Jan 30 / Alef Dias

Relatório Semanal Macroeconomia - 2024 01 30

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PIB e Guerra - mais riscos para a semana de FOMC

  • Diante dos acontecimentos da semana passada e da iminência de mais uma reunião do FOMC (Federal Open Market Commitee), é necessário voltarmos nossa atenção para o Fed mais uma vez.
  • No último domingo, um ataque de drone matou três soldados americanos. Foram as primeiras mortes americanas desde que Israel e o Hamas entraram em guerra e podem trazer impactos relevantes para o cenário macroeconômico.
  • O crescimento real do PIB americano foi de 3,3% no 4T ficando acima das estimativas de consenso de 2,0%. Esse crescimento econômico mais forte pode atrasar a convergência da inflação para a meta de 2% do Fed.
  • Contudo, os últimos dados do PCE mostraram um cenário mais benigno para um dos principais índices de preços acompanhados pelo Fed, o que favorece um corte de juros antecipado.

Introdução

Frente os eventos da última semana, e a eminência de mais uma reunião do FOMC (o “Copom” americano), temos que retornar ao principal tema macro do primeiro semestre de 2024: o início do afrouxamento monetário nos EUA.



Escalada da guerra eleva riscos de repique inflacionário

No último domingo, um ataque de drone matou três soldados americanos e feriu outros 34. O ataque aconteceu em uma base perto da fronteira entre a Jordânia e a Síria. Os EUA acusaram militantes apoiados pelo Irã pelo ataque, enquanto Teerã negou qualquer conexão com o ataque.

O evento é importante. Ele resultou nas primeiras mortes americanas desde que Israel e o Hamas entraram em guerra em 7 de outubro. O presidente Joe Biden prometeu retaliação. O acontecimento pode levar os EUA e o Irã à guerra, apesar de sua aversão mútua ao confronto direto. Os preços do petróleo subiram para US$ 84 por barril após o ataque.

Há dois cenários para como as coisas vão se desenrolar a seguir:

- O primeiro, e mais provável, seria um contra-ataque “único". Os EUA atingem alvos ou oficiais iranianos, e o Irã não aumenta a escalada. O cenário é parecido com o que aconteceu em 2020, quando os EUA assassinaram o general iraniano Qassem Soleimani, e o Irã não respondeu da mesma forma. O assassinato ocorreu após a invasão da embaixada dos EUA em Bagdá.

- Em segundo lugar, uma escalada de "olho por olho". Os EUA atingem alvos ou indivíduos iranianos, e o Irã responde atingindo os interesses dos EUA, seja diretamente ou por meio de sua rede de representantes e aliados na região.

O segundo cenário potencialmente escalaria o conflito para um nível mais amplo, adicionado um risco significativo para inflação mundial, visto que grande parte do comércio marítimo do mundo passa pelo estreito de Hormuz.

Um quinto do suprimento global de petróleo bruto estaria em risco. Os preços do petróleo poderiam subir para três dígitos e uma recessão global poderia ocorrer.

Contudo, nem os EUA nem o Irã querem uma escalada, o que torna o primeiro cenário mais provável. Antes do último ataque, Washington estava considerando reduzir as vendas de armas para Israel para pressionar uma redução das operações em Gaza. O país também está envolvido em negociações sobre um possível cessar-fogo em troca da libertação de reféns.
Figura 1: Petróleo WTI (USD/Bbl)

Fonte: Refinitiv

PIB resiliente aumenta riscos

O crescimento real do PIB americano arrefeceu para um forte ritmo de 3,3% no 4T (vs. 4,9% anteriormente). Isso ficou acima das estimativas de consenso de 2,0%. Os gastos do consumidor foram responsáveis pela maior parte do crescimento, expandindo-se a um ritmo de 2,8% (vs. 3,1% anteriormente).

A balança comercial também contribuiu para o PIB “surpreendente”. As exportações se expandiram em um ritmo acelerado de 6,3% (em comparação com os 5,4% anteriores), principalmente em serviços. As importações cresceram apenas 1,9% (em comparação com os 4,2% anteriores), também impulsionadas principalmente pelos serviços.

No geral, a economia registrou um rápido crescimento de 3,1% para o ano inteiro de 2023, acima dos 0,7% do ano anterior. Esse resultado traz mais confiança com relação à resiliência da atividade econômica americana, porém ainda existem riscos que devem ser monitorados.

O crescimento no 4T foi impulsionado, em grande parte, por categorias voláteis e gastos governamentais. O investimento empresarial em equipamentos permaneceu, em sua maior parte, lento, e os estoques provavelmente prejudicarão o crescimento futuro
Figura 2: PIB Real (a.a.) - EUA

Fonte: Bloomberg

Apesar dos riscos, novos dados de inflação favorecem corte de juros em Março


A inflação PCE (Índice de preços das despesas de consumo pessoal), um dos principais índices monitorados pelo Fed, registrou uma alta de 0,2% mês a mês (vs. -0,1% anterior) - em linha com as expectativas, e mantendo a inflação PCE anual em 2,6%. O ritmo do núcleo do PCE aumentou para 0,2% na comparação mensal em dezembro, ante 0,1% anteriormente, mas os efeitos de base permitiram que o núcleo da inflação anual caísse para 2,9%, ante 3,2% anteriormente.

Mesmo com a renda e os gastos pessoais registrando ganhos robustos em dezembro, o ímpeto da inflação está diminuindo. O ritmo anualizado de três meses do núcleo da inflação PCE caiu para 1,5%, e o de seis meses permaneceu em 1,9% - ambos abaixo da meta de inflação média de 2% do Fed.
Figura 3: Núcleo PCE (a.a.) - EUA

Fonte: Refinitiv

Em Resumo

Pode-se dizer que os acontecimentos da última semana aumentaram a incerteza com relação a quando o Fed iniciará seu ciclo de afrouxamento monetário. A escalada das tensões entre EUA e Irã pode ter impactos importantes sobre os preços de energia e frete, enquanto que o crescimento econômico resiliente visto nos dados mais recentes do PIB americano atrasar a convergência da inflação para a meta de 2% do Fed.

Contudo, os últimos dados do PCE mostraram um cenário mais benigno para um dos principais índices de preços acompanhados pelo Fed, o que favorece um corte de juros antecipado. No momento da elaboração desse relatório, o mercado precificava uma chance de 49.6% de corte de juros na reunião de Março. Com isso, a reunião desta semana se torna extremamente relevante para entender qual a visão do FOMC para as próximas reuniões e quais as “condições” necessárias para o início do ciclo de corte de juros.

Seguimos entendendo que os riscos inflacionários e a resiliência da atividade econômica e mercado de trabalho americanos podem “impedir” um corte em março, o que pode trazer uma pressão baixistas para commodities no curto prazo. Contudo, as chances de que o Fed corte os juros até maio é de 90.5%, então, caso não haja uma grande escalada das tensões no Oriente Médio, devemos observar uma reversão dessa tendência baixista no segundo trimestre.

Figura 4: Probabilidades da Fed Funds Rate - reunião 20/03/24

Fonte: CME

Relatório Semanal — Macro

Escrito por Alef Dias
[email protected]

Revisado por Victor Arduin
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