Mar 23 / Lívea Coda

Riscos energéticos se sobrepõem aos fundamentos do mercado

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  • Os preços do açúcar dispararam devido à escalada do conflito, aos efeitos colaterais no setor energético e à cobertura de posições vendidas por parte dos fundos.
  • Os ataques iranianos à infraestrutura energética elevaram os preços do petróleo e do GNL, aumentando os riscos de inflação global.
  • Os bancos centrais adotaram uma postura cautelosa: o Fed manteve as taxas inalteradas; o COPOM reduziu em 25 pontos-base em meio a uma desaceleração da economia.
  • As pressões de custo impulsionadas pela energia e a paridade mais firme do etanol podem apoiar o açúcar no curto prazo.
  • Embora a Índia tenha relatado perspectivas de produção mais baixas, os rendimentos na Tailândia mostraram uma melhora significativa.
  • Os fundamentos permanecem baixistas; o suporte é frágil e depende do conflito.

Riscos energéticos se sobrepõem aos fundamentos do mercado

Os preços do açúcar dispararam durante a semana em meio à intensificação do conflito e seu impacto no setor energético, desencadeando compras técnicas e cobertura de posições vendidas por fundos. Na quinta-feira, esse fluxo empurrou o contrato de açúcar bruto acima do nível de 15 c/lb, com os preços subindo 4,2% no pregão, possibilitando o fechamento em 15,7 c/lb  na sexta-feira. 

Figura 1 – Açúcar bruto: um movimento técnico com grande volume

Fonte: LSEG, Hedgepoint

O movimento foi reforçado pelas notícias de ataques iranianos às instalações de energia do Catar, o que aprofundou ainda mais a crise energética. De acordo com a QatarEnergy, cerca de 17% da capacidade de GNL do país poderá ficar interrompida por pelo menos cinco anos. Como principal fornecedor de do produto para a Europa e partes da Ásia, a interrupção gera preocupações quanto a uma nova deterioração econômica e pressões inflacionárias. Ataques semelhantes à infraestrutura petrolífera também impulsionaram os preços do petróleo bruto.

Nesse contexto, os bancos centrais tornaram-se mais cautelosos. O Fed destacou os riscos de a inflação ficar acima do previsto anteriormente, o que poderia comprometer as expectativas do mercado de um corte de 25 pontos-base na taxa ainda em 2026 e, portanto, optou por manter as taxas inalteradas na quarta-feira (18). Em contrapartida, o COPOM do Brasil anunciou um corte de 25 pontos-base no mesmo dia, reduzindo a taxa Selic para 14,75%, citando um arrefecimento da economia, apesar da inflação permanecer acima da meta. Embora o diferencial das taxas ainda possa dar suporte ao real brasileiro (BRL), o risco geopolítico acentuado e a elevada incerteza continuam adicionando desafios para os mercados emergentes.

Figura 2 – Diferencial de taxas de juros entre os EUA e o Brasil (%)

Fonte: LSEG, Hedgepoint

Nesse contexto, já destacamos anteriormente dois canais principais por meio dos quais os preços do açúcar poderiam encontrar suporte. Primeiro, preços mais altos de energia e fertilizantes, se mantidos, poderiam elevar os custos de produção em toda a cadeia de suprimentos. Segundo, preços mais firmes do etanol no mercado interno brasileiro, impulsionados por um possível repasse dos custos de importação pela Petrobras, poderiam elevar a paridade do etanol e, por sua vez, proporcionar um piso mais alto para os preços do açúcar.

Vale ressaltar, no entanto, que nenhum desses fatores implica uma mudança nos fundamentos intrínsecos do mercado de açúcar. Assim, caso o conflito se acalme e parte dos recentes ganhos no complexo energético se reverta, o suporte de preço associado provavelmente se dissiparia de acordo.

No que diz respeito aos fundamentos, surgiram alguns desenvolvimentos que, quando combinados, tiveram um impacto sutil no mercado de açúcar. O primeiro diz respeito à disponibilidade de açúcar na Índia, seguido por um ajuste compensatório na Tailândia. Nossa estimativa inicial para a safra 25/26 da Índia previa uma produção de açúcar de 31,1 Mt, desvio para etanol de 3,7 Mt e exportações de 1,5 Mt. No entanto, rendimentos mais baixos, em parte ligados a problemas de floração nos canaviais e dificuldade para realizar os tratos culturais devido ao clima, levaram a uma revisão para baixo na produção, para 28,5 Mt, com as exportações reduzidas para pouco mais de 700 kt. Como resultado, o superávit comercial global diminui de 1,8 Mt para cerca de 1,1 Mt. Além disso, as expectativas de que a Índia pudesse aumentar sua participação no comércio global em 26/27 estão agora em risco, não apenas devido à recuperação mais fraca em 25/26, mas também em meio às possibilidades de ocorrência do El Niño. Para manter uma postura conservadora, assumimos agora níveis de produção estáveis e, potencialmente, nenhuma exportação da Índia na safra seguinte. Essas revisões relativas à Índia levariam nossos fluxos comerciais a um equilíbrio entre o quarto trimestre de 2025 e o primeiro trimestre de 2027. Mas há outras atualizações.

Em contrapartida, as perspectivas da Tailândia melhoraram. Apesar das preocupações em torno da doença da folha branca, os rendimentos estão superando as expectativas, elevando a produção de uma estimativa inicial de 10,5 Mt para cerca de 11,5 Mt, adicionando aproximadamente 1 Mt aos fluxos comerciais globais – levando-os de volta a uma situação de excesso de oferta.


Figura 3 –Fluxo comercial total ('000t tq) – antes (esquerda) e depois* (direita)

Fonte: GreenPool, Hedgepoint
*Após ajustes significativos para a Índia e a Tailândia e algumas atualizações residuais nos dados realizados de outros países.

Por fim, caso os preços encontrem suporte devido à menor disponibilidade no Hemisfério Norte, o Brasil mantém a flexibilidade para ajustar seu mix de açúcar e etanol, o que poderia atuar como um limite para qualquer alta de preços impulsionada por fatores fundamentalistas.

Portanto, embora o mercado de açúcar continue estruturalmente em baixa, os preços ainda podem encontrar suporte em fatores exógenos. Os recentes picos de preço parecem ser impulsionados, em grande parte, por dinâmicas externas e frágeis, o que aumenta a volatilidade de curto prazo, dependente da intensificação ou da diminuição do conflito, além de gerar debates quanto à política de preços da Petrobras, possíveis aumentos na mistura do etanol na gasolina brasileira e outros fatores que impactam a expectativa de preços do adoçante.


Em resumo

Os preços do açúcar dispararam com a intensificação das tensões geopolíticas se espalhando para os mercados de energia, desencadeando compras técnicas e cobertura de posições vendidas por fundos, porém, essa alta é em grande parte exógena e frágil. Embora os custos mais elevados de energia e fertilizantes e a paridade mais firme do etanol brasileiro possam oferecer suporte no curto prazo, os fundamentos permanecem em baixa, com a menor produção da Índia parcialmente compensada pela melhora na produção tailandesa e a flexibilidade da matriz energética do Brasil limitando as altas. Qualquer diminuição da tensão poderia reverter os ganhos recentes.

Inteligência de Mercado - Açúcar

Escrito por Lívea Coda
livea.coda@hedgepointglobal.com

Revisado por Carolina França
carolina.franca@hedgepointglobal.com

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