riscos logísticos sustentam os diferenciais.

Importações nos destinos

Nos destinos, as importações seguem cautelosas, mas os estoques recuam. Na União Europeia, as importações líquidas somam 38,5 M scs (-3,6% sobre 2024/25), refletindo a cautela dos compradores e os custos financeiros maiores, enquanto os estoques seguem em queda, sinalizando demanda ainda firme.

Nos Estados Unidos, as importações líquidas somam 20,2 M scs (-7,8%), efeito ainda visível das tarifas, mas a retomada dos embarques brasileiros sugere recuperação nos próximos meses. No Japão, as importações estão estáveis (4,7 M scs, -1,1%) e os estoques domésticos recuaram, refletindo cenário semelhante à UE De forma geral, os custos financeiros e preços do café mais alto dos últimos anos tem levado à certa mudança no comportamento dos destinos, com importações mais pontuais e estoques mais justos. Por outro lado, esse novo comportamento também deixa margem para maior volatilidade dos preços, especialmente devido à vulnerabilidade ao lado da oferta.  

Estrutura de mercado e preços

O mercado de café está menor. O open interest do Arábica está no menor nível em mais de dez anos e o do Robusta, embora recuperado, segue abaixo da média, o que reduz a liquidez e amplia a sensibilidade dos preços a ordens grandes. Ao mesmo tempo, a participação dos fundos comerciais caiu, especialmente na ponta vendida, em razão dos preços e custos financeiros elevados, enquanto os especuladores, em níveis próximos da média, têm ampliado posições vendidas diante da oferta atual, o que pode tornar seus movimentos mais influentes sobre os preços.

Na estrutura a termo, o risco de oferta mantém o Arábica invertido, com spreads de curto e médio prazo elevados em função do El Niño, dos estoques baixos nos destinos e da comercialização lenta no Brasil. No Robusta, os spreads recuaram com a colheita vietnamita e o bom volume no Brasil, mas seguem positivos e podem subir, sobretudo o spread de março-maio, caso o El Niño afete o Sudeste Asiático em 2027/28. Os preços mostram tendência de baixa frente a 2025, com o Arábica em Nova York em torno de 315 c/lb e o Robusta em Londres em torno de US$ 3.484/t, mas seguem vulneráveis à oferta enquanto os estoques nos destinos não se recuperarem.

LN Robusta (USD/mt), Arábica NY e Arbitragem (c/lb)

Fonte: LSEG

Balanço global

Para 2026/27, estimamos produção global de 190 M scs e consumo de 181 M scs, um superávit de 8,9 M scs (2,3 M scs em 2025/26), sustentado pelo recorde brasileiro e pela boa produção no Vietnã e na África Oriental. A produção de Arábica soma 104,4 M scs (+8,9%) e a de Robusta, 83,5 M scs (-2,0%). Para 2027/28, o cenário ainda é incerto, mas oespera-se que o consumo tenha leve avanço, impulsionado pela Ásia, enquanto a oferta pode diminuir com o El Niño e a bienalidade do Arábica no Brasil, o que pode apertar o balanço.

Oferta e Demanda Global de Café (M scs) 

Fonte: Hedgepoint

Em resumo

O balanço de 2026/27 segue em superávit, mas os estoques baixos nos destinos e um mercado menor deixam os preços sensíveis a choques de oferta. No curto prazo, a colheita 2026/27 em outras origens pode pressionar cotações e diferenciais, enquanto juros, câmbio e a venda lenta no Brasil seguem no radar. O maior risco está no primeiro trimestre de 2027 e na safra 2027/28, quando um El Niño forte e a bienalidade do Arábica podem apertar o balanço. A evolução do clima, das exportações brasileiras e dos estoques nos destinos será determinante para a direção dos preços.

Relatório Semanal — Café

Escrito por Laleska Moda

laleska.moda@hedgepointglobal.com

Revisado por Luiz Silverio
Luiz.silverio@hedgepointglobal.com

www.hedgepointglobal.com

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