Sep 6 / Market Intelligence

White Paper Multi-Commodities - 2023 04 24

🠔 Voltar para página principal do blog
  • Como a previsão do ENSO aponta para uma maior probabilidade de formação de El Niño durante maio-agosto, as preocupações com relação à produção total de açúcar no ciclo 23/24 (out-set) aumentaram. Normalmente, a Ásia é a região mais afetada, pois o padrão climático pode reduzir as monções e impactar o desenvolvimento da cana. Se extremamente forte, o Brasil, principal fornecedor de açúcar, também pode sofrer: um inverno mais úmido pode prejudicar a concentração de sacarose e atrapalhar o ritmo de moagem.

  • Em relação à produção de café, sabe-se que o fenômeno historicamente leva a um clima mais quente durante as janelas de crescimento vegetativo e florada no Brasil. Este ano, especificamente, os níveis de umidade do solo estão adequados e, portanto, as perspectivas são atualmente menos vulneráveis, mas ainda podem mudar ao longo do inverno. O El Niño também impactou a produção de arábica da América Central no passado, uma vez que leva a um clima mais quente durante a florada e o crescimento do fruto. 


  • Quando se trata de soja e milho, as regiões de interesse incluem EUA, Brasil, Argentina e Mar Negro. Dada a grande extensão desses países e diferenças no calendário de safras, os efeitos do El Niño variam amplamente. Nos Estados Unidos, o El Niño costuma ser mais fraco durante o verão. Como resultado, seus efeitos sobre a produtividade no país são leves, embora em geral positivos. Na América do Sul, o El Niño é conhecido por trazer calor para a maior parte do Brasil e chuvas acima da média no sul do Brasil e na Argentina no final do ano. Assim, o evento costuma ser negativo para o milho de inverno, mas positivo para soja e milho no Sul do Brasil e na Argentina durante o verão.


  • Em relação ao trigo, os produtores do Hemisfério Norte com safras de primavera e os produtores do Hemisfério Sul serão os mais afetados. Este ano, a produção de trigo de primavera do Canadá deve ser a mais impactada no Hemisfério Norte, enquanto na Rússia, boas perspectivas para a safra de inverno e altos estoques de passagem podem reduzir a influência do El Niño sobre a oferta total. A Argentina e os EUA podem se beneficiar dos efeitos do El Niño, mas a Austrália pode ter chuvas reduzidas e rendimentos de safra mais baixos, causando um impacto altista nos mercados de trigo.


Commodities em tempos de El Niño: desafios e oportunidades

O clima desempenha um papel fundamental no lado da oferta de commodities agrícolas. Padrões climáticos, como o La Niña e o El Niño, são responsáveis por mudanças nas condições climáticas normais e, portanto, podem afetar diretamente os balanços globais de commodities agrícolas e, consequentemente, sua precificação.

Claro que cada cultura tem suas particularidades e é afetada de forma diferente. Não só isso, mas, dependendo do estágio de desenvolvimento vegetativo da planta, mudanças nos padrões normais podem ser benéficas ou negativas para seus rendimentos e produção final.
Com isso em mente, vamos começar com algumas configurações que são muito importantes ao discutir este tópico.

O El Niño-Oscilação Sul (ENOS ou ENSO, na sigla em inglês) é um padrão climatológico recorrente que se relaciona com os ventos e a temperatura da superfície do mar no Oceano Pacífico tropical.

Como funciona e por que é importante?


Em termos gerais, sob condições normais, o vento sopra de leste a oeste sobre o oceano Pacífico tropical, levando águas quentes para o sudeste da Ásia e a Austrália.

Às vezes, esses ventos, também chamados de ventos alísios, enfraquecem. Se esse evento for intenso o suficiente, as águas quentes param de se acumular no lado asiático do Pacífico e se movem para o leste, reduzindo a ressurgência de água fria na costa sul-americana.

Este cenário, com temperatura da superfície do mar acima da média na seção leste do Oceano Pacífico tropical, é conhecido como El Niño.

Por outro lado, quando esses ventos são especialmente fortes, as temperaturas da superfície do mar na costa da América do Sul (novamente, na região tropical) tornam-se frias em relação ao normal. Como você deve ter adivinhado, isso é chamado de La Niña.

Ambos causam grandes mudanças no clima, especialmente em torno dos trópicos, que serão discutidas posteriormente.

O que devemos levar é que ENOS é um fenômeno único que oscila entre três fases: quente (El Niño), neutra e fria (La Niña). E, para cada uma delas, o padrão climático é diferente e impacta o desenvolvimento das culturas ao redor do mundo. É por isso que estamos aqui: para detalhar este fenômeno e conectar o que podemos esperar de cada uma das commodities que acompanhamos.

Como é medido?

Ao contrário do que alguns acreditam, o ENOS em si não é um índice. Na verdade, existem algumas maneiras de medi-lo. O primeiro componente é a força dos ventos alísios, medida pela diferença na pressão do ar entre o Pacífico tropical oriental e ocidental, denominado Índice de Oscilação do Sul (SOI, na sigla em inglês).

No entanto, o índice mais comum, e oficialmente usado pela Administração Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA), é o Índice Oceânico Niño (ONI em inglês), baseado nas temperaturas da superfície do mar.

O ONI é calculado comparando a temperatura média de 3 meses em uma região chamada Niño 3.4 com sua média de 30 anos. Se a temperatura média para esse período de 3 meses for superior a 0,5°C, a NOAA considera que existem condições de El Niño. Por outro lado, as condições La Niña existem quando o ONI é menor que -0,5°C. Alternativamente, entre 0°C e 0,5°C, existem condições Neutro Positivas, enquanto condições Neutras Negativas são observadas entre -0,5°C e 0°C.

No entanto, simplesmente chegar a um desses limites não é suficiente para afirmar que um dos dois eventos está ocorrendo. A NOAA e outras agências meteorológicas têm vários critérios a serem cumpridos antes de declarar oficialmente o padrão El Niño/La Niña, como a força do vento e o número de meses consecutivos com ONI alto/baixo.

Por isso, também é importante estar atento aos comunicados de atenção e alerta emitidos pelas principais agências meteorológicas. Essas perspectivas significam basicamente que existem condições favoráveis para uma das duas fases do ENOS e os especialistas acreditam que elas podem se transformar em um El Niño/La Niña ativo.

Figura 1: Visão histórica do Índice de Niño Oceânico e previsão 2023 - ONI (°C)

Fonte: NOAA


Quais são as perspectivas para o El Niño La Niña nos próximos meses?



O padrão atual é classificado como Neutro, o que significa que as condições climáticas globais não favorecem nem El Niño nem La Niña. A situação é recente, pois o clima global esteve sob influência do La Niña até fevereiro.


Geralmente, também pode ser classificado como Atenção, quando a previsão sugere que nos próximos meses, qualquer um dos dois estados pode se tornar ativo, ou Alerta, quando a influência de qualquer um dos estados fica mais clara.

Dito isto, o que esperar nos próximos meses? O modelo desenvolvido pela NOAA mostra uma probabilidade de 60-70% de El Niño se tornar ativo no trimestre de maio a julho. Passando o último trimestre do ano, as chances aumentam para 80-90%.

Fica aqui o convite para nos acompanhar nas análises sobre os impactos deste fenômeno climático para os mercados globais de Açúcar, Café, Soja, Milho e Trigo. Passaremos desde aspectos fenológicos, fundamentalistas até seus dedobramentos para os preços nas princiapais bolsas de referência.


Açúcar

Para entender melhor os principais padrões climáticos e seus efeitos na oferta de açúcar, primeiro precisamos discutir quais são as condições normalmente exigidas para o desenvolvimento da matéria-prima do adoçante.

O açúcar pode ser produzido a partir de dois produtos principais: a cana-de-açúcar e a beterraba. Cada cultura requer um conjunto diferente de condições para se desenvolver. Enquanto a cana é a mais adequada para climas subtropicais, a beterraba é um pouco mais resistente a temperaturas frias e pode suportar climas temperados. Como resultado, os principais fornecedores de açúcar, Brasil, Índia e Tailândia, assim como a maioria da América Central, produzem açúcar a partir da cana, enquanto regiões como Europa, Eurásia e norte da América do Norte lidam melhor com a beterraba.

Cada país e região tem seu calendário de safra, mas uma coisa é igual: tanto a cana quanto a beterraba precisam de chuva, umidade do solo e sol para um bom desenvolvimento durante sua fase de crescimento. Portanto, mudanças nas condições climáticas regulares podem afetá-las diretamente e, portanto, impactar a produção total do adoçante.


Figura 2: Calendário Safra de Açúcar

Fonte: CONAB, EC, ICCO, ISMA and USDA.

Embora não haja forte correlação entre a ocorrência do padrão El Niño e as quebras da safra de açúcar, sabe-se que ele adiciona volatilidade à sua disponibilidade, especialmente se ocorrer durante a janela junho/agosto, pois pode afetar tanto a safra brasileira quanto o desenvolvimento da cultura no Hemisfério Norte. No entanto, devemos ter em mente que nem todos os seus efeitos são necessariamente negativos, pois o El Niño afeta de maneira diferente cada região a depender, também, de sua intensidade.


Figura 3: Índice Niño Oceânico (ONI) para junho/agosto

Fonte: Golden Gate Weather Services; hEDGEpoint Global Markets

Brasil: a fase de cultivo da cana começa em meados de setembro e vai até março. Nesta fase, o ideal é que haja precipitação abundante, luz solar adequada e umidade do solo. Na época da colheita, pouca precipitação induz maior teor de sacarose, o que costuma acontecer no inverno brasileiro.

O El Niño pode levar a um inverno mais úmido – ruim para o ritmo da safra e para a concentração de sacarose – sua ocorrência costuma impactar negativamente a produção total do adoçante. Além disso, durante a janela mais importante de desenvolvimento da cana (dezembro a fevereiro), o padrão climático pode induzir uma redução na precipitação do Centro-Sul, especialmente no Norte de São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso, comprometendo o desenvolvimento da próxima safra. No entanto, as correlações ENSO são menores para a precipitação na região, reduzindo seus efeitos esperados na produção total Brasileira.

América Central: O El Niño geralmente leva a região a um clima mais seco do que o normal durante a janela mais importante para o desenvolvimento da cana. Entre abril e novembro, se o país não contar com métodos de irrigação, a cana pode sofrer e não se desenvolver adequadamente.

Índia: Entre junho e novembro, representando basicamente todo o período de desenvolvimento da cana, o El Niño torna o clima mais seco – levando a monções abaixo da média e possivelmente comprometendo a produção de açúcar. Este ano, se a intensidade do El Niño aumentar afetando a atual formação das monções, isso pode aumentar o cenário de restrição de disponibilidade do adoçante, no entanto, se o período de seca vier mais tarde, pode induzir um maior teor de sacarose!

Tailândia: Como na Índia, o El Niño traz um clima mais seco do que a média durante a maior parte do ano, exceto no período de dezembro a fevereiro, quando pode induzir precipitação acima do normal. Portanto, o padrão climático é extremamente preocupante, pois pode afetar negativamente tanto o desenvolvimento da cana quanto o ritmo de moagem.

Europa: o El Niño pode ser responsável por um leve aumento na precipitação da região – principalmente na França e na Alemanha. Portanto, sua ocorrência seria beneficial se restrita à janela de março a agosto, que é exatamente a fase de desenvolvimento da beterraba. Caso ocorra um evento extremamente forte, o El Niño pode levar ao prolongamento do período de chuvas – dificultando a colheita.

Como a previsão do ENSO aponta para uma maior probabilidade de formação de El Niño durante maio-agosto, as preocupações com a produção de 23/24 aumentaram. Embora possa não afetar a colheita atual (22/23), a produção de açúcar da Índia 23/24 pode ser afetada se a probabilidade do padrão climático se intensificar rapidamente.

Mas a Índia não é a única em risco. Conforme discutido, o Centro-Sul brasileiro também pode sofrer com seus efeitos. Um inverno mais úmido pode ser extremamente ruim para a concentração de sacarose e afetar o ritmo de moagem. Ainda assim, devemos estar cientes da magnitude esperada deste evento climático. Devido às baixas correlações, um El Niño mais sutil pode não afetar tanto a região.

Para algumas regiões, como a Europa, o padrão pode até ser benéfico, e, para outras, como a América Central, investimentos realizados para ampliar a capacidade de irrigação devem evitar quebras significativas.

Café


O café ficou sujeito aos impactos negativos do La Niña nas últimas três safras, e o El Niño também pode representar uma ameaça para o desenvolvimento da safra. Por ser uma cultura perene, o café é mais vulnerável a anomalias climáticas, uma vez que tais eventos podem impactar não apenas a safra atual, mas também as próximas. Com isso em mente, é importante destacar que a safra que seria mais afetada pelo fenômeno é a safra 24/25, já que a expectativa é que o fenômeno fique ativo apenas no 2T.

A princípio, o El Niño diminuiria a probabilidade de geadas no Brasil, com temperaturas mais quentes durante o outono e o inverno. Por outro lado, se o inverno for mais seco do que a média, além do clima mais quente, a umidade do solo e as reservas de água podem ser impactadas negativamente. Ainda assim, essa não é uma ameaça imediata, já que essas reservas estão suficientemente altas com as chuvas recentes – seria preciso uma ocorrência extrema para mudar esse cenário.

Passando do período de crescimento vegetativo para o de pós-florada, a visão do El Niño muda drasticamente: temperaturas muito acima do normal durante o enchimento e maturação dos frutos podem ameaçar o desenvolvimento. Além disso, se o fenômeno afetar também o regime de chuvas, pode levar a um período mais seco, ameaçando a visão otimista para 24/25.

Historicamente, o El Niño aconteceu nos anos 03/04, 07/08, 10/11 e 16/17 durante os principais períodos de desenvolvimento (pós-florada até a maturação). 16/17 é um outlier quando comparado aos outros ciclos, pois a produção estava se recuperando das quebras de safra 14/15 e 15/16. Esses foram os mais afetados pela seca de 2013, que aconteceu em um ano Neutro-ENSO, o segundo ano com maior anomalia positiva de temperatura para status ENSO neutro em mais de um século. Ambas as safras também foram afetadas pelo cenário neutro-positivo, que antecedeu o El Niño.

Em média, sem considerar a safra 16/17, a produção de arábica caiu 5% nos anos de El Niño (em comparação com a safra anterior de bienalidade correspondente). Durante anos neutro-positivos e El Niño, a queda média é de 4%.

Já para o conilon, a produção caiu 10% a/a nos anos de El Niño e 3% nos anos neutro-positivo e El Niño. Ainda que as últimas três safras tenham sido afetadas negativamente pelo fenômeno La Niña, o El Niño se mostra também relevante para a safra brasileira.



Figura 4: Brasil Arábica - Produção, variação %, e El Niño/Neutro-Positivo

Fonte: hEDGEpoint Global Markets, BOM

Figura 5: Brasil Conilon - Produção, variação %, e El Niño/Neutro-Positivo

Fonte: hEDGEpoint Global Markets, BOM

O fenômeno também preocupa em relação à produção de café na América Central. No geral, as temperaturas tendem a ser mais altas do que a média durante os meses de florada e desenvolvimento dos frutos, e a precipitação tende a ser abaixo da média, especialmente no trimestre de junho a agosto. Tomando como exemplo Honduras e comparando anos semelhantes que foram neutro-positivos ou ativamente afetados pelo El Niño, os níveis de chuva em julho e agosto tendem a ser preocupantes.

Ainda usando como proxy o principal produtor da América Central, temos dois ciclos em que o desenvolvimento foi diretamente afetado por um El Niño ativo: 02/03 e 15/16. No primeiro, a produção caiu 11%; no último, aumentou 13%, mas destacamos que a região estava se recuperando da ferrugem do café, inflando as taxas de crescimento a/a de 13/14 a 16/17.

No entanto, a região também teve seus principais estágios de desenvolvimento afetados por um status neutro-positivo – quando há um “aviso” ou “alerta” de que o fenômeno provavelmente se tornará ativo. Na média, considerando todos os anos-safra afetados pelo El Niño ou status neutro-positivo, a produção do país caiu 3%.

O risco reside principalmente no fato de que a florada pode acontecer conforme o esperado, mas as chuvas que deveriam ocorrer durante o enchimento dos frutos acabam vindo abaixo do normal. Isso pode levar a cerejas menores e, consequentemente, rendimentos mais baixos.

Para simular o possível impacto que o El Niño pode ter no próximo ciclo, consideramos o impacto médio histórico do fenômeno, usando Honduras como proxy da América Central. Isso poderia significar um impacto de -833 mil sacas no ciclo 23/24, o que efetivamente colocaria o balanço de O&D global em déficit, indo de +0.6M para -0.2M scs neste exercício.


Figura 6: Produção, variação a/a, e El Niño/Neutro-Positivo

Fonte: hEDGEpoint Global Markets, BOM

Soja e Milho
Depois de vários anos com um La Niña ativo no radar do mercado, agora nos deparamos com um ano de El Niño. Ao longo deste relatório, analisamos como o El Niño afeta o clima em regiões de interesse. Quando se trata de soja e milho, essas regiões incluem os EUA, a América do Sul e o Mar Negro.

Começando pelos EUA, os efeitos do El Niño são sentidos com mais intensidade durante os meses de inverno. Isso ocorre porque ele afeta a posição das correntes de ar sobre o país, influenciando o clima como resultado. Durante os meses de verão, uma dessas correntes, a Polar Jet Stream já está mais ao norte, minimizando os efeitos no Meio-Oeste dos EUA. Embora significativo para culturas como trigo de inverno, esta não é uma janela relevante para milho e soja. No entanto, dizer que os efeitos são menores durante o verão não é o mesmo que dizer que eles são inexistentes.

Nos anos em que o fenômeno esteve ativo, o Meio-Oeste dos EUA registrou temperaturas mais baixas durante o verão, precipitação acima do normal no oeste do cinturão do milho e algumas regiões secas no leste. A correlação com a precipitação, no entanto, é menor.

Entre os dez principais estados produtores, as correlações não são muito altas em lugar algum, significando que os efeitos, embora existentes, são pequenos. A boa notícia é: eles foram em sua maioria positivos. Os únicos estados onde um efeito negativo mais consistente é visto são Ohio e Indiana, onde os pontos secos estavam localizados no passado. Nesses anos, o milho se mostrou mais suscetível a variações na produtividade que a soja.



Figura 7: Correlação entre o desvio da produtividade em relação à tendência nos EUA e a intensidade do El Niño em junho-agosto

Fonte: hEDGEpoint Global Markets

Particularmente para o milho, os EUA têm como meta a marca de 180+ bu/ac a nível nacional e, por algumas temporadas consecutivas, o clima ruim diminuiu essas expectativas. Pelo menos a princípio, parece que podemos ter as condições para que isso aconteça este ano. O plantio começou cedo e as condições climáticas dos últimos anos de El Niño mostraram-se benéficas para as lavouras.

Seguindo para a América do Sul, duas janelas são relevantes para serem analisadas aqui: outono/início do inverno – quando temos milho de inverno se desenvolvendo no Brasil – e primavera/início do verão – quando temos soja no Brasil e soja e milho na Argentina.

Primeiro, no outono/inverno brasileiro (março-agosto), o El Niño está associado a temperaturas mais quentes no Brasil, conforme citado para outras commodities. A lógica geral também é semelhante: o risco de geada é menor e o crescimento é favorecido (desde que as temperaturas não sejam excessivamente altas), mas a evapotranspiração também aumenta, o que significa que as lavouras precisam de mais água para manter a produtividade.

O problema é que o El Niño não está tão correlacionado com a precipitação nesta janela quanto com as temperaturas. Entre março e maio, quando ocorre a maior parte do desenvolvimento, não há realmente nenhuma região significativamente correlacionada. Na janela de junho a agosto, existem alguns pontos onde o El Niño levou a precipitação acima da média, incluindo regiões no Oeste do Paraná e de Mato Grosso do Sul. Ainda assim, mesmo nesses lugares, a correlação verificada não foi muito alta.

Assim, nos anos em que a precipitação é boa, a produtividade do milho inverno também tende a ser maior. No entanto, quando ela falha, as altas temperaturas podem levar a perdas. A questão é que o inverno já é a estação mais seca do Brasil e, neste ciclo, vários estados plantaram milho fora da janela ideal, o que pressiona ainda mais as lavouras. 22/23 ainda tem grandes chances de ser uma boa safra, mas as notícias não tão boas estão começando a se acumular e podem impedir o Brasil de atingir o limite superior das expectativas.


Figura 8: Correlação entre o desvio da produtividade em relação à tendência nos Brasil e a intensidade do El Niño

Fonte: hEDGEpoint Global Markets

Quando se trata da primavera/verão (set-fev), o El Niño continua trazendo calor para a maior parte do Brasil e, curiosamente, temperaturas um pouco abaixo do normal para a Argentina. O evento também está associado a precipitações acima da média em partes do cinturão agrícola da Argentina e do sul do Brasil. Embora não altamente correlacionada com o fenômeno, a precipitação no restante do Brasil ficou abaixo do normal nos anos em que o fenômeno esteve ativo.

Figura 9: Correlação entre o desvio da produtividade em relação à tendência nos EUA e a intensidade do El Niño

Fonte: hEDGEpoint Global Markets

Dado esse contexto, há uma divisão muito clara entre as produtividades no sul do Brasil e Argentina, em relação ao resto do Brasil. O El Niño teve influência positiva no primeiro grupo e neutra no segundo. No entanto, voltamos a cair na mesma nuance: como o El Niño não é tão correlacionado com a precipitação no Centro-Oeste, ela pode se desviar para ambos os lados. Como tal, isso se torna um fator decisivo que pode puxar a safra para cima ou para baixo. Obviamente, com a probabilidade de clima quente na região, o impacto do estresse hídrico sobre as produtividades é maior.

Passando para o Mar Negro, a Ucrânia pode experimentar temperaturas mais quentes e condições mais secas durante um evento de El Niño, o que pode levar à seca e diminuir a produtividade das lavouras. As primeiras estimativas oficiais para a temporada 23/24 já apontam para uma safra quase metade dos níveis pré-guerra (42,1M ton em 21/22 contra 21,7M ton em 23/24) e os estoques no país, antes inflados pelas baixas exportações, estão retornando a níveis pré-conflito. Isso significa que qualquer impacto na produtividade devido ao El Niño pode levar a uma situação muito difícil na Ucrânia.

Embora as estimativas já estejam trabalhando com rendimentos mais baixos devido às dificuldades da guerra, a projeção de 6 mt/ha permanece acima do observado em outros anos de El Niño, como 2009 e 2015, mostrando que ainda há espaço para deterioração. A situação só não é mais alarmante porque a UE - um importante importador de milho ucraniano - provavelmente se recuperará da quebra de safra do ano passado, e o fenômeno meteorológico traz uma anomalia positiva de precipitação para a maioria dos países da UE, então eles seriam menos dependentes da oferta ucraniana.

Trigo

Como o trigo tem uma produção mais diversificada – geograficamente falando – o El Niño pode ter impactos significativos e diversos nas lavouras de trigo dos principais países produtores e exportadores do mundo. Antes de falarmos sobre o impacto específico em cada região, é importante mencionar que o ONI - indicador das fases do fenômeno - apresentou aumento rápido em março, indicando aquecimento da região Niño 3.4 e, portanto, mudança da fase do ENSO de La Niña para neutro. A partir deste ponto, as principais previsões apontam para um aquecimento lento da região, com condições neutras positivas/ de El Niño prováveis para junho-agosto.

Ou seja, o El Niño provavelmente trará suas anomalias climáticas a partir de junho, o que significa que ele deve ter uma influência menor nas safras de inverno do hemisfério norte. Consequentemente entre os grandes produtores e exportadores, aqueles em que o trigo de primavera tem papel relevante no abastecimento, como Canadá, Rússia e Estados Unidos seriam mais afetados pelo fenômeno climático. Durante um evento El Niño, esses países podem experimentar padrões irregulares de chuva que podem levar a secas ou aumento da precipitação em diferentes regiões, afetando o crescimento e a qualidade do trigo.



Figura 10: Principais exportadores de trigo mais afetados pelo El Niño
Média de produção de 5 anos (M mt)

Fonte: USDA

O Canadá, um dos principais produtores de trigo, pode experimentar clima quente e seco nas pradarias do sul durante os anos de El Niño, levando à redução da produtividade e da qualidade do trigo. Por outro lado, nas partes do norte do país, o aumento das chuvas e as temperaturas mais frias também podem afetar negativamente as plantações de trigo. Como resultado, os agricultores canadenses podem enfrentar desafios para manter uma produção e qualidade consistentes de trigo durante os anos de El Niño.

Para este ano, o Canadá pode ser o produtor mais impactado no hemisfério norte, já que o trigo de primavera responde por aproximadamente 92% da produção do país. A culturas é semeada entre maio e junho e colhido em agosto – estando, portanto, muito mais exposto ao El Niño deste ano do que as safras regulares de inverno no hemisfério norte.

Na Rússia, maior exportador de trigo do mundo, o El Niño traz um clima frio e seco que costuma prejudicar as produtividades. No entanto, a safra primavera responde por cerca de 26% da produção do país e o de inverno é colhido em julho – o que significa que a safra russa é menos impactada pelo El Niño. Além disso, as perspectivas para a safra de inverno são positivas e os estoques de passagem são historicamente altos, já que a Rússia vem de uma safra recorde em 2022/23.

Nos Estados Unidos, os impactos do El Niño provavelmente serão neutros a positivos. O trigo de inverno estará próximo do período de colheita, enquanto os principais estados produtores de trigo de primavera – como Montana, Dakota do Norte e Minnesota, que respondem por cerca de 82% da produção de trigo de primavera – geralmente recebem precipitação acima da média e temperaturas mais frias do que o normal. Embora o trigo de primavera represente apenas 32% da produção de trigo dos EUA, a produtividade mais alta causada pelo El Niño podem compensar parcialmente as más condições observadas nos principais estados produtores de trigo de inverno, como o Kansas. Com a área plantada recorde esperada para a safra 23/24, os EUA devem ter uma grande produção de trigo na temporada.

No hemisfério sul, Argentina e Austrália são os principais produtores e exportadores de trigo a serem observados. Para a Argentina, o período crítico para o desenvolvimento do trigo (agosto-outubro) costuma ser mais frio e úmido do que o normal quando o fenômeno está ativo, o que deve ser positivo para a produção do país. Depois de enfrentar a pior quebra de safra desde 15/16, com a menor produtividade desde 09/08, o El Niño deve impulsionar a recuperação esperada para 23/24. Como o impacto é praticamente o mesmo para a safra brasileira – maior importador do trigo argentino – os preços do trigo na América do Sul terão uma pressão baixista relevante durante o ano-safra.

Por outro lado, a Austrália pode experimentar chuvas reduzidas, temperaturas mais altas e períodos de seca mais longos durante os eventos do El Niño, levando a menores rendimentos e qualidade das safras. Em 2015-2016, a Austrália experimentou um dos piores eventos de El Niño já registrados, levando a uma redução significativa na produção e exportação de trigo.

As primeiras estimativas apontam que, no pior cenário, a safra australiana pode ser 20M ton menor do que a safra recorde de 39M ton vista em 22/23. Essa safra menor na Austrália, além de trazer uma pressão bastante altista para os mercados de trigo, também pode provocar mudanças relevantes no fluxo comercial global. Com as recentes safras abundantes, a Austrália tem sido o maior exportador de trigo para a China, assim uma safra menor levará a uma maior demanda chinesa pelo trigo canadense e americano.

Em resumo, o El Niño terá um impacto altista nos mercados de trigo em 2023/24, uma vez que ele pode reduzir drasticamente as safras canadense e australiana, sem contar o impacto negativo na safra de primavera da Rússia – enquanto as melhores perspectivas para as safras de primavera dos EUA e da Argentina não será capaz de compensar essas perdas.


Figura 11: Produção e Produtividade de Trigo na Austrália (M mt, mt/ha)

Fonte: USDA (23/24 é a estimativa atual do pior cenário)

White Paper — Multi-Commodities

Escrito por Alef Dias
alef.dias@hedgepointglobal.com

Escrito por Lívea Coda
livea.coda@hedgepointglobal.com

Escrito por Natália Gandolphi
natalia.gandolphi@hedgepointglobal.com

Escrito por Pedro Schicchi
pedro.schicchi@hedgepointglobal.com

Escrito por Thaís Italiani
thais.itailiani@hedgepointglobal.com

www.hedgepointglobal.com

Aviso legal

Este documento foi preparado pela hEDGEpoint Global Markets LLC e suas afiliadas (‘HPGM”) de forma exclusiva para fins informativos e instrutivos, sem a finalidade de instituir obrigações ou compromisso com terceiros, bem como, não pretende promover oferta, ou solicitação de oferta, de venda ou compra relativos a quaisquer valores mobiliários ou produtos de investimento. A HPGM e seus associados se eximem expressamente de qualquer uso das informações aqui contidas, que derivem prejuízos ou danos de forma direta ou indireta de qualquer espécie. Em caso de dúvidas não resolvidas na primeira instância de contato com o cliente (client.services@hedgepointglobal.com), entre em contato com nosso canal interno de ouvidoria (ouvidoria@hedgepointglobal.com) ou 0800-878-8408 (somente para clientes no Brasil).