Mar 27 / Carolina França

Páscoa agridoce para o mercado de cacau: entre preços ainda altos nas prateleiras e incertezas para a indústria no Brasil

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  • Os futuros do cacau encerraram a semana de 27 de março em queda, revertendo parte dos ganhos anteriores e mantendo-se dentro de uma faixa de oscilação mais limitada.

  • Na ausência de mudanças relevantes nos fundamentos, os movimentos recentes seguiram sendo explicados principalmente por fatores técnicos e por oscilações no ambiente macroeconômico e no mercado de energia.

  • Apesar da forte queda das amêndoas em relação ao ano passado, os preços ao consumidor final seguem elevados na Europa, nos Estados Unidos e também no Brasil.

  • No mercado brasileiro, a Páscoa tende a ser agridoce para o consumidor, que ainda deve encontrar chocolates mais caros nesta temporada.

  • Ao mesmo tempo, a indústria brasileira segue monitorando desafios adicionais relacionados ao abastecimento de amêndoas, ao fluxo comercial e às condições para moagem e exportação de derivados.

Páscoa agridoce para o mercado de cacau: entre preços ainda altos nas prateleiras e incertezas para a indústria no Brasil 

Revertendo parte dos ganhos da semana anterior, os futuros do cacau encerraram a semana do dia 27 de março cotados a 3.165 USD/t em Nova York e 2.370 GBP/t em Londres, com as cotações oscilando dentro de uma faixa mais limitada. Na ausência de mudanças relevantes nos fundamentos, os movimentos tiveram caráter predominantemente técnico, influenciados também pelas oscilações no cenário macroeconômico e no mercado de energia, em meio ao conflito no Oriente Médio, como discutido na semana anterior. Nesta análise, discutiremos alguns pontos importantes sobre um dos principais períodos para o mercado de cacau, sob a ótica da demanda e da moagem.

Às vésperas da Páscoa, período importante para o mercado de cacau em função da sazonalidade do consumo de chocolate em diversos países, os preços internacionais das amêndoas acumulam queda de cerca de 60% em relação ao mesmo período do ano anterior. Porém, isso não significa alívio imediato para o consumidor final, e na prática, os preços dos chocolates ainda tendem a permanecer elevados nesta temporada.

Isso se explica, em parte, pelo fato de que parte relevante da indústria adquiriu matéria-prima quando o cacau ainda era negociado em níveis mais altos, além de os preços internacionais atuais continuarem elevados em termos históricos. Como resultado, medidas como reajustes de portfólio, reformulações de produtos e repasses de preços seguiram sendo adotadas ao longo de 2025. Ao mesmo tempo, os preços mais altos nas prateleiras também vêm alterando padrões de consumo, mantendo a demanda do consumidor final sob pressão.

Os indicadores de preços reforçam essa leitura. Na Europa, o Índice Harmonizado de Preços ao Consumidor mostra que os produtos à base de cacau continuam em patamares elevados, atingindo o maior nível dos últimos anos. Nos Estados Unidos, o Índice de Preços ao Produtor por Indústria, que sinaliza indiretamente o comportamento dos preços ao consumidor, também permanece elevado, apesar de algumas correções recentes. O mesmo ocorre com o Índice de Preços ao Consumidor para açúcar e doces, que complementa esse quadro. Assim, mesmo com a forte queda das amêndoas no mercado internacional, os efeitos dessa baixa ainda não foram plenamente transmitidos ao consumo final.

Europa: Índice Harmonizado de Preços ao Consumidor (HICP) para chocolate e produtos de cacau

Fonte: : Eurostat

EUA: Índice de Preços ao Produtor para o setor de fabricação de chocolate e confeitos, e Índice de Preços ao Consumidor para açúcar e doces

Fonte: : Federal Reserve Economic Data, US Bureau of Labor Statistics


No Brasil, país em que a Páscoa também tem forte relevância para o consumo de chocolate, o feriado tende a ser igualmente agridoce do ponto de vista dos preços. Dados mostram que produtos como chocolate em barra e doces registraram variações acima do Índice Nacional de Preços ao Consumidor. Dessa forma, mesmo com a correção recente das cotações internacionais, o consumidor brasileiro ainda deve encontrar preços mais altos nesta Páscoa.


Brasil: Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC)

Fonte: IBGE

Fluxos comerciais

Além da importância no consumo, o Brasil também ocupa posição relevante na indústria global de cacau. Considerando uma visão mais ampla das últimas cinco safras, o país aparece na oitava posição do ranking mundial de processamento. Esse papel torna ainda mais relevantes as discussões recentes sobre o fluxo comercial brasileiro de cacau, especialmente em um momento em que o setor já enfrenta desafios relacionados a custos, oferta e demanda.

Nesse sentido, atualizações recentes a respeito das importações têm gerado atenção no setor. A suspensão das importações de amêndoas da Costa do Marfim e as mudanças no regime de drawback, principal mecanismo utilizado para a importação de amêndoas voltadas ao processamento e à posterior exportação de derivados, aumentam as preocupações em relação à atividade de moagem no país.

Essa preocupação decorre do fato de que o Brasil possui capacidade de processamento superior à sua produção doméstica e, por isso, depende de importações para complementar o abastecimento da indústria. Considerando os últimos cinco anos, em média 17% das amêndoas processadas no país vieram do mercado externo. Desse volume, cerca de 80% tiveram origem na Costa do Marfim, participação que chegou a 100% em 2024, enquanto o restante veio principalmente de Gana. Assim, qualquer mudança que restrinja ou dificulte esse fluxo tende a ter impacto relevante sobre a indústria nacional. Nesse cenário, as medidas recentes elevaram a preocupação do mercado, mesmo em um momento marcado por preços internos de matéria-prima mais baixos, relatos de estoques mais elevados e importações elevadas em fevereiro, após um início de ano mais fraco em janeiro.

Brasil: importações de amêndoas de cacau por origem (‘000 tons)

Fonte: Comex Stat

Brasil: importações líquidas de amêndoas de cacau (‘000 tons)

Fonte: Comex Stat


Ao avaliar as exportações brasileiras de pó e manteiga, que juntos responderam, em média, por 86% das exportações de derivados de cacau do país nos últimos anos, observa-se um comportamento misto no início de 2026. As exportações de pó caíram 23% entre janeiro e fevereiro de 2026 na comparação anual, enquanto as de manteiga avançaram 37% no mesmo período.

Brasil: exportações de manteiga de cacau (‘000 tons)

Fonte: Comex Stat


Esse movimento contrasta com o observado ao longo de 2025, quando as exportações totais de pó cresceram 21% e as de manteiga recuaram 13%. Avaliando o cenário, essa diferença pode refletir os efeitos dos preços de mercado e das adaptações da indústria, incluindo mudanças de formulação e de mix de produtos. Ainda assim, também é importante considerar que o início de 2025 registrou, no caso do pó, um dos volumes mais elevados de exportações dos últimos dez anos, o que eleva a base de comparação para 2026.

Brasil: exportações de pó de cacau (‘000 tons)

Fonte: Comex Stat


Dessa forma, as medidas anunciadas chegam em um momento particularmente sensível. Mesmo com exportações de pó e manteiga ainda acima da média histórica em fevereiro, o setor passa a monitorar incertezas adicionais em relação ao abastecimento de amêndoas, ao fluxo comercial e ao rendimento industrial. Com isso, um cenário que já exigia atenção segue desafiador no médio e no longo prazo.

Em síntese, a Páscoa deste ano reforça um cenário agridoce para o mercado de cacau. Embora a recente correção das cotações internacionais possa sinalizar algum alívio adiante, os efeitos ainda não chegam de forma clara ao consumidor final, enquanto a indústria segue lidando com um ambiente de demanda fragilizada e desafios adicionais para o abastecimento e a operação no Brasil.

Em resumo

Na semana de 27 de março, os futuros do cacau devolveram parte dos ganhos anteriores e seguiram oscilando dentro de uma faixa mais limitada, em um movimento predominantemente técnico e influenciado também pelo cenário macroeconômico e energético. Às vésperas da Páscoa, embora os preços internacionais das amêndoas estejam bem abaixo dos níveis do ano passado, os consumidores ainda devem encontrar chocolates mais caros, já que os repasses ao consumo final seguem refletindo custos anteriores mais elevados. No Brasil, além desse contexto de preços, a indústria acompanha com atenção as discussões sobre importações e drawback, em um momento em que o país depende de amêndoas externas para complementar sua moagem e sustentar parte relevante das exportações de derivados.

Report Semanal — Cacau

Escrito por Carolina França
carolina.franca@hedgepointglobal.com

Revisado por Laleska Moda
laleska.moda@hedgepointglobal.com

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